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Direito

Carreira para mulheres em empresa X escritório

O perfil da sua felicidade

mulher
Crédito: Pixabay

Será que o ambiente corporativo é mais propício para o crescimento de uma mulher advogada que os escritórios?

Sou advogada corporativa há muitos anos, mas já estive “do outro lado”. Por  quatro anos trabalhei em uma grande banca no início da minha carreira, ou seja, há um século, e depois por um período mais curto entre uma empresa e outra, num escritório de médio porte.

Logo, vou falar da minha experiência, sem qualquer base científica. A comparação não é tão simples e acho que a resposta é quase igual a todas as outras no mundo do direito: depende.

Depende do escritório, depende da empresa, depende da liderança, depende da cultura da empresa e/ou do escritório e, no meu caso, dependeu da época também.

Trabalhei em escritórios de 1999 a 2003, ou seja, não havia essa discussão tão presente de diversidade. Lembro-me bem de haver um único advogado negro, poucas mulheres sócias, e as que o eram, invariavelmente eram tachadas de workholic pelas próprias mulheres, inclusive, o que me levava a crer que para chegar lá elas provavelmente abdicaram de uma vida familiar e social.

Eu nunca senti qualquer tipo de preconceito ou tratamento diferenciado por ser mulher. Vi amigas da mesma época serem promovidas a sócias – e ainda hoje vejo isto, e o  melhor, atualmente são protagonistas da discussão de diversidade, gênero e de como resolver alguns dilemas de maternidade versus crescimento na carreira. E estão tendo enorme sucesso na empreitada!

O que senti muito e certamente atrapalha na ascensão, principalmente das mulheres que, em tese, são mais essenciais em casa em relação aos filhos do que os homens (outro tabu que hoje está caindo por terra) era a questão da cultura de ficar até mais tarde no trabalho. Era cultural e até esperado que as pessoas virassem a noite, ou ao menos saíssem depois das 21 horas. Hoje em dia, se discute muito a qualidade de vida, o equilíbrio trabalho e vida social e familiar. Sem falar que atualmente, o home office está super em voga, o que não era tão comum no final da década de 90.

Mas, no meu caso particular, esse era um ponto bastante negativo de escritório, a cultura arraigada de que só os que viravam a noite eram cotados a serem sócios. Senti muito mais este ponto do que  a diferença entre homem ou mulher. No entanto, a consequência de sair de madrugada ou virar a noite para uma mulher, era muito pior, o que as fazia desistir quando começavam a pensar em formar uma família ou ter filhos.

A minha experiência em empresa começou “sem querer”, como um secondment pelo escritório para cobrir uma vaga em uma empresa cliente. Quando comecei a trabalhar lá, foi “amor à primeira vista”. E quando realmente decidi migrar para empresa e me desligar do escritório para ficar de vez no cliente, ouvi muitas coisas do tipo “ah que bom, você vai trabalhar bem menos, pois departamento jurídico é muito mais tranquilo”. Outro mito.

Sinceramente? Nunca vivi isso, nem senti isso na prática, pelo contrário. Peguei uma empresa em fase de expansão, trabalhei muito, viajei muito (mais do que pelo escritório), ou seja, trabalhava mais horas do que no escritório. Verdade seja dita, naquela época ao menos a área de Recursos Humanos era um pouco mais estruturada em termos de política, diversidade, gênero, etc. Mas era uma multinacional, então acho uma comparação injusta.

Por outro lado, hoje vejo escritórios muito engajados e respeitando as mulheres, escritórios com políticas claras voltadas para o tema e empresas totalmente retrógradas e atrasadas.

Já engravidei em empresa (com menos de um mês de casa) e a empresa foi espetacular comigo, me apoiou, nunca houve discriminação, pelo contrário, e já tive algumas amigas em empresas grandes que voltaram da licença e foram demitidas.

Por isso, tomando como inspiração a frase de Nelson Rodrigues de que “toda unanimidade é burra”, toda a generalização também o é. Assim, não acredito que ambientes corporativos sejam mais propícios para o crescimento da mulher do que escritórios. Não há uma regra.

Acredito que isso dependa da liderança seja do escritório, seja da corporação. Uma liderança que dê exemplos, que perceba o valor da diversidade, de um ambiente onde haja diferença de gênero não é um ambiente sadio, que homens e mulheres são diferentes e se complementam e, portanto, ambos importantes para o sucesso daquele local de trabalho, é essencial para o crescimento de uma mulher advogada, seja em um escritório ou em uma empresa.


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