Style de vie

Style de vie

Ernest Hemingway e o sonho de Paris

É a busca incessante da felicidade que move sua grandiosa aventura humana

“Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel.” (Ernest Hemingway a um amigo, 1950).

No começo dos anos 20, Hemingway e Paris começaram “um caso de amor com uma lua-de-mel carregada de sensualidade e de romantismo”. Mais de duas décadas depois, ansioso por desempenhar um papel relevante na invasão aliada, observou a ação bélica na Normandia e, depois, em torno de Rambouillet, onde “comandou” um grupo de maquis que perseguia alemães em fuga. Mas, contrariando seu estilo, não precisou exagerar, ao descrever a emocionada visão de Paris desenhada à distância: “Senti um nó esquisito na garganta e precisei limpar os óculos porque ali naquele momento, embaixo de nós, cinzenta e sempre bela, estava a cidade que mais amo em todo o mundo.”

Hemingway e sua jovem esposa Hadley chegaram a Le Havre três dias antes do Natal de 1921 e tomaram o trem para Paris. O casal se hospedou no Hôtel Jacob et D’Angleterre, na Rue Jacob nº 44, hoje apenas Hotel D’Angleterre. Pouco depois do ano novo alugaram um apartamento na Rue Cardinal Lemoine, no alto da encosta nordeste na Montagne Ste-Geneviève. O parisiense Ernest Hemingway se sente capaz de uma imensa energia. A cidade lhe trás a alegria dos seus cais, dos balls musette e de seus bistrôs: um mundo na medida do homem, um acordo feliz com a vida inteira, descrita com saudade no seu livro póstumo Paris é Uma Festa. Gertrude Stein o acolheu no 27 da Rue Fleurus, onde estava a vanguarda da pintura e da literatura. Picasso, Braque, Matisse, Apollinaire, Max Jacob, Cocteau, tinham sido, ou eram, então, seus familiares. Todos os escritores americanos que faziam a peregrinação europeia lhe homenageavam, de Fitzgerald a Ezra Pond, passando por T.S. Eliot e G. West.

Gertrude Stein descreve a impressão que lhe causou o jovem: “Eu me recordo muito bem a impressão que me fez Hemingway no primeiro dia. Era então um jovem de uma beleza extraordinária, ele tinha 23 anos, um aspecto estranho, com olhos que brilhavam mostrando interesse apaixonado, sobretudo porque eles não eram proporcionalmente interessantes”. O jovem Hemingway não era mais do que um jovem jornalista de talento ao entrar pela primeira vez no apartamento de Stein, onde fez, pode-se dizer sem medo de errar, o serviço militar da literatura. Ora, o Montparnasse de 1920 oferecia, exatamente por causa do desenraizamento em que os moços criadores se encontravam, um laboratório muito mais excitante do que Greenwich Village. Ele soube aproveitar como ninguém, escrevendo o romance dessa boêmia, O Sol Também se Levanta.

Naqueles primeiros tempos, antes de ser um lugar romântico, Paris é, para Hemingway, um lugar de trabalho. Centro estimulante da vanguarda literária francesa e anglófona, plena de revistas e editoras experimentais, é a cidade da arte absoluta. É a Paris descrita em suas obras O Sol Também se levanta, As Neves do Kilimandjaro, Verdes Colinas da África e, naturalmente, Paris é uma Festa. Conquanto esteja com mais freqüência lendo na livraria Shakespeare & Company do que nos cafés, Hemingway encontra seus amigos escritores no Select, no Deux Magots, no Dôme ou na Closerie des Lilás, em Montparnasse.

Paris é uma Festa é um livro em que nada foi esquecido, nem as conversas espirituosas na Closerie des Lilás – onde está celebrado o lugar do escritor no balcão do Bar –, nem as noites vazias de boemia no Café Select, nem os jantares de ostras e vinho, nem os dias sem dinheiro em que o cheiro doce saindo de uma padaria chegou a incomodar seu estômago vazio. Foi então que Hemingway se julgou pertencer a uma geração perdida, à lost generation, como Gertrude Stein, segundo o consenso, o batizara. A frase é a epígrafe daquele seu primeiro romance O Sol Também se Levanta.

