Style de vie

Style de vie

Aix-les-Bains, cidade das águas da Belle Époque

Pré-românticos encontraram cenário propício às emoções, espaço de liberdade, vida simples, liberada de exigências mundanas

Mont Revard, montanha perto de Aix-les-Bains. Crédito: Pixabay

À Elvire
Que restera-t-il d’elle? à peine un souvenir:
Le tombeau qui l’attend l’engloutit tout entière,
Un silence éternel succède à ses amours;
Mais les siècles auront passé sur ta poussière
Elvire, et tu vivras toujours!

Alphonse de Lamartine

1º de outubro de 1816. Alphonse de Lamartine tem vinte e seis anos quando chega a Aix. O poeta tem uma leve inflamação no fígado mas ele está sobretudo enfadado em face de uma existência vazia e improdutiva. Toma pensão com o Dr. Perrier e encontra a jovem Madame Charles, Julie, sua vizinha de quarto. De origem crioula, ela é a esposa do físico Charles, e veio tentar se curar de uma grave infecção pulmonar. No dia oito de outubro, enquanto ela passeia de barco no lago Du Bourget, uma violenta tempestade se precipita. Julie está em perigo. É então que Lamartine, possuído de grande coragem, atira-se em seu socorro e a salva.

Duas almas românticas se reconhecem, identificam-se e trocam suas fantasias e seus devaneios. Os jovens vivem uma paixão ardente. No fim de outubro chega a hora da separação. Alphonse vai para Mácon e Julie deve voltar a Paris. Eles se reencontram algumas vezes durante o inverno. Mas madame Charles está mal de saúde. Chega o verão, ela não pode reencontrar Lamartine, que a espera em Aix. O poeta então escreve os versos sublimes do Lac. Julie morre em dezembro de 1817, mas Lamartine a torna imortal sob o nome de Elvire (“Elvire, et tu vivras toujours!”).

As obras literárias vivem, sobrevivem ou morrem, desaparecem, segundo leis misteriosas. Ressuscitam ou passam de uma existência apagada a uma radiosa presença. Como classificar Lamartine no Panteon literário? Se ele não está esquecido, quem o lê hoje? Ele, que foi um homem viril, colecionador de conquistas amorosas (até o seu casamento), um político clarividente e corajoso, um crente que tem suas horas de dúvidas e de blasfêmia, um pensador político, um político de sucesso, um grande poeta, um crente no sucesso da humanidade!

O político. Imagine-se um poeta cedendo, um dia, o lugar ao parlamentar que uma Revolução celebrará, por alguns meses, no comando da França. Vê-se bem como o autor dos Girondinos tornou-se Ministro de 1848. Vê-se, por igual, como o autor das Meditações pôde escrever os Girondinos. Em realidade, a política não esteve nunca ausente da obra do poeta e quando deputado por Mácon, consagrando à vida pública o mais brilhante de seu tempo, ele não deixa nunca de ser poeta. Ao contrário, ele consagra em versos aquilo que ele não ousa dizer em prosa, na Câmara ou aos seus eleitores.

E que dizer da cidade onde ele viveu o grande amor da juventude? A cidade que tem origem em épocas remotas, de cidade romana – os romanos deixaram sempre traços de luz, de brilho, de beleza – a cidade das águas. Os traços da ocupação romana remontam ao primeiro século antes de Cristo. No princípio, a utilização das águas termais é religiosa. Os romanos edificam termas monumentais que têm uma vocação medicinal. Numerosas inscrições testemunham a importância do Arco de Campanus, com destinação votiva, atualmente diante das grandes Termas construídas no século XIX. Os pré-românticos encontraram lá um cenário propício às emoções, um espaço de liberdade, uma vida simples, liberada das exigências mundanas.

Pouco a pouco as cidades de águas termais vão se desenvolver para receber uma sociedade cultivada, à procura de curas, mas também procurando divertir-se. As fontes termais são o pretexto para o cultivo de uma festa permanente, onde o prazer torna-se o único guia. Em torno do imaginário da fonte termal, saindo das profundezas da terra e da noite dos tempos, é fácil se libertar dos entraves e celebrar o culto pagão do prazer.

