O crime e o homem

31 de Março

O crime de 64

Perigo vermelho foi usado como desculpa flácida para se fizesse temer a vermelhidão cubana ou soviete

Foto: Paulo Pinto / Fotos Públicas

Não ocorreu revolução ou movimento de 64. Ocorreu um GOLPE baseado em mentiras e falta de compreensão das elites brasileiras que temeram que com os avanços sociais do governo Jango os direitos dos trabalhadores prejudicassem o lucro dos seus negócios.

Não se fala aqui de governo do proletariado, mas de direitos dos trabalhadores, proclamados e legislados na ditadura DE DIREITA de Getúlio Vargas – ou terá o “pai dos pobres” torturado e prendido Prestes e Berguer por ser um comunista?

O perigo vermelho foi usado como desculpa flácida para se fizesse temer a vermelhidão cubana ou soviete enquanto no Brasil se instalava, apenas, o que se instalaria no mundo anos depois, os regimes democráticos de bem estar social.

Mas governos não queriam e não querem regimes como esse, sob o risco da evolução cultural e educacional do povo exigir mais do que os Poderes aceitam e tem capacidade (intelectual) de trabalhar.

Qualquer olhadela no gabinete e nomes do Ministério de Jango causa vergonha sobre chamarmos esse pessoal de agentes afeitos ao risco vermelho.

A não ser é claro que Eliezer Batista e José Antônio Ermínio de Moraes fossem comunistas.

Eis os nomes do gabinete “vermelho” de Jango. Junto com os comunistas Eliezer e José Antônio Ermínio:

  1. San Tiago Dantas

  2. Ulysses Guimarães

  3. Hélio Bicudo – sim, o que derrubou a Dilma.

  4. Franco Montoro

  5. Evandro Lins e Silva

  6. Teotônio Monteiro de Barros

  7. Hermes Lima

  8. Darcy Ribeiro

  9. Celso Furtado

  10. E muitos outros de igual vulto.

Assim, qualquer menção sobre os fatos ocorridos entre 31 de março e 1º de abril de 1964, caso louvando-o ou o nominando outra coisa que não GOLPE, revela apenas ignorância, falta de conhecimento histórico ou, e aqui uma virtude em forma de licença, habilidade política para não deixar a ala militar brasileira ainda mais envergonhada do que já está com o Presidente da República e seus atos de capitão. Aconteceu com a descontextualização das palavras do ministro Dias Toffoli. Sua intenção era evidentemente apaziguar ânimos.

Nesse aspecto, algumas verdades precisam ser postas: o contágio da retórica americana contra o mal vermelho tomou conta dos setores mais prósperos da sociedade, sobremaneira à paulista, usualmente a elite brasileira com menor nível intelectual e maior raiva dos que os servem nas cozinhas e restaurantes.

Os registros históricos indicam que a alardeada vacância da presidência da república por parte de Jango – evidentemente falsa, um ato retórico e criminoso de Auro de Moura Andrade (anulado em 2013) – culminou na chegada ao poder de Castelo Branco, general de alto escalão, conhecidamente um intelectual (amigo próximo de Clarice Lispector) e que morreria em circunstâncias estranhas e não sabidas até hoje, sabendo-se apenas que dentro do mundo militar era conhecido como “linha branda” e um opositor de Costa e Silva. Sim, existem graves suspeitas sobre o tema.

Exatamente contra o regime que se instalou a partir daí é que nasce o nefasto acerca das comemorações de 31 de março e 1º de abril.

Sim, uma coisa é o GOLPE, ou seja, a quebra institucional e atentatória contra a Constituição vigente, outra coisa a ditadura que não se instalou naquela data, mas posteriormente, quando as prometidas eleições de 13 de outubro de 65 não ocorreram por força do AI-2 e o recrudescimento do regime militar instalado.

Ocorre que rescrever a história seja talvez o câncer do mundo moderno.

De chamar de “probleminhas” a morte e o desaparecimento de centenas de pessoas até a cassação por decreto de Ministros do Supremo Tribunal apenas para o governo ter maioria e silenciar a liberdade de expressão e pensamento que Hermes, Vitor e Evandro presavam pela via do Habeas Corpus, à sedimentação da cultura da tortura (muito comum já em Getúlio Vargas), da violência militar policial e o mais grave, a sedimentação da mentira.

Boa parte dos mortos e desaparecidos, sim, é verdade, queria a instalação de um regime castrista no Brasil, mas os milhares de presos, torturados e silenciados queriam em sua grande maioria um Estado Democrático de Direito.

Eram cidadãos lutando contra um Estado opressor, justamente a razão de se permitir aos americanos portarem armas de grosso calibre em suas residências; proteger a democracia contra perigos internos e externos, se proteger do Estado caso esse se vire contra a cidadania.

Pela lógica americana, os crimes de morte e roubos cometidos pelos grupos “comunistas brasileiros” seriam considerados de resistência ante a quebra institucional. Mas claro que disso ninguém quer saber.

Não creio que hoje, os eleitos e seus eleitores saibam quem foi Blackstone, o espírito e origem da 2ª emenda americana e outras coisas daquele magnífico país que passa por período parecido com o nosso, de desestrutura intelectual do Poder e das informações.

A internet neste último domingo, 31 de março, estava em polvorosa com os dizeres Ditadura nunca mais. O termo é complexo.

Sempre haverá ditaduras, tentativas de mantença do poder pela força da grana ou das armas, com a manipulação de informações e notícias enquanto a única, decente, verdadeira e honesta REVOLUÇÃO ou MOVIMENTO não for realizada:

A revolução da EDUCAÇÃO.

Até lá, todos somos criminosos. Por omissão.


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