Opinião & Análise

Jazz

Cecil Taylor (1929-2018)

Pianista-compositor foi o mais “difícil” dos ícones do free jazz

O pianista Cecil Taylor – ícone do jazz vanguardista que agitou os Sixties do século passado – morreu aos 89 anos, neste último 5 de março, em sua casa no Brooklyn. Sagrado jazz master em 1990 pela National Endowment for the Arts, ele foi “um dos mais estimulantes, rapsódicos e originais improvisadores do seu tempo”, como destacou Ben Ratliff no obituário publicado pelo New York Times.

No meu livro Obras-Primas do Jazz (Jorge Zahar Editor, 1986), apresentei-o como sendo “talvez o ‘mais difícil’ dos músicos do jazz”. E acrescentei: “Suas concepções são tão cerebrais e abstratas e sua música tão tensa e intensa que exigem do ouvinte, mais do que uma predisposição, uma adesão intelectual que pressupõe intimidade com as culturas afro-americana e europeia. Uma intimidade não só com James P. Johnson, Duke Ellington e Thelonious Monk, mas também com Stravinsky, Bartok e John Cage”.

Nos últimos cinco anos, Cecil Taylor apresentou-se publicamente em raras ocasiões: em 2013, no Japão, quando recebeu o Kyoto Prize (US$ 500 mil), quatro anos depois de Pierre Boulez ter sido honrado com a mesma distinção da Fundação Inamori; em 2015 na cerimônia em memória de Ornette Coleman, a maior figura do free jazz; em 2016, numa retrospectiva promovida pelo Whitney Museum of American Art, em Nova York.

Taylor começou a ganhar visibilidade no planeta jazz no Festival de Newport de 1957 e, um ano depois, por sua atuação no álbum Coltrane Time (United Artists), num quinteto liderado pelo canonizado saxofonista John Coltrane (1926-1967). Mas como outros vanguardistas daquela época, o insólito pianista-compositor foi inicialmente mais respeitado na Europa do que nos Estados Unidos. Sobretudo a partir do lançamento de Live at the Cafe Montmartre (Fantasy, 1962), registro feito naquele clube de jazz de Copenhague, com Jimmy Lyons (sax alto) e Sunny Murray (bateria).

Dentre os principais ítens da discografia de Cecil Taylor destaco três: Unit Structures e Conquistador!, gravados pelo selo Blue Note, em 1966, em septeto e sexteto, respectivamente, ambos tendo como sidemen básicos a dupla de baixistas formada por Henry Grimes e Alan Silva, o baterista Andrew Cyrille e o saxofonista Jimmy Lyons; Art Ensemble of Chicago with Cecil Taylor: Dreaming of the Masters, vol. 2 (DIW/Columbia, 1991).

Nas últimas décadas, o controverido músico dedicou-se cada vez mais a solos, em “composições instantâneas”, curtíssimas ou intermináveis, de acordo com o seu estado de espírito, com inserções poéticas ou discursivas, e até de cantos guturais aparentemente de inspiração africana. Foi aliás assim que Cecil Taylor se apresentou – para espanto mais ou menos generalizado – no Tim Jazz Festival de 2007, lá na área do Museu de Arte Moderna do Rio.

Whitney Balliett (1926-2007) – que foi crítico de jazz da New Yorker, e escreveu o referencial livro The Sound of Surprise: 46 Pieces on Jazz (1960) – assim sintetizou a arte de Cecil Taylor: “Ouvir Taylor exige paciência e coragem. Ele quer que você sinta o que ele sente, que se mova na mesma velocidade dele, e que olhe para onde ele olha (sempre para dentro). Sua música pergunta mais do que qualquer outra, mas dá mais do que pergunta”.

(A primeira parte de Conquistador! pode ser ouvida em: www.youtube.com/watch?v=e_VthdlXvp0)

(Caseworks, de Dreaming of the Masters, pode ser ouvida em:

www.youtube.com/watch?v=MUsV_pFJZTU (Caseworks, de Dreaming of the masters)//

(Cecil Taylor, solo, em: www.youtube.com/watch?v=Yomesyf8GFY)


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