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Dave Holland e as crosscurrents do jazz

Magistral baixista lidera em Good Hope trio com o saxofone de Chris Potter e a tabla de Zakir Hussein

Crosscurrents
Crosscurrents Trio / Crédito: Divulgação

Foi batizado como Crosscurrents o trio formado pelo magistral baixista-compositor Dave Holland com o saxofonista Chris Potter e Zakir Hussain, 68 anos, mestre da tabla – milenar instrumento de percussão indiano de dois pequenos tambores (um grave e um agudo) tocados com os dedos e as palmas das mãos de modo muito peculiar. E o nome de batismo do conjunto não podia ser melhor para definir a integração cultural típica do jazz, modo de expressão de raízes afro-americanas, mas sempre aberto a outras aragens musicais. E no qual a composição é um pretexto, sendo o texto definitivo ‘‘escrito’’ por músicos de técnica, sensibilidade e criatividade acima da média.

O selo britânico Edition Records vem de disponibilizar nas plataformas virtuais o álbum Good Hope – gravado em setembro do ano passado, no estúdio Sear Sound, Nova York – no qual o Crosscurrents interpreta oito peças, num total de uma hora e seis minutos de música.

Dave Holland assim comenta este registro excepcional: ‘‘As tradições do jazz e da música indiana são duas das mais altamente desenvolvidas formas de música improvisacional e, juntas, criam uma linguagem rica que expande as possibilidades criativas de ambas. Este projeto tem sido fonte de inspiração e crescimento para todos nós do trio Crosscurrents. Estamos felizes por termos capturado nesta gravação algo da alegria e do senso de aventura, de correr risco, que sentimos quando tocamos juntos’’.

Todas as faixas de Good Hope são originais dos membros do trio. Holland compôs Lucky seven (10m45) – a mais longa do programa – e também Mazad (8m40) e Bedouin trail (7m41). O saxofonista Chris Potter é o autor de Ziandi (7m25), Island feeling (7m10) e da faixa-título (8m20). Houssain contribuiu com J Bhai (8m20) e Suvarna (8m). Potter troca o seu esplêndido sax tenor pelo soprano em apenas dois números (Lucky seven e Mazad).

No release de apresentação desse álbum fora de série lê-se que se trata de uma reunião de ‘‘três dos melhores do mundo nos seus respectivos instrumentos’’. Tal afirmação não é exagerada, como comprovam os resultados do 67º ‘‘Critics Poll’’ anual da revista Downbeat, publicados na edição de agosto último da ‘‘bíblia’’ do jazz. Aos 73 anos, Dave Holland chegou em segundo lugar na lista dos melhores contrabaixistas, logo atrás de Christian McBride, e à frente de Ron Carter; Chris Potter, 48 anos, foi o quarto saxofonista tenor mais votado (depois dos mais idosos Joe Lovano, Charles Lloyd e Branford Marsalis); Zakir Hussain só perdeu na votação dos melhores percussionistas para o também veterano vanguardista Hamid Drake.

Vale lembrar que o contrabaixista-compositor foi agraciado, em 2017, com o título de ‘‘Jazz Master’’ pela agência federal National Endowment for the Arts (NEA). Nascido, criado e formado na Inglaterra, Holland era ligado ao jazz europeu de vanguarda do fim da década de 1960 quando foi ‘‘descoberto’’ por Miles Davis, em Londres, em 1968. O trompetista levou-o para os Estados Unidos, e o integrou àquele conjunto fusionista que gravou para a Columbia os referenciais álbuns In a Silent Way (1969) e Bitches Brew (1969-70). Mas depois de tocar também com o pianista Chick Corea, Dave Holland enturmou-se com os vanguardistas americanos, registrando, em 1972, já na condição de líder, o celebrado LP Conference of the Birds (ECM), na companhia dos saxofonistas Antony Braxton e Sam Rivers (1923-2011). 

(Faixas de Good Hope podem ser ouvidas em: https://crosscurrentstrio.bandcamp.com/album/good-hope)

(Vídeo em: https://editionrecords.com/releases/crosscurrents-good-hope/)


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