O crime e o homem

Juízes

Penduricalhos

Judiciário precisa parar com o discurso ridículo de que quase 35 mil reais por mês não é um bom salário

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Hoje em dia o mais falho e hipócrita dos discursos diz respeito a solidez de nossas instituições.

Todas as instituições que deveriam ser republicanas se desvirtuaram para serem conduzidas e agirem por um sindicalismo frouxo e salafrário. Estão voltadas para dentro e não para fora, primeiramente para o bem dos seus e só depois da cidadania brasileira. Ruy Barbosa, a quem exilamos como um ser nocivo à República (sim, somos uma piada antiga), deve estar aos urros em seu mausoléu.

Quem compõe nossas instituições? Hoje, os bacharéis dos cursinhos. Querem saber como a paixão, a argamassa das vocações, indica o quão sólidas estão as instituições? Basta lembrar das centenas de reportagens sobre essas almas perdidas:

Entrevistador: – Que carreira você pretende seguir?

Concursando: – Qualquer uma. Quero passar e ter estabilidade de vencimentos.

E com esse espírito o acusador vocacionado vira juiz, o juiz vira acusador, o defensor público vira juiz e o delegado vira promotor. Ou qualquer um vira qualquer coisa, apenas por estabilidade e vencimentos fartos.

Os argentários do direito não tem limites. Poderia se compará-los ao espírito dos corruptos, mas isso atingiria os muitos vocacionados que existem nas carreiras. Mas que os novéis são de Hermes e não de Themis, isso são.

Suas almas estão voltadas para o comércio e não para a Justiça. Se se está na carreira por causa de dinheiro, temo que em breve mais e mais escândalos de corrupção envolverão o judiciário. Mas não temos nem como saber se eles existem, não é mesmo? As portas estão fechadas desde sempre. O judiciário, que promete luz à República, continuará opaco.  

Mas e quando a bolada vem com uma bela desculpa administrativa, como os tais atrasados? Ora bolas, quem já soube de juiz deixando de receber salários para ter direito a … atrasados?

Precisa-se, urgentemente, de vozes altivas que lutem contra a desfaçatez escancarada e peçam a abertura de todas as contas institucionais, gastos, privilégios e supremamente dignidade nas condutas públicas; seja nas atividades fins, seja na postura dos mandatários. E isso não quer dizer combater o judiciário e o ministério público por causa da Lava Jato e do “novo” poder que detêm.

A Lava Jato é sim a mais importante atuação do Judiciário e do Ministério Público contra a corrupção e deve ser aplaudida de pé (e criticada de pé, se seus agentes descumprirem a lei). Mas convenhamos: não se descobriu a América, não é mesmo?

Será que tem gente a acreditar que só nos últimos anos os caciques dos principais partidos foram abastecidos pelos empresariado (este, muitas vezes, achacado pelo Poder Público)?

E como um grande movimento social gera grandes e eloquentes débeis, quem já não ouviu: “Nunca se roubou tanto e de forma tão sistêmica nesse país”.

Jura santa? E desde quando se investigou alguma coisa para sabermos se fomos mais ou menos roubados antes de agora?

O brasileiro tem um dom: irritar. Além de “ser um feriado”, como diria Nelson.

Precisa-se extirpar das carreiras públicas (sabe-se lá como) quem pensa como o legislativo e o executivo pensavam no apogeu silencioso da corrupção: “Somos melhores do que os outros, criemos mecanismos para recebermos mais”.

Ou como (e anexei o link na última coluna) um celebrado juiz disse, a bem da verdade: “Foi preciso dar um jeitinho para os juízes poderem comprar ternos em Miami”.  

Não parece necessário ficar explicando como um tonto. Se um juiz sabe que existe um limite para os seus vencimentos e recebe acima do limite, como dirá que num processo criminal o sujeito X ou Y danificou o erário público? Sim, a resposta é pronta: “Mas receber o dobro do devido foi aprovado pela resolução 171 do Conselho Nacional dos Cara Pálidas”.

Sim, é claro. Mas e a educação aprendida em casa, o de pegar o que sabe não ser seu?

Então é simples: o Judiciário precisa parar com o discurso ridículo de que quase 35 mil reais por mês não é um bom salário. É salário de executivo de empresa, mas sem a menor chance de demissão como aconteceria ao executivo caso não apresente resultados concretos à empresa. Nem se fale aqui das férias etc. Deixemos isso para lá.

Qual será, na verdade, o nosso ralo?

Corrupção? Quanto nosso país gastou nos últimos 3 anos só em bonificações, penduricalhos, jeitinhos para os profissionais das carreiras ligadas ao judiciário “poderem ir comprar ternos em Miami”? A sorte é que são bregas. Imaginem se o espírito os indicasse irem para Firenze comprar Brioni’s?

Sou a favor que juízes ganhem e ganhem muito bem, mas sou contra que um juiz de 26 anos ganhe tanto ou muito mais (pois que essa é a verdade) que um Ministro do Supremo Tribunal. Não há lógica alguma nisso.

Que os juízes com até 10 anos de carreira ganhem 15 mil. Acima, disso, 25 mil. Os desembargadores 40 mil. Os ministros do Superior Tribunal, 60 mil. Os do Supremo, 100 mil. Merecem, ora bolas.

Mas que ganhem dentro da lei e não por resoluções apócrifas, perdidas na multidão de linhas dos diários oficiais eletrônicos.


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