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Advocacia corporativa e os seres humanos (aprendendo com o cinema)

Como a tecnologia afeta o universo corporativo?

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Crédito Pixabay

A célebre frase de que ‘a vida imita a arte’ pode não ser uma verdade (absoluta), mas certamente é sábia. Perceber o impacto e a força desse pensamento, ajuda, e muito, a entender o mundo corporativo. Além de haver quem afirma que a advocacia corporativa é mesmo uma arte. Vários são os filmes que utilizamos em cursos para facilitar aos alunos a compreensão de questões práticas e frequentes como análise de cenários, trabalho em equipe, liderança, gestão de risco, negociação, gestão de crise, planejamento, estratégia, e tantos outros temas e desafios.

Através dos filmes, pode-se demonstrar com exemplos indiretos, os conceitos que se pretende trabalhar. Ajudando a tornar um pouco mais ‘real’, o que por vezes se torna árido e teórico demais. Atualmente, o desafio é a contextualização para a advocacia corporativa do que chamamos de automação e inteligência artificial.

O tema é tão frequente quanto já abordado, mas os desafios e as dúvidas não param. A todo momento alguém desenvolve mais um pouco a questão, novos “robôs e softwares” são criados para a advocacia corporativa, e mais e mais gestores ficam tanto admirados quanto perdidos, tanto encantados e entusiasmados quanto preocupados. Por ser uma questão em evolução permanente, realmente ainda não se sabe o limite da tecnologia e quanto mais ela poderá ajudar.

Cada vez mais se pensa, fala, escreve sobre “tecnologia”, “automação”, “sistemas”, “inteligência artificial”, e de fato a vida é cada vez mais “tecnológica e digital”. O “futuro” está chegando, e em muitos aspectos “já chegou”. Em casa, na rua, no trabalho – na vida, a tecnologia está presente e isso tende a aumentar.

Na advocacia corporativa, mais e mais se cria grupos, comissões, eventos e cursos para apresentar aos colegas as mais recentes “revoluções” e o que os “robôs” podem fazer em termos de padronizações, automação em geral, relatórios, cálculos, informações, minutas, controles etc. Vivemos um tempo em que “as máquinas” podem tudo, e poderão mais ainda. Será que há algum limite? A muitos fascina, diariamente, que tudo ficará mais automático, rápido e barato, com tremenda redução de custos e tempo (nem todos se preocupam de fato com a qualidade).

Realmente, diversas atividades (a maioria delas, inclusive, muito “chata”) são repetitivas e um “tanto padrão”, e tornam-se cada vez mais algo comum e sem valor agregado.

Planilhas e relatórios, contratos e petições, consultas, que sejam “efetivamente” padrão, de fato não agregam muito valor ao departamento jurídico e nem à empresa. E tendem mesmo a ser automatizadas.

Assim como em toda a nossa vida pessoal e social, a tecnologia “veio para ficar”, as empresas buscam freneticamente pela redução de custos, tempo, espaço, riscos…. E os “softwares e robôs” podem mesmo fazer “mais coisa”, em “menos tempo”, “com mais segurança (no que for efetivamente padrão e repetitivo”), e menos custo.

A questão que mais me ocorre, entretanto, não é o que as “máquinas” farão, mas sim o que os seres humanos farão, em, digamos, dez anos. Se essa “tecnologia” fará muito (fará mesmo!) do que é feito por pessoas, o que então será feito por seres humanos? Restará algo? O que? O que continuará sendo (ou será ainda mais) importante e especializado, que será valioso e estratégico, a ponto de precisar ser realizado por cérebros (humanos)?

A “máquina” usará crescentemente dados, estatística e algoritmos, e agora não apenas para reproduzir padrões, mas ainda para “estimar” resultados. Entretanto, o que ocorre quando a “estatística” falhar? Sempre haverá casos e situações em que a lógica não prevalecerá, que mínimos detalhes “farão a diferença”, que aquela mínima chance de um resultado diferente se manifestará, ou a situação será tão inusitada que as máquinas não terão a resposta “perfeita”.

Tais pontos parecem ser exemplos do que os seres humanos farão na advocacia corporativa nos próximos anos.

Tanto para fins de planejamento e de formação de futuros advogados corporativos e equipes, quanto para que entendamos melhor o “futuro”, entendo que devamos estudar as duas “pontas”. Ou seja, o que será “eletrônico – digital”, e o que será “cerebral – braçal”. Ainda que certamente a “máquina” ajude “os humanos” mesmo nessas atividades mais “premium”, em alguma medida será a experiência e o conhecimento profissional/pessoal, e a inteligência (não artificial) que apontarão o caminho.

Em outras palavras… Muito se fala sobre o que os humanos deixarão de fazer, e realmente tudo o que for repetitivo, braçal e não propriamente criativo, deixa de fazer sentido para as pessoas. Que sejam as máquinas (que fazem mais, melhor, mais rapidamente e ainda mais barato)! Trata-se apenas disso? Algumas questões me parecem chave e não tem sido muito comentadas… A advocacia corporativa está realmente refletindo sobre o assunto como um todo ou apenas pensando nas reduções de custos e tempo? A advocacia corporativa está “pensando” no perfil (e na capacitação) do profissional que fará o que “a máquina não fizer”?