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É um livro genial com enredo singelo e linear. Na visão de Otto Maria Carpeaux constitui a obra básica da literatura norte-americana moderna. Mas os seus leitores da primeira edição ou das primeiras edições não podiam saber e provavelmente não apreciaram as qualidades extraordinárias da ficção. Discutiram o romance por outros motivos, pois ele foi um sucesso de escândalo. É o retrato do eterno vir-a-ser ilustrado pelos versículos do Eclesiastes (I, 4-5) que fornecem o título do romance: “Uma geração passa e outra geração nasce; mas a terra continua para sempre. O Sol também se levanta e o Sol se põe e corre para o lugar onde se levantara.” É a rotina cósmica. Como se pode viver ainda, quando já não se acredita em nada? É preciso que se obedeça a uma espécie de código de honra, refúgio daqueles que perderam a fé na pátria e na humanidade, em todos os valores e na arte. É um código que só manda ficar fiel a si próprio e ao seu destino. Um de seus personagens diz: “Sou tudo aquilo, mas não quero ser canalha.” Mas a consciência dessa realidade desnuda não impedia os jovens de serem felizes.

Na sua obra póstuma Paris é uma Festa está a grande despedida daqueles tempos. Ele explica que o livro é sobre “como era Paris naqueles dias quando éramos muito pobres e muito felizes”. E acrescenta que naqueles dias “quando a primavera chegava, mesmo a falsa primavera, não havia problemas, exceto saber onde se pode ser mais feliz.”

Várias referências setorizadas se extraem de sua vida e de sua obra. Em Paris É Uma Festa, Hemingway descreve um passeio pela área, desde o seu apartamento na Rue Cardinal Lemoine no extremo oeste do Quartier Latin, passando ao longo da margem do Sena pontilhada de quiosques de livros, entrando e saindo de bistrôs, até a Brasseria Lipp, depois ao Dôme, Rotonde e Select. “Nos três primeiros cafés encontrei pessoas que conhecia de vista, outras de falar com elas,” escreveu ele. “Mas sempre havia pessoas muito mais bonitas que eu não conhecia, e que à noite com as lâmpadas recém-acesas iam apressadas a algum lugar para beber juntas, comer juntas, e depois fazer amor”. Hemingway poderia encerrar sua caminhada num marco cultural americano, a Shakespeare & Company, no número 12 da Rue de l’Odéon, uma livraria dirigida por Sylvia Beach. Sylvia inspirara-se num estabelecimento francês mais antigo, no número 7 da mesma rue, La Maison des Amis des Livres, uma pequena livraria e biblioteca de empréstimos, de propriedade de Adrienne Monnier, cujos fregueses incluíam alguns dos mais famosos nomes das letras contemporâneas e outros que ainda viriam a tornar-se conhecidos.

Na obra O Sol Também se Levanta ele transmite toda a atmosfera dessa época inquieta. Pode também ser lida como se fosse um manual turístico, uma espécie de Guide Michelin de elevado teor literário e marcadamente sentimental. Antes que se passem vinte páginas Hemingway já citou os nomes das principais ruas, praças e cafés de Paris, conduzindo o leitor numa verdadeira excursão urbana: “O táxi subiu a ladeira, atravessou a praça iluminada e entrou na escuridão, subindo sempre, depois se reaprumou numa rua sombria atrás de St. Etienne du Mont, seguiu suavemente pelo asfalto, passou as árvores e o ônibus parado na Place de la Contrescarpe e então chegou aos paralelepípedos da Rue Mouffetard.” Ele chega até a dar conselhos práticos sobre gorjetas e outras vivências: “Na manhã seguinte exagerei um pouco nas gorjetas para todo mundo do hotel, a fim de conquistar mais amigos e embarquei no trem da manhã para San Sabastian. Na estação não dei muita gorjeta ao carregador porque achei que nunca mais o veria.

