Coluna do Milton Seligman

Análise

Vacina para pesadelo é sonho

Nós perdemos o rumo e chegamos onde estamos quando paramos de sonhar grande

Crédito: Pexels

Todos vimos o vídeo da reunião do grupo que governa o Brasil. Não tem como dar certo, independente da ideologia. É de uma desqualificação absoluta. Não há equipe, não há time, aquilo não é um estado-maior. É um grupo, um ajuntado de pessoas, sem objetivos, sem missão e sem sonhos, a não ser o de permanecer no poder.

Duas horas de reunião e sequer mencionaram a pandemia ou qualquer outro dos graves problemas do Brasil que deveriam buscar a solução!

O líder do grupo repete e gosta de enfatizar que assumiu o governo para destruir o que aí está e para isso não precisa ter planos, basta ir em frente, improvisando. Ou como disse um participante da turma, aproveitar um descuido da imprensa, preocupada com a Covid-19, para desconstruir de “baciada” todas as normas infralegais que forem possíveis. É de espírito destruidor que eles estão imbuídos.

Não paro de me perguntar, como nós brasileiros chegamos a este ponto? Onde foi que perdemos o rumo? Como foi que tudo deu tão errado?

Um método pode ser buscar o avesso do que a poetiza Sueli Costa sugere, “… descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente”. Por que não identificar momentos grandiosos da existência de nossa Nação e tratar de reconhecer características que tenham sido comuns a todos eles?

Escolho alguns bons momentos, entre tantos que tivemos e começo pela nossa independência de Portugal (1822), a Semana de Arte Moderna (1922), a construção de Brasília (1961), a bossa nova (1959), a seleção brasileira de futebol (1958) e o Plano Real (1994).

A independência do Brasil é o resultado de um processo que ganha força com a inconfidência mineira e sua luta contra a remessa de nossas riquezas para Lisboa. Fica mais forte com a vinda da família real para o Rio de Janeiro. Com a chegada de D. João VI, o Brasil experimentou estímulos para o desenvolvimento da educação, da literatura, do teatro e das engenharias. Começamos a importar de outros centros desenvolvidos, como a Inglaterra, e a sociedade brasileira começou a sonhar que poderia se desenvolver e se transformar em um País melhor. A independência era o próximo passo.

A Semana de Arte Moderna ocorreu no início de 1922 em uma época repleta de desafios políticos, sociais, econômicos e culturais. Novas vanguardas surgiam no mundo e linguagens estéticas sem regras tomavam conta dos espaços. O Brasil vivia sob a República Velha, dirigida pelas oligarquias e conduzido pela política do café com leite. O capitalismo crescia no Brasil, mas quem controlava o país era uma elite atrasada. Os artistas e intelectuais brasileiros, ao romper com o academicismo e abraçar a modernidade, dão um sinal de que a ousadia do progresso poderia ser tentada em todas as áreas. O sonho de um país desenvolvido inflama espíritos revolucionários que em 30 derrotam a República Velha e o Brasil começa um vigoroso processo de industrialização.

Brasília é a promessa política inscrita na Constituição Federal de 1891 e jamais cumprida. Foi Juscelino Kubitscheck que transformou a construção da nova capital em meta síntese de seu programa de governo, que prometia fazer o Brasil avançar 50 anos em 5. A obra de Lucio Costa e Oscar Niemeyer é hoje patrimônio cultural da humanidade, título concedido pela UNESCO em 1987. Mesmo polêmica, Brasília materializa o sonho da modernidade e o Brasil é reconhecido por ter tornado esse sonho uma realidade.

A bossa nova é um movimento de renovação do samba iniciado no Rio de Janeiro no final dos anos 50. Segundo o jornalista Ruy Castro, era “uma simplificação extrema da batida da escola de samba”. A bossa nova era a música produzida por jovens brasileiros amantes do samba e muito influenciados pelo jazz. A crescente importância dos Estados Unidos no pós-guerra tornava o jazz conhecido mundialmente e associado a música de vanguarda. O sonho da intelectualidade brasileira era ser percebida no mundo como atores da criação simbólica de uma nova era.

Entretanto, para o Brasil ser percebido no mundo foi preciso a ajuda de um gênio, negro como grande parte do nosso povo e completamente inigualável, insuperável por qualquer outra pessoa que tivesse tentado jogar o esporte mais popular do planeta. Pelé e a seleção brasileira de futebol de 1958 encantaram o mundo e chamaram definitivamente a atenção para o Brasil. O sonho de ser um país relevante parecia estar se tornando realidade. A utopia de um país tropical, miscigenado, capaz de tornar seus sonhos realidade tinha uma aura de encantamento.

O que de fato não conseguíamos equacionar e resolver era a nossa instabilidade econômica. O Plano Real foi o programa lançado em 1994 com o objetivo de estabilizar a moeda, acabar com uma inflação de mais de 46% ao mês e tornar possível o sonho de crescer em linha ou até acima da média mundial.

O que esses seis lindos momentos de nossa história têm em comum e o que deixamos de ter nas últimas décadas, ou possivelmente desde então?

Nós perdemos o rumo e chegamos onde estamos quando paramos de sonhar grande. É a falta de um sonho generoso, de um sonho ousado ou, se preferirem, de uma utopia, o que nos fez perder o caminho.

Para acabar o pesadelo temos que voltar a sonhar. Lembro a frase do médico, virologista e epidemiologista norte americano Jonas Edward Salk, conhecido como o inventor da primeira vacina antipólio: “eu tive sonhos e tive pesadelos, mas eu venci meus pesadelos por causa dos meus sonhos”.

Estamos frente ao maior desafio humanitário de nossas vidas e de nossa história. Já passam de 22 mil mortos no país e o número não para de crescer. A crise econômica que está armada é também inédita, com componentes de endividamento público e de descapitalização das empresas privadas. As repercussões sociais são de igual dimensão, com um aumento doloroso do empobrecimento das famílias brasileiras, em um cenário de desigualdade crescente.

A história nos sugere que é hora de sonhar grande e não se satisfazer com a mediocridade ou pior ainda, com isso que temos.

O momento pede uma frente de pessoas de bem e com capacidade para sonhar grande e desenhar planos e estratégias para todo o Brasil.

Nosso desafio é conceber um programa sustentável, uma utopia que ofereça oportunidade para todos, diminua a desigualdade, garanta ensino de qualidade para nossas crianças e adolescentes, retome a economia com vigor, capaz de gerar empregos, fortaleça um sistema de saúde que seja eficaz, garanta saneamento universalizado, crie estímulo para o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da cultura e enfrente o desafio da segurança da população.

Quem poderia liderar uma frente como essa? Esse problema se resolve no processo de construção do programa, sempre foi assim. Esse líder costuma ser – como diz velha fábula indígena – aquele que sonhar mais bonito e nos manter unidos.