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Miguel Zenón: Dos boleros ao free jazz

Saxofonista lidera duo e quarteto em registros recentes bem diversos

Crédito: Miguel Zenon/ Divulgação

O jazz não é um “tipo” de música, mas um modo de expressão musical universal de raízes afro-americanas, tendo como causa formal o beat ou o swing, aquela propulsão anímica que favorece a improvisação. É a arte musical do aqui e do agora, cuja realização (a réussite dos franceses) depende quase que exclusivamente do engenho e arte do(a) instrumentista ou da(o) vocalista. Como música de síntese, o jazz tem direito a apropriações temáticas diversas, principalmente dos standards do American songbook. Mas também de canções populares, sobretudo as nascidas na América Latina.

É o caso de El Arte del Bolero (Miel Music), contemplativo registro do duo Miguel Zenón (sax alto)-Luis Perdomo (piano), de setembro do ano passado, no palco do clube Jazz Gallery, de Nova York, evidentemente sem público, e divulgado depois em streaming.

Nós gravamos essas músicas como se fosse um show ao vivo, em um take, sem preparação maior do que a discussão de tonalidades e de alguns elementos formais. Ficamos mais do que satisfeitos com os resultados, e decidimos que eles deviam ser preservados e compartilhados” – escreveu o saxofonista nas notas de apresentação do recém-lançado álbum de seis faixas, num total de 52 minutos.

O portorriquenho Miguel Zenón, 44 anos, foi para os Estados Unidos em 1996, e completou seus estudos no Berklee College of Music de Boston, quando de lá eram também alunos os hoje igualmente afamados Antonio Sanchez (bateria), Anat Cohen (clarinete) e Avishai Cohen (trompete). O saxofonista ganhou fama como membro destacado do oiteto San Francisco Jazz Collective, no período 2004-2018 (17 álbuns). Como líder já tem, na sua discografia, uma dezena de títulos nas quais brilha também como sideman o pianista venezuelano Luís Perdomo, 50 anos, dos quais 28 vividos em Nova York, onde fez mestrado no Queen’s College, e foi aluno do grande Sir Roland Hanna (1933-2002).

Dos boleros selecionados como temas pelo duo Zenón-Perdomo destacam-se as versões de: La vida es un sueño (9m40), do cubano Arsenio Rodriguez; Que te pedi (7m10), de Fernando Lopez Mullens; Alma adentro (9m45), de Sylvia Rexach; Juguete (10m25), de Bobby Capó (10m25).

La vida es un sueño:

Que te pedi:

O sempre criativo e surpreendente Miguel Zenón aproveitou estes inimagináveis tempos de recolhimento forçado para lançar, pelo mesmo selo Miel Music, o também virtual Law Years: The Music of Ornette Coleman – uma seleção de seis composições de Ornette Coleman (1930-2015), o sax alto-compositor que detonou o free jazz entre 1958 e 1960. Só que Zenón tomou como modelo o quarteto com dois saxes de Ornette (Dewey Redman no tenor), logo posterior ao mais célebre, que tinha Don Cherry no trompete.

Este registro fora de série foi gravado em maio de 2019, numa turnê europeia de Zenón, mais precisamente num clube da Basiléia, Suíça. Os outros jazzmen do quarteto são o cubano Ariel Bringuez (sax tenor), o argentino Demian Cabaud (baixo) e o catalão Jordi Rossi (bateria). Os temas de Ornette escolhidos, todos impactantes em termos de concepção e execução, são: The tribes of New York (10:30); Free (4m50), Law years (11.10); Giggin’ (10;35); Broken shadows (6:35); Dee Dee (4.40) e Toy dance/Street woman (9m50).

O saxofonista-líder desse excelente quarteto multinacional, nas notas de apresentação, reforça o que foi escrito no início desta coluna: “O fato de sermos de diferentes partes do globo e todos de língua espanhola realça outro ponto importante. A música de jazz não conhece fronteiras ou rótulos; é hoje inclusiva como sempre foi”.

(Ouvir as faixas de Law Years)


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