Departamentos Jurídicos

Planejamento

A equipe no departamento jurídico em torno de um projeto

Desafio é enorme e as possíveis ferramentas também são complexas e envolvem a organização toda

Imagem: Pixabay

Frequentemente se debate em diversos foros (sobre excelência em gestão jurídica corporativa) acerca do desafio de se alinhar a equipe em torno de um projeto, de motivar, de acertar ritmos e interesses etc. A questão do próprio alinhamento no departamento jurídico, e deste com a empresa se fazem presentes.

Advogados “padrão” são treinados nas faculdades a se dedicarem a um determinado ramo do Direito, e a nele se especializarem, com pouca ou nenhuma visão “do todo” que uma empresa necessita. E ainda sem o conceito de resultados no contexto corporativo.

O próprio conceito de trabalho em equipe já é relativamente novo na advocacia tradicional, que por séculos privilegiou grandes estudiosos que se faziam (quando muito) acompanhar por um ou dois discípulos. E a interação, quando existente, se dava nos tribunais (ou seja, em duelos).

Nas empresas, via de regra, há não apenas uma enorme variedade de assuntos, tarefas, departamentos etc., como por vezes até mesmo o jurídico congrega uma equipe multidisciplinar. Nesses casos, o time pode contar com diversidade de pessoas, áreas, especialidades – e até mesmo com segmentos e localidades diferentes.

Se somarmos a esse contexto a diversidade natural (e salutar!!) de origem, idades, orientações, formações, interesses etc., temos um cenário que merece atenção.

Trata-se mesmo de um desafio enorme, mas que pode (e deve) ser enfrentado e vencido.

Parte da complexidade deriva da questão de base, já comentada em diversos artigos – a falta de alinhamento do curso básico da graduação em direito no Brasil com os desafios do mundo corporativo.

Sabemos que o curso de graduação em direito permanece “focado” apenas em formar (infelizmente cada vez com menor qualidade) operadores do direito (nas suas diversas modalidades), como se houvesse formula geral e única.

Esse formato arcaico ignora a realidade; sem entender que até mesmo no ramo da advocacia (que é apenas uma das vertentes e das carreiras jurídicas) há atualmente tantas áreas e modelos, que um curso sozinho já não atende o mercado. E num recorte ainda mais cuidadoso, vê-se a advocacia corporativa absolutamente órfã.

O bacharel, que opta pela advocacia corporativa, normalmente, não foi formado para entender de empresas, e menos ainda para nelas atuar. E tampouco foi estimulado a ter como metas e objetivos, bem como mentalidade e atuação, aspectos “não jurídicos puros” – em razão do que, não é natural que exista alinhamento jurídico-empresarial.

Essa realidade (que tão de perto nos acompanha) precisa mudar, mas ainda não se conseguiu sensibilizar as faculdades a ajustar o conceito, o modelo, o enfoque, e a grade do curso para ao menos incluir (ainda que como disciplinas optativas/complementares) um mínimo do mundo empresarial na graduação.

E, de outro lado, parte da questão acreditamos estar, também, na costumeira falta de preocupação da alta gestão nas empresas com a inserção do jurídico no negócio.

Frequentemente sugerimos que os gestores jurídicos e seus departamentos se insiram no negócio, busquem conhecer e colaborar, e isso vem melhorando muito. Mas, naturalmente, não se pode pensar numa parceria de mão única. É preciso que as empresas também queiram e colaborem.

Em muitos casos os advogados ainda se veem como colaboradores “apenas” jurídicos, no sentido de não se sentirem também integrados à empresa como um todo. E por se perceberem como algo “à parte”, muitas vezes não conseguem entender o grande projeto que o departamento jurídico precisa ter, e que deve envolver toda a equipe.

Acreditamos que os departamentos de recursos humanos que realmente se dedicarem ao tema, poderão colaborar com várias ideias e ações, de integração, de sensibilização, e de inserção, mas costuma ser crucial o envolvimento da alta gestão, para que esta de fato permita o envolvimento do jurídico de forma efetiva. E que exista um mega-projeto de alinhamento (super necessário nos tempos atuais).

Ou seja, o desafio é enorme e as possíveis ferramentas também são complexas e envolvem a organização toda.

Ao gestor do departamento jurídico cabe perceber possíveis desvios, ou atuação individualizada demais na sua equipe, assim como visões dispares do negócio ou do apetite ao risco, assim como a linguagem, a postura e o método de se lidar com as questões do dia a dia. Formas muito diferentes de trabalho, de busca de soluções ou orientação, podem ser complicadas.

Um jurídico não (ou pouco) alinhado pode ser muito perigoso para a empresa, pois a orientação pode ser fluida de demais e sem unidade, jogando por terra a pretendida segurança que o negócio precisa.

Para complicar, o choque de gerações tem ficado cada vez mais frequente e desafiador na sociedade, mas também nas empresas. Mas a ideia desta breve reflexão é ir “um pouco além” disso e chamar a atenção para o fato de que um advogado que não se veja como parte efetiva de um projeto, pode perder a motivação rapidamente.

O conceito de pertencimento é muito forte no ser humano, sendo algo muito precioso e necessário, e no trabalho a questão é a mesma. O colaborador precisa se sentir como efetiva parte da engrenagem, com a sua real participação e importância. Para que celebre vitorias e lamente derrotas, para que se dedique ao máximo na superação de objetivos e para que busque a excelência em tudo o que faz.

Estar motivado é fundamental, pois mesmo um profissional bem preparado, quando desanimado, rende e produz muito menos, e com o tempo pode afetar toda a equipe. Por vezes, torna-se um foco desagregador.

Adicionalmente, em períodos de crise econômica como o Brasil frequentemente atravessa, salários e benefícios podem ser afetados e cortados, assim como promoções, jogando holofotes em outras ferramentas motivacionais (na verdade muito mais eficazes, importantes e ricas, mas que nem sempre recebem a devida atenção dos gestores).

Busque encontrar um objetivo comum na sua equipe, preferencialmente de maneira a conciliá-lo com o da empresa, e tente pensar esse conceito como um projeto, para que o grupo todo tenha esse universo comum como pano de fundo em tudo o que faz e como objetivo.

Coach” para a equipe (e não apenas para as pessoas de forma individual) pode ajudar também. Procure refletir sobre o tema. É bem provável que perceba que a sua equipe está precisando de mais alinhamento e motivação, mais unidade e ritmo, mais energia para lidar com os desafios e as restrições (e as reestruturações). Buscar um projeto comum pode ajudar muito!

Esse é um dos temas que a atual realidade dos departamentos jurídicos inovadores mais demanda, e que mais se estuda e debate nos diversos foros que já temos no País. Procure conhecer mais. Pode ser útil a você, e a sua equipe!


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