Jazz

Referência global

As ‘pinturas musicais’ de Joachim Kühn

O Pianista associado ao free jazz desde a década de 1980 interpreta peças inéditas de Ornette Coleman

Joachim Kühn. Crédito: divulgação

O virtuose do piano e compositor Joachim Kühn nasceu na Alemanha há 75 anos. Mas é um músico de referência global, associado ao free jazz desde a década de 1980, quando formou na França um trio de sucesso com o baixista Jean-François Jenny-Clark e o baterista Daniel Humair. Apresentou-se também mundo afora com eminentes jazzmen de vanguarda – inclusive e principalmente com o canonizado Ornette Coleman (1930-2015).

E é o próprio Kühn quem conta: “Entre 1995 e 2000 toquei 16 concertos (em duo) com Ornette. Antes de cada um ele escrevia dez novas peças nas quais trabalhávamos durante uma semana, e depois as gravávamos no seu ‘estúdio harmolódico’ no Harlem (…). Após os concertos, os temas não eram mais tocados. Eu sou a única pessoa que tem as fitas e as partituras de um total de 170 peças. E, depois de quase 20 anos, reuni as mais belas dessas melodias e baladas, e as gravei para piano solo. Com a exceção de Lonely woman, nenhuma delas foi registrada por Ornette”.

Dez desses temas inéditos do Founding Father do free jazz, duas versões de Lonely woman e uma composição de Kühn estão no álbum Melodic Ornette Coleman: Piano Works XIII que o pianista gravou em março último, no estúdio de sua casa, em Ibiza (Espanha), e está sendo lançado neste início de ano pelo selo alemão ACT. E como fica claro no adjetivo constante do título, não se trata de um registro vanguardista, na base do free jazz politonal. Mas de um recital bem melódico.

Joachim Kühn é também pintor, bem mais abstrato do que figurativo. Numa entrevista dois anos atrás, quando de uma exposição em Hamburgo, na galeria da fábrica de pianos Steinway (da qual é artista exclusivo), assim respondeu a uma pergunta sobre o seu processo de criação sentado ao piano ou diante de uma tela: “A única coisa em comum é a improvisação. Quando começo uma pintura, não sei o que quero fazer. Quando vou para o piano, é só com o objetivo de tocar algo que nunca toquei antes. Tento improvisar algo novo, com técnicas diferentes, em busca de novos sons. Essa é a ideia básica da minha vida. Gosto de improvisar a vida, o piano e a pintura. Realmente improvisar”.

As “pinturas musicais” de Melodic Ornette Coleman começam com a primeira versão da inesquecível melodia de Lonely woman (4m45), em tempo médio, com a anotação de “rambling” (“divagante”), e citações eventuais que podem lembrar aquele tema Ramblin’, que Ornette lançou no antológico LP Change fo the Century (Atlantic, 1959). Já a segunda versão de Lonely Woman (4m55) é devidamente anotada como “balada”.

A última faixa da setlist, assinada pelo refinado pianista-compositor, é The end of the world (7m20), que é a mais harmonicamente intrincada do novo álbum, começando no registro grave, e desenvolvendo-se em tempo bem veloz. Mas a maioria das peças inéditas de Ornette Coleman, agora reveladas em disco, são realmente bem “melódicas”, e interpretadas em andamento lento, com destaque para Songworld (5m25), Tears that cry (3m35) e Somewhere (2m50).

(Samples do álbum em: www.actmusic.com/en/Artists/Joachim-Kuehn/Melodic-Ornette-Coleman/Melodic-Ornette-Coleman-CD2)


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