Jurídico de Saias

soft skills

Principais atributos de liderança para uma advogada corporativa

Pela teoria do CHA, um bom líder deveria reunir Conhecimentos, Habilidades e Atitudes

@pixabay

Atualmente, muito se fala dos soft skills, ou seja, das habilidades intangíveis de que um(a) profissional dispõe no seu dia-a-dia para fazer frente aos inúmeros desafios.

Fazendo uma autorreflexão, relembro-me de que, quando comecei a trabalhar como advogada num grande banco paulista que não existe mais, eu valorizava demais o conhecimento técnico – que integra a coluna dos hard skills -, a formação, a universidade, a bagagem prática que o indivíduo trazia. E me surpreendia quando o profissional com a melhor formação técnica não era o escolhido para determinada posição de destaque.

Aos poucos, fui entendendo que o conhecimento é importante – não há dúvida – mas é o bottom line, ou seja, é o básico, a base, e, portanto, insuficiente para garantir o sucesso na carreira e, mais do que isso, promoções.

Para crescer, não só no Direito, mas também nessa área, é de suma importância desenvolver os soft skills, que podemos definir como um conjunto de atributos pessoais, relacionados às atitudes e às reações dos profissionais em face dos momentos de grande pressão e estresse. Ocorre que a vida dos profissionais de Direito (e os de Compliance também, por óbvio) é recheada de situações de enorme pressão e grande estresse, fazendo com que o equilíbrio emocional tenha de ser parte relevante de seu cotidiano.

Já há alguns anos surgiu a teoria do CHA, segundo a qual um bom profissional e, especialmente, um bom líder, deveria reunir Conhecimentos, Habilidades e Atitudes.

Por conhecimentos, temos tudo o que essa pessoa aprendeu no decorrer da vida, seja em cursos, na prática, ou apenas assistindo a experiência de outros.

As habilidades já formam parte dos soft skills, como, por exemplo, a facilidade de falar em público, de trabalhar em equipe, de fazer cálculos, etc.

Porém, é no que tange às atitudes, que há o grande destaque. Assim é que uma pessoa que tenha aprendido a OUVIR, sai na frente, no mínimo, como líder, porque não vai atropelar a situação com um julgamento precipitado – o que os americanos chamam de jump to the conclusion (ir diretamente à conclusão, sem passar por todos os fatos e circunstâncias existentes até chegar a ele).

Em segundo lugar, vem a atitude de respeitar o interlocutor, mesmo que o que ele diga seja absolutamente contrário ao que você pensa. Essa é, sem dúvida, a parte mais difícil, mas é necessário parar e pensar que isso é absolutamente necessário porque ninguém é dono da razão, e a mesma situação pode apresentar diversos pontos de vista, todos corretos, dentro da sua perspectiva.

Por isso, um líder sábio monta uma equipe diversa, na qual obrigatoriamente deve haver alguém que pense de maneira bastante diferente da dele – não no que tange aos valores, obviamente – mas, sim, com relação às soluções do dia-a-dia. O pior que pode acontecer a alguém que ocupa uma posição de liderança é ter uma porção de pessoas batendo palmas todos os dias para tudo o que ele ou ela faz ou diz.

Colocar-se em dúvida é saudável, porque obriga à reflexão e isso é bom para os negócios e para as decisões.

Outro aspecto é o da manutenção da calma. Não é por falar mais alto ou dar murros na mesa que sua razão será mais forte do que a do outro. Aliás, quem tem argumentos sólidos é seguro, sabe o que fala e, portanto, não necessita expor as suas ideias usando de qualquer forma de agressividade.

Uma boa tática ao responder um e-mail interpretado como agressivo, por exemplo, é escrever livremente o que pensa e, depois de um tempo, que pode variar de pessoa para pessoa, reler o que escreveu, em voz alta, imaginando o que o receptor vai entender daquilo tudo. Daí, então, retirar todos os adjetivos – isso mesmo: TODOS!

Deve-se deixar apenas os FATOS, sem juízo de valor. “Aconteceu isso, a consequência foi aquela e EU me senti assim (se couber essa última parte)”. Veja, não estou dizendo para ter “sangue de barata”, mas para pôr as coisas em perspectiva, de maneira real e leal, sem envolver terceiros, limitando-se ao que aquele fato realmente provocou num determinado ambiente. O argumento de que TODO MUNDO ACHA ISSO é extremamente depreciativo para quem o utiliza, a menos que se trate de um porta-voz oficial e legitimado de um grupo.

Graduada há 33 anos, mestre em Direito há 19, e head de Departamento de Compliance há 11, a vida foi me mostrando que há maneiras distintas de falar, escrever e que inclusive a linguagem corporal conta nessas horas.

Algumas coisas que aprendi nessa jornada e compartilho aqui, e que vão além da relação líder-liderado:

  1. NUNCA, mas NUNCA, EM HIPÓTESE ALGUMA, brigue com o julgador – apresente seus argumentos com educação, elegância e técnica, por um simples motivo – as pessoas têm sentimentos e isso, ainda que inconscientemente, pode concorrer em seu desfavor naquele julgamento.
  2. TODO MUNDO ERRA – inclusive você. Assim é que, ao invés de dizer que determinada pessoa não te enviou um documento (o qual pode muito bem estar preso na sua Caixa de SPAM, ou mesmo o seu pedido ainda estar na sua Caixa de Rascunhos, diga que “Não localizamos o documento X…” e peça gentilmente para a pessoa reenviá-lo;
  3. A gentileza, a boa educação e um sorriso abrem inúmeras portas – e que ninguém imagine que estou aqui dizendo uma letra a mais do que aquilo que escrevi – sorriso, educação e gentileza cabem em qualquer lugar e em qualquer situação. Você pode estar coberto(a) de razão e, por uma escorregada dessas, deixar de tê-la em poucos minutos;
  4. Às vezes, a pessoa tem um problema e, no afã de resolvê-lo, arruma outro, muito pior. Assim ocorre com aqueles que, na defesa de seus interesses, partem, por exemplo, para ofensas pessoais, as quais podem resultar num processo-crime de denunciação caluniosa, caso a ofensa caracterize, ademais, um crime;
  5. Escolha as brigas que vai enfrentar. Nem todas valem a pena;
  6. Pode ser que um processo de coaching ou mentoring com um profissional que você admira valha muito mais do que mais uma pós-graduação no seu currículo.

Acredite em mim: sei muito bem do que falo!


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