O mundo fora dos autos

O Mundo Fora dos Autos

Paul McCartney, ‘Blackbird’ e os Nove de Little Rock

Luta dos negros pelos direitos civis nos EUA teria inspirado a canção do músico inglês

Paul e as militantes do "Little Rock Nine". Imagem: paulmccartney.com/ divulgação

Sir Paul McCartney está outra vez no Brasil e em seus shows não deve faltar aquele que é um de seus mais conhecidos standards, “Blackbird”, certamente uma das mais belas canções que o músico inglês compôs durante sua carreira nos Beatles.

Em uma tradução livre, é plausível interpretar a composição como uma ode à autoconsciência política e à liberdade, conforme parecem sugerir suas duas primeiras estrofes:

Pássaro negro cantando na calada da noite

Junte suas asas quebradas;

Durante toda sua vida

Você só estava esperando esse momento para ganhar o céu

Pássaro negro cantando na calada da noite

Levante esses olhos fundos e aprenda a enxergar;

Durante toda sua vida

Você só estava esperando esse momento para conquistar a liberdade

“Blackbird” saiu no célebre “Álbum Branco”, que foi lançado em 25 de novembro de 1968. Segundo afirma o pesquisador Steven Turner, no interessante livro “Beatles – a história por trás de todas as canções” (Cosac Naify, São Paulo, 2009), a música foi composta por volta do mês de maio do mesmo ano, conforme registros de uma fita “demo” encontrada na casa de George Harrison.

Turner diz que há controvérsias sobre qual teria sido a real fonte de inspiração de McCartney para compor a belíssima “Blackbird”. Para alguns, ele possivelmente começou a elaborar a canção durante a tumultuosa viagem “espiritual” para a Índia. Certa manhã, o artista haveria se encantado pelo canto de um exótico pássaro negro, cujos acordes ele tentara reproduzir.

Ainda segundo Turner, há uma outra explicação relacionada à sua família, segundo a qual a ideia surgiu durante uma conversa do músico com a mãe de sua madrasta, em uma noite em que Paul a visitava em um hospital. A velha senhora lhe teria dito que ouvia um pássaro negro cantar durante toda a madrugada. E o compositor teria inclusive gravado o canto da ave!

McCartney, por sua vez, em uma antiga entrevista, declarou que a base melódica de “Blackbird” foi recriada a partir de um trecho do compositor clássico Bach, que ele costumava dedilhar na juventude, seguindo um manual de violão. Mas todas essas narrativas não explicam o sentido da letra da composição, que viria a ser mundialmente conhecida.

A versão oficial que passou para a história é muito mais romantizada e idealista do que as explicações anteriores.

O pastor Martin Luther King, maior líder na luta dos negros pelos direitos civis nos EUA, foi assassinado na sacada do Lorraine Motel, em Memphis, Tennessee, no dia 04 de abril de 1968. O crime causou uma verdadeira comoção mundial, coincidindo exatamente com o período do processo de criação de “Blackbird”. O compositor inglês teria, então, rendido homenagem a todos aqueles que tombaram na luta em defesa da igualdade civil dos afroamericanos nos Estados Unidos, escrevendo o poema em tons políticos sobre a melodia que já estava pronta.

Corrobora esta versão o fato de que o termo “blackbird” na língua inglesa fora muito usado ao tempo da escravidão para se referir aos africanos em mercados de escravos, com conotação pejorativa. Porém, durante os anos 1960, a expressão foi apropriada pelos movimentos em defesa dos direitos civis, que lhe atribuíram o sentido antípoda de liberdade. Houve mesmo, por essa época, um bem-sucedido musical off-Broadway intitulado “Fly Blackbird”, cujo tema era a defesa da liberdade civil dos negros.

Paul McCartney, que aprecia muito a imagem pública ligada ao seu cartaz de “bom moço”, tem, é claro, estimulado bastante a versão “oficializada” de que “Blackbird” é uma homenagem à causa dos militantes do movimento negro.