A família Bonaparte foi a grande responsável pela divulgação que possibilitou o sucesso. Enquanto os homens guerreavam e se atribuíam coroas, as mulheres reinavam nos salões e na vida intelectual e artística. Elas inventaram o que chamamos hoje de férias, férias de obrigações mundanas, mas também reencontros com a natureza, liberação do corpo e do espírito, amores clandestinos.

Essencialmente usada como bebida até o século XIX, a água termal começa a fazer a prova de suas virtudes. Um médico da região, o Dr. Cabias, prescrevia as águas termais à razão de cinco a seis litros por dia – sim, litros, nada menos de 5 a 6 litros a cada dia –, que ele aconselhava perfumar com ajuda de anis ou de suco de limão. A dose depois veio a ser reduzida a doze copos diários, associados aos banhos e duchas e ao exercício físico. Em Aix cura-se, então, praticamente todas as doenças: as doenças nervosas, enfermidades da vista, esterilidade, as doenças crônicas. Utiliza-se também a eletricidade, sobretudo para doenças do sistema nervoso, um magnetismo. Os médicos de Aix são humanistas, técnicos e hábeis promotores da estação termal. Eles recebem, aconselham, cuidam… e distraem seus pacientes.

Desde as seis da manhã o estabelecimento termal é o teatro de uma intensa agitação. Os médicos preconizam banhos muito cedo. Depois de sua cura, um homem galante saberá muito bem se ocupar e seguir os conselhos inscritos em seu guia turístico da época: “Para o turista, caminhada pela manhã diante do estabelecimento, visita ao mercado das flores e compra de um pequeno bouquet de cyclamens. De lá ir a Praça Du Revard, ver no quiosque as excursões oferecidas para o dia. Comprar os jornais de Paris chegados na véspera e, à noite, caminhada romântica em torno da cidade de Aix.” (Guide Conty, 1893).

As ofertas atingem verdadeiros absurdos. Em 1908, o cassino oferece a seguinte nota, com a assinatura de um médico da cidade: “No interesse dos honoráveis curistas, eu me permito lhes fazer presente que o fato de assistir as representações teatrais dá resultados excelentes para a cura. Uma noite alegre garante ao doente uma noite calma, tanto que a solidão traz melancolia ao espírito e ocasiona uma noite agitada.

A arquitetura é “art nouveau.” Edificados num período muito curto, os palácios, os prédios, os edifícios apresentam uma unidade, notada a primeira à vista. A arquitetura do século XIX, durante muito tempo mal amada, aí se exprime com todo seu vigor. Se por muito tempo criticou-se o abuso do pastiche e os excessos na decoração, esta arquitetura apresenta características que se tornaram facilmente perceptíveis nos palácios hoje abandonados por sua clientela de luxo. Ela utiliza todos os estilos do passado, próximo ou distante, e todas as influências de cultura do mundo inteiro, fazendo coexistir os estilos mais diversos, o que a torna única.

Isto porque ela renova esses estilos e lhes dá liberdade e dinamismo, pela utilização de materiais novos: ferro, ferro fundido, vidro para as galerias cobertas e as marquises, e até mesmo o concreto armado. É uma arquitetura moderna, audaciosa, confiante no poder dos homens e destinada a engrandecer o conjunto. Esse estilo, que se chama ecletismo, consiste em escolher, no patrimônio cultural da humanidade, aquilo que ele tem de melhor, para criar uma obra decididamente moderna. Inspirados por tese naturalistas de Viollet-Le-Duc, os décors privilegiam a mulher, símbolo da vida, as flores e folhagens, que evocam a vida e a fecundidade, a fauna aquática que ressalta o poder da água termal.

O modo de hospedagem mais chique é a Villa. Ele permite organizar seu estilo de vida, trazer consigo suas empregadas, receber os amigos. Entre as vilas mais notáveis é preciso citar o Chalé de Solms, na avenida do mesmo nome, construído por volta de 1855 pelo Conde Aléxis de Pomereu para a princesa Marie de Solms, neta de Lucien Bonaparte. Mulher de cultura, cultivada, intrigante, ela foi expulsa da França pelas suas idéias políticas. Nascida na Irlanda, seus talentos naturais receberam o apoio dos grandes mestres nas muitas artes, tais como Lamennais, Rossini, Chopin.