As empresas estão considerando o assunto a partir de premissas completas, para que se consiga, por exemplo, planejar a formação dos futuros advogados que atuarão nos departamentos jurídicos das empresas nos próximos anos? Tudo o que for meramente repetitivo pode, de fato (e deve mesmo) ser feito com a tecnologia. Mas, e o que não for? E quem determinará isso? Teremos humanos controlando máquinas, ou por economia delegaremos a outras máquinas esse controle, a ponto de o perdermos? Onde serão colocados os limites? E as panes (que certamente ocorrerão), determinarão planos B, ou C, a serem desempenhados por quem?

O cinema é pródigo em “ficção científica” e os mais aficionados pelo tema certamente podem imaginar inúmeras situações que se podem tornar reais, no contexto da máquina vs. as pessoas.

Esse mesmo gênero (cinematográfico) talvez nos convide a pensar em situações como falta de energia, quedas ou erros de sistema, vírus, e tantas outras questões que precisarão ser consideradas. O que “no futuro” corporativo passar a ser feito exclusivamente por advogados (uma vez que esses deixarão de fazer o que a tecnologia faz, e terão outras funções) será ainda mais complexo, ainda mais desafiador e exigirá ainda mais preparo.

Para ilustrar o debate, trazendo exemplos da vida real, através de embates entre máquinas e softwares, assim como estatísticas e prognósticos, ou algorítimos, em relação a seres humanos, o cinema pode nos ajudar. E tornar a questão menos ideológica ou teórica.

Um dos bons exemplos do que as “máquinas” podem fazer (e já fazem) “versus” o que elas (ainda) não fazem é o filme “Sully” (no Brasil” Sully – O Heroi do Rio Hudson”). A obra cinematográfica de Clint Eastwood, estrelada por Tom Hanks, aborda o cinema catástrofe e o gênero “tribunal”, passando pela emoção, e reproduz, com maestria em 2016, o caso verídico (ainda relativamente recente) e recorda ao público justamente o julgamento do piloto-herói (que dá título à “película”).

Sully, que inicialmente é aplaudido pelo pouso “perfeito”, e por ter salvo todos os tripulantes e passageiros (sem contar outras possíveis vítimas a depender de onde caísse a aeronave), após o choque das turbinas com aves, e a perda dos motores vive um drama e uma batalha com a tecnologia.

Realmente ele consegue pousar no rio que margeia a Ilha de Manhattan (em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América) e salva a todos. Na sequência, porém, teve que provar que seus cálculos e experiência contavam muito mais do que os simuladores.

Na mesma linha, embora com outro ponto central o filme “Suprema” (“on the basis of sex”), que narra a saga de Ruth, demonstra (entre outros aspectos mais evidentes) que os famosos precedentes do sistema jurídico norte-americano, nem sempre seguem uma “ordem” esperada. A estatística e os prognósticos ajudam muito. Mas e quando não são eles que se apresentam na vida real? No filme, por exemplo, o resultado do julgamento foi totalmente inesperado – e contra todos os precedentes e prognósticos. Um resultado realmente surpreendente para a época.

Fosse esse caso atual, talvez tivesse contrariado as máquinas, os softwares, as estatísticas, os sistemas, os robôs e a jurimetria. Pois a questão prática e concreta nos tribunais, nem sempre “é tão exata assim”.

Sully, e Ruth, conseguiram provar, que nem sempre as estatísticas, os prognósticos vencerão. Por vezes, os casos são tão específicos e cercados de tantos fatores, que outros fatores impactam o resultado.

Especificamente no caso do piloto (para o que aqui se convida o leitor a assistir o filme – mesmo que novamente), a batalha máquina x humano é brilhante, e mostra com toda a força o ponto central deste artigo e da reflexão que se propõe. Quando a experiência humana deve prevalecer?

E mais, se a tecnologia “tomar conta” de tudo, cada vez menos os humanos serão treinados para lidar com essas situações. E corremos (todos) o risco de em casos extremos não termos essa opção humana. Queremos esse grau de risco e de ausência de profissionais experientes e treinados em nossos departamentos jurídicos e equipes?

A verdade é que ainda não sabemos como lidar com esse desafio constante, e cada vez mais urgente, que decorre da evolução permanente da tecnologia, e dos desafios que as empresas enfrentam (e nos quais envolvem os executivos e suas equipes). E a resposta “certa” jamais será absoluta.

Como gestores, líderes e estrategistas, portanto, devemos abordar o maior número possível de questões, aspectos e variáveis, para que as decisões tomadas tenham o menor risco de erro possível.

Pensemos como a vida real e o cinema ensinam! Aprendamos com eles. Aceite o nosso convite, e reflita sobre isso sob o ponto de vista aqui proposto. Esse é um dos temas que a atual realidade dos departamentos jurídicos inovadores mais demanda, e que mais se estuda e debate nos diversos foros que já temos no País. Procure conhecer mais. Pode ser útil a você, e a sua equipe!


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