Em 2016, quando fez uma turnê pelos EUA, o músico de Liverpool passou pelo Arkansas (estado segregacionista enquanto esse regime foi tolerado) e fez questão de visitar duas militantes que ainda estão vivas (como se vê da foto que ilustra a matéria) do grupo de estudantes que desafiaram o governo daquele Estado no célebre caso dos “Nove de Little Rock”. Depois do encontro, o artista britânico tuitou: “Incrível encontrar duas das integrantes do Little Rock Nine – pioneiras do movimento pelos direitos civis e inspiração para Blackbird”.

Durante a apresentação de 2016 em Little Rock, Paul declarou no palco antes de tocar “Blackbird”: “Voltando aos anos 1960, havia muitos problemas com os direitos civis, particularmente em Little Rock. Ouvíamos essas notícias lá na Inglaterra, por isso esse é um lugar muito importante para nós, pois em minha opinião esse foi o lugar onde os direitos civis começaram. Nós acompanhávamos o que estava acontecendo e simpatizávamos com as pessoas que enfrentavam esses problemas, e isso me fez querer escrever uma música que, se alcançasse aqueles que viviam esses problemas, poderia ajudá-los minimamente.”

Mas quem eram esses militantes que McCartney reverenciou?

A história de resistência, perseverança e ativismo dos “Nove de Little Rock” é preciosa e comovente, tendo chegado, inclusive, à Suprema Corte dos EUA, no caso que entrou para os registros judiciários como Cooper v. Aron 358 U.S. 1 (1958).

O processo foi um desdobramento da decisão da corte constitucional americana que em 1954 determinou a dessegregação do sistema escolar público, o caso Brown I (Brown v. Board of Education of Topeka, 347 U.S. 483 (1954)).

Em razão da ambiguidade da decisão proferida no segundo julgamento do caso Brown (Brown v. Board of Education of Topeka 349 U.S. 294 (1955)), por isso mais conhecido como “Brown II” (aquele em que se decidiu como a dessegregação nas escolas públicas seria posta em prática), alguns estados que resistiam ao fim da segregação perceberam que poderiam criar obstáculos à efetiva implementação daquela medida judicial, no mínimo retardando-a, já que a Suprema Corte estabelecera que a integração racial poderia seguir uma velocidade “cautelosa”. O Conselho de Educação de Little Rock, Arkansas, havia decidido que a dessegregação racial nas escolas começaria somente em 1957 (a decisão de Brown II era de 1955, como sei viu).

Um dia antes do início deste ano letivo, no entanto, o Governador do Estado Orval Faubus, pró-segregação, alegando o perigo de iminentes distúrbios da ordem pública, determinou que a guarda nacional do Arkansas impedisse a entrada de nove estudantes negros que estavam matriculados na escola central do ensino médio (Central High School), os quais passaram a ser conhecidos como “Os Nove de Little Rock.”.

Além disto, a legislatura estadual aprovou uma emenda à Constituição do Estado do Arkansas, contrária à dessegregação, e uma lei estadual que tornava a frequência escolar facultativa em escolas integradas. Diante do impasse gerado, o Governador retirou as forças da Guarda, mas os estudantes negros foram intimidados e impedidos de entrar na escola pela multidão que se reuniu do lado de fora. No dia seguinte, o Presidente Dwight Eisenhower enviou tropas federais de combate para assegurar o acesso dos estudantes negros à escola Central.

No fim do ano, durante o recesso escolar, o Conselho de Educação de Little Rock ajuizou uma ação na Justiça Federal, pedindo que a implementação da integração racial nas escolas fosse adiada em dois anos e meio, com a finalidade de diminuir as tensões. A justiça federal acolheu o pedido. A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP), apelou desta decisão para a Suprema Corte. Eram basicamente duas as questões submetidas a julgamento: a primeira, se um adiamento “de boa fé” do plano de integração, com o objetivo de evitar conflitos, violava os direitos dos estudantes negros; a segunda, se o Governador e o legislativo estadual estavam vinculados ao cumprimento da decisão da Suprema Corte.