Com o fim do casamento, Hemingway transferiu-se para um studio que lhe foi oferecido por Gerald Murphy, no 69 da Rue Froidevaux, rua que parte da praça Denfert-Rochereau, onde está a grande escultura do Leão de Belfort, ao lado do cemitério de Montparnasse.

Depois do casamento com Pauline Pfeiffer, o casal passou a morar num apartamento do número 6, da Rue Férou, no mesmo quartier da rive gauche em que Hemingway havia morado com Hadley. Depois, o casal se despede de Paris.

Termina aí a primeira parte de sua vida em Paris, que continuará sendo a cidade amada. Pauline e Ernest foram morar em Key West, na Flórida.

Correspondente de guerra – e já envolvido com Martha Gelhorn – voltou a Paris muitas vezes depois de autor celebrado e mundialmente reconhecido, passando a hospedar-se na rive droite. A volta mais notória e triunfal é gloriosa. Após quatro anos de ocupação alemã muitas vezes brutal, na França voltava aos poucos a tremular a bandeira francesa, a bandeira azul, branco e vermelho. Hemingway conseguiu introduzir-se nas tropas do general Jacques Leclerc, comandante da 2ª Divisão Blindada do exército francês, sendo um dos primeiros norte-americanos a marchar triunfalmente sobre a capital. Entraram na região do Bois de Boulogne na periferia da cidade. A cada quilômetro que a tropa avançava com direção ao centro da capital o exército encontrava ruas apinhadas de multidões envaidecidas. Homens, mulheres, crianças corriam para beijar e abraçar as tropas, cobriam os libertadores de flores e lhes davam garrafas de champanhe, conhaque e vinho escondidos, durante anos. No início da tarde de 25 de agosto de 1944, ao atravessarem, Hemingway e seu grupo, as multidões ao longo da Avenue Foch, finalmente o Arco do Triunfo apareceu.

Beberam garrafas de champanha, a grande caixa de ressonância do mundo ocidental voltava a ter luz e vida própria. Mas a bebemoração não durou muito, pois Hemingway tinha novo objetivo: a libertação do Travellers Club, um dos seus redutos conhecidos. Todos ergueram brindes à amitié franco-américaine. A próxima parada foi típica de Hemingway. Ele estava de olho no Ritz. O Hotel encontrava-se deserto e completamente incólume, não obstante resíduos de luta armada nas imediações. Após tomarem posse de seus quartos, pediram ao bar cinqüenta martinis. Logo chegou a namorada Mary Walsh, que será sua última esposa.

Ernest Hemingway foi e continua sendo o escritor predileto dos high-brows. Mas também gostam dele os low-brows, os leitores sem exigência de natureza estética, estilística e filosófica. Quem lê Joyce não lê E o Vento Levou e vice-versa. Mas Hemingway atravessou com aparente facilidade essa barreira. É esta a glória do grande escritor contemporâneo americano. Daí ter ele atingido um universo incomum de leitores, e persuadido, com a luz de Paris, os seus contemporâneos e os que lhe sucederam, tocados todos pela magia do sonho da Cidade-Luz e pelo imensurável poder de sedução de sua aventura humana, vivida e enunciada em suas obras. É certo que nenhum dos seus romances é própria e exclusivamente autobiográfico, mas todos eles são frutos de experiências e situações que ele viveu. Tão grande e tão forte foi sua mensagem que é usual seus leitores mais tocados pelo seu estilo e maneiras escreverem sobre ele como se estivessem escrevendo sobre um amigo perdido de muitas horas, ou mesmo da vida inteira. Ou, como me ensinaram recentemente na Havana igualmente hemingwayana, depois de ouvirem relatos afetuosos meus sobre o notável escritor, como se fosse “un Hermano mayor”.

É a busca incessante da felicidade que move sua grandiosa aventura humana e a resposta mais instigante está no seu livro póstumo, em palavras com as quais encerra suas lembranças, depois de ter afirmado que o único problema, em Paris, era “saber onde se pode ser mais feliz”. Ele não diz como alcançá-la, mas diz onde: “Paris não tem fim e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena, e retribui tudo aquilo que você lhe dê”. Ernest Hemingway vive!


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