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Angular Blues: A arte do trio sem piano

ECM lança novo álbum do guitarrista Wolfgang Muthspiel

Crédito: Laura Pleifer / Divulgação

No jazz, a formação mais típica do trio é aquela na qual o pianista é o líder e seus coadjuvantes são o contrabaixista e o baterista. Dentre as mais conhecidas e celebradas trincas dos últimos 50 anos citem-se as comandadas por Erroll Garner, Bill Evans, Ahmad Jamal, Keith Jarrett, Brad Mehldau e Fred Hersch..

Mas o trio guitarra-baixo-bateria tem também relevo na discografia jazzística, principalmente em registros de ases “eletrizantes” do instrumento de seis cordas como Pat Metheny, Bill Frisell e John Scofield.

Contudo, esta última configuração – sem a amplitude melódico-harmônica do piano – pode também criar um tipo de jazz às vezes mais “camerístico”, bem a gosto do consagrado selo ECM (Edition of Contemporary Music), fundado por Manfred Eicher há meio século.

Este é o caso do recém-lançado álbum Angular Blues, com o trio do guitarrista austríaco Wolfgang Muthspiel, 55 anos, integrado por outros dois músicos excepcionais: os americanos Scott Colley (baixo) e Brian Blade (baterista). As nove peças do repertório, das quais sete de autoria do líder, foram gravadas num estúdio de Tóquio, em 2018, por ocasião de uma turnê mundial do conjunto.

Quando Muthspiel estreou na ECM, em 2014, com o CD Driftwood, na companhia do mesmo baterista e do baixista Larry Grenadier, ele disse que buscava “aproximar-se, o máximo possível, das possibilidades contrapontísticas de um piano trio”.

Nas três primeiras faixas do novo registro o líder toca a guitarra acústica (violão). São elas: a movimentada faixa-título (5m55), na qual ele mesmo diz realçar “modulações rítmicas e breaks estranhos”; a meditativa Wondering (7m20); a solene Hüttengriffe (5m15).

Já na guitarra elétrica, Muthspiel interpreta Camino (7m40), alongando-se numa introdução sem acompanhamento bem introspectiva, de mais de um minuto, até que os pratos da bateria de Blade e o contrabaixo de Colley passem a aquecer decididamente o ambiente. Ride (3m50), como anotou Thom Jurek (AllMusic), marca a primeira vez em que o guitarrista incluiu em disco “contrações rítmicas do bebop”. Kanon in 6/8 (7m40) e Solo Kanon in 5/4 (3m35) têm títulos autoexplicativos, com Muthspiel empregando efeitos eletrônicos (delay box) nesta última peça. Everyting I love (6m50), de Cole Porter, e I’ll remember April (5m40) são os únicos standards do programa.

(Samples deste álbum podem ser ouvidos em: https://www.ecmrecords.com/catalogue/1578640543/angular-blues-wolfgang-muthspiel )

WALLACE RONEY (1960-2020)

Vítima do coronavírus, morreu na terça-feira (31/3), aos 59 anos, num hospital de New Jersey, o grande trompetista Wallace Roney. Ele foi casado com a pianista Geri Allen (1957-2017), com quem teve dois filhos.

Um dos young lions que injetaram sanguenovo no jazzno fim dos anos 80, Roney sucedeu Terence Blanchard nos Jazz Messengers de Art Blakey, mas passou a ter renome quando Miles Davis – pouco antes de morrer, em 1991 – o adotou como uma espécie de sucessor. Na última década, ele gravou cinco álbuns para o selo Highnote, com destaque para A Place in Timede 2016, no qual o pistonista cercou-se de quatro velhos companheiros: Gary Bartz (sax alto), Patrice Rushen (piano), Buster Williams (baixo) e Lenny White (bateria). Além do bem mais moço saxofonista Ben Solomon.

(A faixa L’bop de A Place in Time pode ser ouvida em: https://www.youtube.com/watch?v=AZ9aOQTdhjY)

ELLIS MARSALIS (1934-2020)

BUCKY PIZZARELLI (1926-2020)

A pandemia do coronavírus também apressou, nesta semana, a viagem derradeira de dois patriarcas do jazz, já canonizados em suas longas vidas: Ellis Marsalis, 85 anos, pianista-professor, orgulho de Nova Orleans, e pai do trompetista Wynton, do saxofonista Branford, do baterista Jason e do trombonista Delfeayo; o guitarrista Bucky Pizzarelli, 94 anos, pai do também guitarrista e cantor John Pizzarelli, de quem foi eventual parceiro.

No necrológio escrito para a NPR Music, Nate Chinen qualificou Pizarelli de “um sábio de muito bom gosto da jazz guitar”. Já a prefeita de Nova Orleans, LaToya Cantrell, escreveu que Ellis Marsalis “foi uma lenda, o protótipo do próprio jazz de Nova Orleans”.


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