Cognominada “a musa dos Alpes”, ela recebe em sua vila seus amigos escritores, Ronsard, Toni Révillon, Eugéne Süe, publica uma revista, compõe peça de teatros e participa de numerosas festas. Fiel à estação termal malgrado a vida agitada, ela está enterrada no cemitério de Aix. Os grandes nomes da costura, da perfumaria, os concessionários dos automóveis de luxo estavam, todos, presentes nas ruas de Aix. Os perfumes se compravam aos litros, os chapéus às dezenas, as coleções de moda são apresentadas assiduamente.

Associada como nunca ao romantismo, graças às poesias de Lamartine, Aix receberá numerosos homens de letras, escritores e poetas. Alexandre Dumas pai, então cronista de talento, faz presença seguidamente na cidade. No mesmo ano de 1832 um certo Honoré de Balzac vem tentar sua sorte, ao lado de certa madame de Castris. Ele não consegue ganhar mas se serve das águas depois de uma queda da diligência. Ele escrevera, alguns anos antes, La Peau de Chagrin, na qual descreve Aix e o lago sem jamais ter ido lá. Desta vez ele terá ocasião de verificar a exatidão das suas descrições. Mais de cinqüenta anos depois, em 1889, Paul Verlaine, sofrendo de um reumatismo crônico, reencontra o lugar dos amores de Raphaël e deixará um desenho representando Lamartine saindo dos banhos. Não tem um centavo e graças à generosidade de seu medico pode ficar hospedado na pensão. Diz ele: “A vida não é tão cara como se pensava. Ingleses, muito deles curistas em tratamento. São os banhos e as duchas – 2.50 francos uns, os outros, depois, 4 francos – que custam mais e eles não me custam nada, bem como o quarto da pensão. Esses senhores são muito gentis. Velhas senhoras cheias de anedotas.”

Em junho de 1888 Maupassant é tratado pelo Dr. Cazalis de uma sífilis. Ele está hospedado na pensão de Varicourt. O começo de sua obra póstuma, L’Âme Étrangére, se desenvolve em Aix: “Aix, cidade das duchas e de cassinos, da higiene, do prazer, onde todos os príncipes da terra que os tronos rejeitaram se encontram cordialmente com todos os rastaquouères que as prisões não quiseram.”

O tempo passou, a moda desapareceu. Diante da baixa regular do número de curistas, Aix-Les-Bains resolveu reagir afirmando-se um local excepcional, de águas reconhecidas pela sua eficácia terapêutica e deixando-se relembrar pelo seu passado glorioso. A estação termal, embora mantendo a atividade clássica, se volta para o turismo de saúde. O venerável edifício das antigas termas, sete mil metros quadrados construídos à gloria da água, com uma decoração extraordinária de mosaicos, mármores, estátuas, vem de se transformar num centro de lazer destinado ao grande público, sempre em torno da água termal. Os fastos da belle époque não voltaram mais. Mas eles permitiram a edificação de um patrimônio considerável, que faz de algumas villes d’eaux, e de Aix-Les-Bains, em particular, destinos absolutamente privilegiados.

Um pouco à distância do centro está o lago. Por que a cidade está tão distante do seu belo lago, o maior lago natural da França? A razão é simples e histórica: as fontes termais têm sido sempre o ponto de interesse da cidade e tudo se construiu em torno delas. O lago não era objeto do interesse dos curistas.

O lago Du Bourget era tido como caprichoso, perigoso, submetido às inundações do Ródano. Mas o tempo passou. Equipamentos de lazer floresceram às suas margens, um magnífico calçadão permite ligar o Grand Port ao Petit Port, cruzeiros e esportes náuticos se desenvolveram.

Hoje, Aix-Les-Bains se associa ao projeto turístico local de valorizar o lago, apoiando-se na beleza de suas paisagens, na forte presença histórica do reino de Savoie e, marcadamente, na excepcional preservação dos espaços naturais.

Referências bibliográficas

  • Alphonse de Lamartine, Méditations poétiques et Nouvelles Méditations poétiques, Poésie / Gallimard, 1981

  • Jean Guibal, Aix-les-Bains, Les Patrimoines, Ed. Le Dauphine, 2005

  • Le Guide Vert, Alpes du Nord, Savoie Dauphiné, Michelin, Editions des Voyages, 2005

  • Guia Visual, Folha de São Paulo, França.


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