Quanto à primeira questão, a corte decidiu que o adiamento não era possível, ainda que com a intenção de preservar a ordem pública. E, em seguida, estabeleceu que nenhum membro do Legislativo, Executivo ou Judiciário estaduais poderia descumprir decisão da Suprema Corte, pois isto implicaria em desobedecer a própria Constituição.

Depois da decisão, o governador Falbus não entregou os pontos e elaborou um plano para fechar as escolas e privatizá-las. O projeto foi submetido a referendo, porém levou a um novo impasse, pois o fechamento das escolas foi aprovado, mas não a privatização. Todos os alunos perderam um ano letivo (1958/59). As aulas foram retomadas somente em setembro de 1959 e os nove de Little Rock foram finalmente admitidos, embora tenham sofrido assédio moral e físico brutal dos demais estudantes brancos durante sua permanência. Mas todos concluíram o ensino médio. Eles passaram a ser considerados verdadeiros heróis da causa dos negros nos EUA.

Algumas pessoas criticaram McCartney por se apropriar oportunisticamente da mística em torno dos Nove de Little Rock, com a finalidade de elevar “Blackbird” ao status de canção política dos negros, especialmente porque a música só foi escrita dez anos depois dos eventos na Central High School, quando a Lei dos Direitos Civis (que acabou definitivamente com a segregação) já havia sido aprovada, em 1964. Talvez ele tenha forçado um pouco a barra, mas Paul e os Beatles merecem algum crédito nesta questão.

Quando os Beatles fizeram a sua primeira e estrondosa turnê pelos EUA, em 1964 (no auge dos conflitos raciais e no ano em que a Lei dos Direitos Civis seria promulgada), eles foram o primeiro grupo internacional a incluir em seu contrato uma cláusula segundo a qual se desobrigariam de apresentar-se em estádios nos quais a plateia fosse segregada por cor.

Por isso, John Lennon ficou furioso quando descobriu que, a despeito da regra contratual, o estádio Gator Bowl em Jacksonville, Florida, havia planejado separar a audiência por cor. Com apoio dos demais integrantes da banda, Lennon declarou à imprensa: “Nós nunca tocamos para um público segregado e não será agora que começaremos a fazê-lo. Preferimos perder o dinheiro pago pela apresentação”. Eles oficializaram essa posição em um comunicado à imprensa, dizendo que só tocariam se os negros pudessem acomodar-se em qualquer lugar do estádio.

Além disso, deve-se reconhecer a ligação genuína de “Macca” com o Deep South e a cultura negra desta região, que data desde o fim dos anos 1950. Basta lembrar que algumas das primeiras músicas gravadas pelos Beatles eram clássicos do Rithm and Blues, como “Hound Dog”, “Baby It’s You” e “Boys”, estas duas últimas interpretadas anteriormente pelo quinteto feminino de vozes negras The Shirelles. Especialmente na fase inicial do grupo, o cancioneiro dos Beatles foi influenciado de forma muito forte pela tradição musical dos negros do Mississipi. Há um fantástico registro de uma conversa entre Paul McCartney e o lendário Carl Perkins, disponível no You Tube, onde eles dialogam sobre essa presença da música negra nos EUA e na Inglaterra no período em que eles se formaram artisticamente.

Também merece ser lembrado que quando os Beatles dispararam para a fama e começaram a maratona de turnês na Inglaterra, eles costumavam convidar, para a abertura de seus shows, cantoras negras do Soul americano, como as talentosíssimas Esther Philips e Mary Wells.

Seja como for, dificilmente saberemos se realmente procede a versão edulcorada que relaciona “Blackbird” à causa do movimento negro dos EUA. Pouco importa. Como diriam os italianos, “si non è vero, è ben trovato”.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito