O mundo fora dos autos

O Mundo Fora dos Autos

Norman Rockwell e ‘o problema com o qual todos convivemos’

Ilustrador americano abandonou o conformismo para denunciar o preconceito contra negros e índios

"The Problem We All Live With", de Norman Rockwell (1894-1978). wikimedia commons

Stockbridge é uma cidadezinha minúscula e encantadora nos cafundós do Massachusetts, mas não é difícil chegar lá, porque os cafundós do Massachusetts ficam a apenas duas horas e meia de Boston, pela Interstate 95. Estou me referindo à região do extremo oeste daquele estado pioneiro, que fica nas frinjas das lindas Montanhas Apalaches, quase na divisa com o Estado de Nova Iorque. Esses condados do extremo ocidente massachusettsiano tiveram uma grande importância na história constitucional dos EUA, pois foi lá que rebentou a revolta Shays, quando os Treze Estados já haviam adquirido a independência da Inglaterra, mas a federação ainda não havia sido formada.

Shays era um ex-combatente da Guerra de Independência, estabelecido logo depois como agricultor que estava completamente endividado e resolveu atacar os tribunais e juízes que lhe cobravam as dívidas. Achava injusto haver lutado pelo fim do governo colonial e depois ser processado pelas novas autoridades investidas pelo estado independente de Massachusetts, com ameaça de ver sua propriedade penhorada. Juntando outros lavradores igualmente endividados, o movimento chegou a atacar e tocar fogo em fóruns da justiça.

Os líderes políticos mais proeminentes da Revolução Americana, homens ricos e cultos como James Madison e Alexander Hamilton, ficaram alarmados com a desordem no oeste de Massachusetts, percebendo que isso estava prestes a se espalhar em todas as antigas treze colônias. Esse foi um dos principais motivos que os fez convocar a Convenção da Filadélfia, cujo objetivo era consolidar um governo nacional forte que pudesse desbaratar a desordem que parecia querer se espalhar pelas antigas treze colônias, agora independentes.

No entanto, nos dias de hoje, a principal atração turística por aqueles lados não são os marcos históricos da Revolta Shays, quase invisíveis e esquecidos. O que atrai cerca de 200 mil visitantes anuais a Stockbridge (que tem apenas dois mil habitantes) é o seu principal centro cultural: o Museu Norman Rockwell. Também eu me dirigi para lá assim que cheguei para uma visita ao estado de Massachusetts, pois sempre quis conhecer o legado desse que é um dos maiores artistas americanos do Século XX. E que, aliás, por via transversa, acabou também se envolvendo no debate constitucional americano.

Norman Rockwell nasceu na cidade de Nova Iorque no ano de 1894 e desde criança revelou um talento extraordinário para o desenho, sendo daqueles desenhistas exímios que retratam as pessoas com fidelidade chocante e espantosa, cujo resultado passaria facilmente por uma foto.

No entanto, no início do século XX esse tipo de arte se encontrava em baixa, já que o hiper-realismo perdera significação com o advento da própria fotografia, que “libertou” os artistas para movimentos como o impressionismo e o expressionismo.

Mas no século XX restava ainda um importante espaço aos artistas dotados do talento do tipo de Rockwell, a ilustração de livros, revistas e jornais, devido ao que era ainda um alto custo de produção e reprodução de fotografias. Rockwell começou a se destacar como ilustrador depois de ter sido contratado para produzir imagens para obras de Mark Twain, como “Tom Sawyer” e “Huckleberry Finn”. O artista viajou para o sul dos Estados Unidos, onde as histórias se passavam com o fim de conhecer o ambiente a ser retratado e depois, em sua casa na região de rural de Vermont, onde vivia, chamava meninos da vizinhança para reproduzir os movimentos e ações dos garotos que protagonizam as narrativas. Essa meticulosidade na concepção de seus trabalhos o acompanharia em toda a carreira e seria um dos segredos do seu sucesso.

Depois de granjear prestígio como ilustrador das histórias de Mark Twain, em 1916 Norman Rockwell enviou um material para a The Saturday Evening Post, a “revista semanal da família americana” e teve um de seus trabalhos escolhidos para a capa da publicação, o que lhe rendeu um cachê de 75 dólares, valor expressivo para a época. Mais do que dinheiro, conseguir uma capa naquela publicação era um grande passo para a fama. A revista tinha tiragem monstruosa e estava virtualmente em todas as casas de pessoas bem informadas. Mais do que isso, era presença certa em salões de cabeleireiro, consultórios de médicos e dentistas ou escritórios comerciais. Junto com o jornal, era a principal forma de informação e entretenimento da classe média, quando o rádio ainda era incipiente e não havia TV.

Os seus traços realistas, e a forma bem-humorada e terna como captava cenas do cotidiano do american way of life, o levaram ao posto de principal ilustrador da The Saturday Evening Post, onde permaneceu por incríveis 47 anos até a década de sessenta, quando a própria revista entrou em declínio diante do surgimento de concorrentes mais ousadas e da ascensão da televisão como principal mídia de informação.

Mas a The Saturday Evening Post também estava fora de sintonia com os novos ventos de liberdade que sopravam nos anos sessenta. A publicação, embora muito respeitada quanto ao seu conteúdo jornalístico, era dirigida exclusivamente às famílias brancas e abordava os conflitos raciais emergentes de forma muito delicada em suas reportagens. Nos bastidores, no entanto, não havia tanto prurido.

Rockwell recebera instruções do editor de que negros somente poderiam aparecer nas capas da revista se fossem retratados como trabalhadores, nunca como personagens principais das cenas.

O artista, contrariado, engoliu essas regras durante muito tempo, pois esse trabalho era a sua fonte de renda e prestígio.

Rockwell já havia dado mostras de suas tendências políticas liberais quando produziu quatro grandes painéis para ilustrar o discurso de Franklin Delano Roosevelt sobre “as quatro liberdades essenciais do povo americano”. O pronunciamento de Roosevelt não havia causado grande impacto quanto proferido perante o Congresso, e somente despertou atenção pública quando veiculado na The Saturday Evening Post, ao lado das belíssimas ilustrações do artista nova-iorquino.

Mas foi somente ao deixar a The Saturday Evening Post depois de décadas, que Norman Rockwell sentiu-se livre para produzir alguns de seus trabalhos que o consagrariam definitivamente e passou a publicar em revistas mais liberais, especialmente a Look, no qual lhe foi conferida plena liberdade artística. Foi para esse bissemanário que ele produziu duas peças instigantes que retratam as fissuras da sociedade americana decorrentes da segregação racial institucionalizada, sistema que então começava a desmoronar.

Em “The Problem We All Live With”, Rockwell eternizou em um quadro extraordinário uma imagem emblemática da história recente dos EUA: a da menina Ruby Bridges indo para a escola em New Orleans, Louisiana, acompanhada de quatro oficiais de Justiça, em cumprimento à ordem judicial de dessegregação no sistema educacional da cidade.

Como pano de fundo, vemos um muro atingido por um tomate e uma inscrição racista. A grande sacada do autor foi colocar o leitor da revista na posição de quem potencialmente está ameaçando a menina e as autoridades, levando-o a um inevitável exame de consciência. Esse quadro foi levado para exibição na Casa Branca em 2011, quando Barack Obama recebeu Ruby Bridges em pessoa para uma homenagem.

Com o mesmo propósito, o artista compôs “New Kids on the Neighborhood”, que mostra a chegada de novos vizinhos negros a um bairro de Chicago que anteriormente era segregado (durante muito tempo em algumas cidades dos EUA, negros não poderiam comprar ou alugar propriedade em bairros designados como “brancos”). A imagem é tocante porque mostra apenas a curiosidade mútua entre crianças brancas e negras que até então jamais conviviam como vizinhos, por decisão do mundo adulto. Essa obra, que igualmente pode ser vista no museu dedicado à sua memória, foi também uma mensagem de esperança que Rockwell estava enviando ao futuro, demonstrando de alguma forma que sua geração havia fracassado no propósito da integração racial plena.

Um outro grande momento no fim da carreira de Norman Rockwell ocorreu em 1970, quando ele recebeu uma comissão de um órgão oficial do governo federal americano para retratar o que era considerada uma das mais magníficas proezas técnicas da engenharia nacional: a construção da barragem sobre o Rio Colorado no norte do estado do Arizona, então recém concluída. Apesar do faraonismo inquestionável da construção, ela deixava um legado polêmico, pois o desvio no curso do rio afetava dramaticamente o modo de vida das comunidades Navajo que vivam em reservas indígenas naquela área.

Rockwell retratou a construção de um ângulo impressionante, a partir de um promontório acima da barragem, sobre o qual colocou uma família Navajo mirando a obra, com um olhar desolado e impotente.

Há uma crítica social contundente subjacente à ilustração e não se sabe se os comissionários gostaram do resultado; parece que não, pois hoje o painel imenso está esplendidamente em exposição no museu dedicado a Norman Rockwell, que morreu em Stockbridge, aos 84 anos, em 1978.


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