Jurídico sem Gravata

cultura

O valor do advogado que conhece bem o negócio da sua empresa

Depois de passar uma semana em um restaurante do McDonalds, ficou muito mais fácil entender e projetar cenários, fáticos e judiciais

McDonalds

Todas as vagas jurídicas citam as competências técnicas necessárias para que o advogado postulante possa exercer o cargo: experiência trabalhista, fluência em idiomas, conhecimento em contratos, etc. Algumas delas chegam até a desenhar algumas competências comportamentais necessárias, sempre de modo abstrato, como resiliência, capacidade de liderança e gestão de equipe e perfil hands on. Mas salvo raríssimas exceções, as contratações jurídicas esquecem de valorar o conhecimento do dia a dia do ramo da empresa contratante, ou dos principais clientes atendidos. Afinal de contas, qual é o valor do advogado conhecer bem a rotina e a natureza do trabalho da sua empresa?

Uma década atrás, quando fui trabalhar no corporativo do McDonalds, fui informado pelo RH que começaria minha trajetória em um restaurante da rede que fosse próximo à minha casa, justamente para entender o que era o McDonalds, e como um restaurante funcionava. Fiquei intrigado com a experiência, e fui entusiasmado viver a experiência. Descobri que quanto maior fosse o cargo, mais tempo era necessário de vivência no restaurante. A mim, coube uma semana, e no meio dessa semana, teve uma visita internacional, de forma que minha experiência passou de light à hard em questão de um dia, com um tratamento muito mais próximo do que seria a realidade de um funcionário em dias de pico de atendimento. Literalmente, vesti a camisa (minha camisa social ficou encharcada de suor e me deram a famosa camiseta listrada, que guardo até hoje com orgulho).

Qual foi a diferença que isso fez na minha trajetória dentro do jurídico da empresa? Cada processo e cada contrato que chegava às minhas mãos se tornou algo muito mais fácil de entender e de projetar cenários, fáticos e judiciais, depois de viver somente uma semana a realidade da operação de um negócio. Eu havia entendido de onde vinha o dinheiro, quem seriam as pessoas que receberiam as minhas orientações e questionamentos e como eu precisava apresentar as problemáticas jurídicas. Ficou claro que dar ordens de um escritório climatizado não era tão fácil como cumpri-las. Uma vez por ano tinha que fazer uma nova visita ao restaurante, e ia com prazer.

Com essa percepção, a cada empresa e nova experiência, fiz questão de sempre ir até “onde se ganha o dinheiro”, conhecer localmente a operação do meu cliente o máximo que eu conseguisse. Não importa se a empresa é online ou offline. Se vende hambúrguer, caminhão, se presta serviços ou se desenha software: entender o negócio, de onde vem a margem de lucratividade é fundamental para que o jurídico seja parceiro de negócios. E se a iniciativa de conhecer o negócio vier do jurídico, tanto melhor (e mais difícil, como a experiência demonstrou).

Sempre foi claro que o conhecimento jurídico é acessível a todos, basta estudar. Só que esse conhecimento é limitado se não for combinado com o conhecimento da empresa. E conhecer a cultura da empresa é fundamental e vai muito além dessa experiência de uma imersão inicial: ao interessado cabe visitar a cadeia de fornecedores, clientes, experimentar produtos, visitar plantas, passar por uma rotação de cargos a fim de experimentar dificuldades e obstáculos.

Curiosamente, a busca do advogado pela inserção na atividade da empresa não é, necessariamente uma atividade fácil ou bem vista, e aí cabem algumas ações de iniciativa do profissional nesse sentido, especialmente se ele nunca passou por isso, ou, pior, se a empresa não é estruturada nesse sentido. Um primeiro passo é justamente visitar as localidades mais estratégicas para a empresa: buscar conhecer seu principal fornecedor, a planta principal de sua fábrica, a matriz, os pontos de comercialização. Geralmente essas visitas são as mais fáceis. Caso a realidade da empresa não comporte toda essa movimentação externa, uma forma de fazer essa integração ocorrer é pedir para ser inserido na cadeia de produção: reuniões de negócios não jurídicos, briefings de clientes (externos ou internos) e até mesmo qualquer atividade que lembre aquele programa do “Boss Undercover”, no qual o CEO se fazia passar por um funcionário de entrada da sua organização.

Não há fórmula mágica nem receita infalível, mas a busca pela integração com as atividades fins passa uma excelente primeira mensagem à organização, especialmente se ocorrer durante os primeiros 100 dias, ainda que a plena integração só ocorra depois, afinal o advogado sofre de desconfiança dentro da própria instituição em muitos casos. Por isso, o desafio principal de qualquer advogado corporativo, independente de qualquer coisa, é conseguir criar um canal de comunicação aberto e transparente dentro do seu local de trabalho, e o primeiro passo é entende-lo. Só assim é possível o advogado empresarial ser realmente um parceiro do negócio.


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