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Sete mulheres notáveis num combo sem líder

Blue Note lança o primeiro álbum do Artemis

Artemis
Banda Artemis / Crédito: Divulgação

Há muito tempo, ainda na época dos filmes em preto e branco, surgiram nos Estados Unidos alguns conjuntos de música dançante que tinham como “atração” o fato de serem integrados somente por mulheres. Já no planeta jazz, as instrumentistas custaram a ombrear com os homens em matéria de reconhecimento. E mesmo assim – pelo menos até a década de 1970 – só pianistas excepcionais como Mary Lou Williams e Marian McPartland foram devidamente valorizadas por sua arte, sexo à parte.

Com o correr das décadas, jazzwomen excepcionais como as compositoras e chefes de orquestra Carla Bley e Maria Schneider passaram a liderar músicos do primeiro escalão, na base do “merecimento”, sem nenhum tipo de sex appeal. Nas mais recentes listas dos “melhores do ano” da revista Downbeat figuram sempre entre os primeiros colocados, nas diversas divisões instrumentais, as seguintes damas: Anat Cohen (clarinete), Jane Ira Bloom (sax soprano), Regina Carter (violino), Linda Oh e Speranza Spalding (contrabaixo), Nicole Mitchell (flauta) e Mary Halvorson (guitarra). Além, é claro, de La Schneider (nos quesitos chefe de orquestra, compositor e arranjador).

A baterista e arranjadora Sherrie Maricle comanda, desde 1992, a DIVA Jazz Orchestra, uma excelente big band na qual homem nunca teve vez. Pelo menos até o ano passado, quando Maricle lançou o 11º álbum da orquestra, intitulado DIVA + The Boys – uma apresentação ao vivo com a participação de quatro barbados: Ken Peplowski (clarinete), Claudo Roditi (trompete), os irmãos Jay e Marty Ashby (trombone e guitarra, respectivamente).

Pois um novo jazz combo feminino, batizado de Artemis (a deusa da caça na mitologia grega), vem de apresentar suas credenciais em disco, sob aplausos da crítica especializada, e merecedora da matéria de capa da edição deste mês da Downbeat.

O álbum Artemis, agora lançado pelo selo Blue Note, foi gravado no Festival de Newport de 2018, e reúne sete estrelas brilhantes do jazz contemporâneo, das quais cinco nascidas e criadas fora dos Estados Unidos. São elas: Allison Miller (baterista e líder); Cécile McLorin Salvant (vocalista), de pai haitiano e mãe francesa; as canadenses Renée Rosnes (piano) e Ingrid Jensen (trompete); a israelense Anat Cohen (clarinete); a chilena Melissa Aldana (sax tenor); a japonesa Noriko Ueda (baixo).

Vale anotar logo que Cécile McLorin Salvant atua, apenas, em duas das sete faixas de Artemis. Ou seja, a ganhadora do Grammy 2019 de melhor álbum vocal, com The Window (Mack Avenue) – seu terceiro gramofone de ouro” nos últimos cinco anos – é uma espécie de “cereja do bolo” do programa. Mas no melhor sentido da expressão, ao recriar a romântica If it’s magic (3m25), de Stevie Wonder, e Cry, Buttercup, cry (5m30), canção da década de 1940.

pianista Renée Rosnes assina os arranjos destes dois temas, assim como da última e hipnótica faixa da setlistque vira uma troca bem livre de ideias entre o trompete assurdinado de Jensen e as palhetas de Cohen e Aldana, a partir de The sidewinder (6m) – aquele tema bem soul do inesquecível Lee Morgan (1938-1972).

Mas no sexteto instrumental Artemis, na verdade, não há líder nem lideradas. Todas contribuem e retribuem a partir de coordenadas inspiradas em temas como – além dos já citados – The fool on the hill (6m10), dos Beatles; Goddess of the hunt (7m25), da baterista Allison Miller; Big top (5m), de Rosnes; Frida (7m20), da saxofonista Aldana, inspirada na arte de Frida Kahlo; Nocturno (5m25), da clarinetista Cohen pensando em Chopin; Step forward (6m25), da baixista Ueda.

Ouça a faixa Goddess of the hunt abaixo: 

Samples das demais faixas em: https://music.apple.com/us/album/artemis/1522995342


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