Style de vie

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Emilie du Châtelet: a luz de Voltaire

A 1ª mulher cientista na França aparece sob a menção reducionista de amante de Voltaire

Ela ficou na história como a amante do escritor, cujo nome de nascimento era François Marie Arouet. Como a senhora, como a patroa de Voltaire. Ela, porém, foi muito mais do que isto: foi uma cientista e uma feminista de vanguarda. Voltaire a chamava “Madame Pompon Newton”. Pois ela era coquette, sempre muito maquiada, gostava de chamar atenção. Não era bonita, era grande e seca, sem quadril, sem curvas, o peito estreito, duas pequenas tetas se apresentando sem timbre de sensualidade, como uma rival a descreveu. Mas a marquesa Du Châtelet, por quem o escritor e filósofo tanto se deixou apaixonar, brilhava com outros fogos.

Buscando conhecimento, dedicava-se dia e noite ao estudo da física e das matemáticas. Ela foi a primeira mulher cientista na França, como reconhece a filósofa Elisabeth Badinter. Seu nome, no entanto, sempre ficou ignorado. E quando ele aparece é sempre sob a menção reducionista de amante de Voltaire. Visão machista.

Cirey. Château de Cirey, em Champagne. É lá que Voltaire e Madame Du Châtelet viveram juntos durante quatorze anos. Tudo começa em 1735. O escritor procura deixar a capital francesa. Suas Lettres Philosophiques, verdadeira denúncia contra o obscurantismo, tinham desafiado o poder. Ele quer evitar nova e indesejada permanência na Bastille. Perdidamente apaixonada, Emilie du Châtelet lhe abre as portas de sua mansão. Seu marido, Florent Claude du Châtelet, com quem ela teve três filhos, é um militar que não está nunca presente em Cirey. De uma benevolência rara, ele irá fechar os olhos sobre o adultério de sua mulher. E sobre o mais louco e destravado romance das Luzes.

O exilado transforma o castelo com seus pertences. Um teatro. Numa galeria instala microscópios, barômetros, telescópios. Um verdadeiro laboratório cientifico. Ela tem vinte e nove anos. Ele, doze anos mais. A cumplicidade intelectual do casal é intensa. A marquesa se levanta nas auroras, lê para Voltaire textos em inglês ou em latim. Ela, que foi aluna do grande matemático Maupertuis (igualmente seu amante), inicia o escritor nas matérias cientificas. “Eu estudo a filosofia de Newton sob os olhos de Emilie, que é mais amável do que Newton”, proclama, feliz, o filósofo.

Naquela época, o teórico da lei da gravidade é um ilustre desconhecido pela maior parte das pessoas, mesmo no mundo científico. Emilie instrui seu parceiro. Ele colabora com ela na vulgarização, na partilha dos conhecimentos. Um duo de choc. Eles definiam os assuntos dos estudos juntos, trabalhavam em seguida nesse objetivo, depois comparavam os resultados, descreve um especialista em Voltaire, Andrew Brown. Detiveram-se em experiências sobre a propagação do fogo. E redigiram, cada um, ensaio sobre o assunto para a Academia Francesa.

A atitude de Emilie é revolucionário para aquela época. Ela se quer livre sobre seus objetivos e livre em suas pesquisas. Mantem uma correspondência com os pesquisadores de toda a Europa, é eleita para a Academia de Ciência de Bologne, na Itália, breve se aventura em áreas interditas então às mulheres. Não é fácil. “Eu sinto todas as malhas do pré-julgamento”, deplora essa pioneira do feminismo. E é uma das contradições daquele mundo que mais a surpreendeu. Os editores, como o público, distanciavam-se das mulheres sábias.

Não foi este o caso de Voltaire. Ele dirá, aliás, de Moliére, e de sua famosa peça: “Em vão ele quis cobrir de ridículo uma mulher que tinha aprendido astronomia. Teria feito melhor se ele próprio estudasse e aprendesse aquilo que aquela mulher sabia”. O eremita de Cirey teve a chance de manifestar sua gratidão por tudo que ele deveu a sua companheira. Ela o transformou num filosofo completo. Emilie foi, de qualquer sorte, seu verdadeiro mentor.

Ela fez honra ao sexo feminino e à França. Na verdade, eu estou pleno de admiração, diz o escritor. Voltaire clama que ele é seu scribe, que ele escreve de acordo com o ditado de Madame de Châtelet. Mas os especialistas se perguntam em que medida certas obras de Voltaire não seriam efetivamente em parte escritas a quatro mãos? Textos, notadamente entre aqueles que vêm de ser agora exumados, comportam anotações feitas à mão pelos dois intelectuais, parceiros na inteligência, na produção e na alcova.

Emilie du Châtelet morre em 10 de setembro de 1749 em Lunéville. Ela morre de uma infecção depois do parto. Depois de 1748, sentindo-se desprezada por Voltaire, que cortejava sua própria sobrinha, a Marquesa tinha se enamorado de Jean-François de Saint-Lambert. Um belo militar, também filosofo. Em seu leito de morte, a cientista está cercada por Voltaire, Saint-Lambert e de seu marido, recém-chegado para o enterro. “Eu perdi a metade de mim mesmo”, escreverá, pesaroso, Voltaire, depois da partida de Madame de Châtelet.

Essa mulher tinha decidido viver de uma forma própria e especial. De violar os códigos em vigor no seu meio. A busca de conhecimentos, a busca do amor vivo e livre, tinham sido seu único credo. Num opúsculo, escrito depois do fim de sua relação com Voltaire e intitulado Discurso sobre a Felicidade, Emilie du Châtelet continua a se divertir com os fastos da vida: “Os moralistas que dizem aos homens’ reprimam suas paixões e dominem seus desejos, se vocês querem ser felizes’, não conhecem o caminho da felicidade. Não se é feliz senão pelos gostos e pelas paixões amplamente realizadas e satisfeitas”.


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