Coluna do Milton Seligman

Política

São as redes sociais, estúpido!

Alertado por jovens da geração ‘digital native’ estou vendo a política arrumar as malas e mudar-se para um lugar novo

redes sociais
Crédito: Pexels

Por que será que o polo democrático, onde se articulam as tendências social democrata e liberal, está perdendo o jogo da popularidade política sem que aparentemente tenha entrado em campo?

Na semana passada o site Poder 360 divulgou pesquisa eleitoral que mostra Bolsonaro vencendo no primeiro turno, se a eleição fosse hoje. Longe dele, em segundo lugar, está Haddad, candidato do PT que foi derrotado no último pleito.

Qual a importância desta pesquisa, feita 640 dias desde a última eleição e quando ainda faltam 821 dias para a próxima? Acho que tem muita importância. Ela descortina o quadro atual da luta política brasileira.

Nesta mesma semana, o jornalista Charlie Warzel do The New York Times opinando sobre artigo da colega Patrícia Campos Melo, publicado no mesmo veículo, lembrou que a internet é vida real. Transforma as pessoas, influencia a sociedade, mexe com a política e consolida uma nova cultura. As opiniões de Warzel, nesta área são relevantes. Antes de ter sua coluna de opinião no NYT, escreveu para os meios especializados BuzzFeed News e Revista Adweek sobre tecnologia, internet e as mudanças que ela provoca na vida das pessoas e na sociedade.

O artigo de Patrícia Campos Melo trata do chamado “gabinete do ódio” e de suas consequências na vida pública brasileira. O tal “gabinete do ódio” não é outra coisa senão um grupo de ativismo político, de militância, um sucedâneo de um partido político que opera no mundo da internet, dentro das plataformas que dão vida às redes sociais. O que pode ser grave, por ser ilegal, é se for comprovado que o “gabinete do ódio” tem a participações de servidores e é sustentado por recursos públicos. Tipo um partido político com sede real em uma repartição pública.

O polo que sustenta o presidente Jair Bolsonaro tem objetivos políticos legítimos e luta para se manter no poder. A militância política desse grupo trabalha para isso e executa uma estratégia que tem dado certo, como mostram recentes pesquisas.

O lado dos adversários de Bolsonaro parece não estar presente no campo de jogo ou então joga segundo táticas ultrapassadas e perdedoras. No debate político dentro das redes, por exemplo, é possível encontrar um polo oposicionista, mas também se observa um grande vazio.

À esquerda, há uma militância que expressa as posições da maior parte dos militantes do PT e de seus tradicionais aliados. Além de criticar duramente o governo Bolsonaro costumam defender uma agenda democrática e prometer o retorno da política de inclusão social de Lula. É uma posição política difícil de prosperar, pois enfrentam um governo que aumentou os repasses diretos para as famílias de baixa renda – por conta da pandemia – e ainda tem que lidar tanto com a desmoralização provocada pela Operação Lava a Jato, quanto com o desastre econômico do período Dilma.

No meio do caminho, entre os polos de defesa do bolsonarismo e o dos apoiadores do lulo-petismo, há um grande espaço vazio, um deserto, um silêncio a sugerir que esse espaço de mediação não existe em nossa sociedade.

Entretanto, o polo democrático que congrega as forças da social-democracia e do liberalismo com consciência social existe na sociedade brasileira. Ele tem atuação política nos Poderes Legislativos de todos os níveis, tem governadores, prefeitos, tem opinião publicada, participa do grande debate institucional, com teses e propostas. Tem passado, presente e almeja estar vivo no futuro.

Curiosamente, esse polo não está presente nas mídias sociais e talvez isso explique por que as suas lideranças não apareçam nas pesquisas de intenção espontânea de votos.

O número de pessoas no Brasil que se informa e está presente na internet e nas mídias sociais é bem maior que a média mundial. Recente pesquisa publicada no Reuters News Report 2020, com consumidores de notícias com 18 anos ou mais, mostra que 87% das pessoas consomem notícias pela internet incluindo aí as informações recebidas das mídias sociais; 67% afirmam que se atualizam a partir das mídias sociais; 84% acessaram vídeos de notícias na semana anterior a da pesquisa.

Com mais de 120 milhões de usuários únicos, o YouTube no Brasil já tem mais de 800 mil canais, com pelo menos 5 mil inscritos em cada um e 60 desses canais tem mais de 10 milhões de inscritos!

Essa é a arena para onde mudou-se o jogo da política e onde a militância está presente. A mudança é ainda mais profunda, a militância agora busca outra coisa além da audiência, indicador desatualizado para medir a qualidade de um ativo no mundo político eleitoral. Agora, a militância das redes busca engajamento, métrica que dá conta do nível de envolvimento, interação, intimidade e influência de uma pessoa em relação a seu grupo e a seus líderes.

O mundo da política percebeu essa mudança pelo menos desde 2008 com a eleição de Barack Obama, mas foram os estrategistas de Donald Trump, da campanha do Brexit e certamente de Jair Bolsonaro que adotaram definitivamente um novo modo de fazer política.

A prova mais patente dessa mudança é que o presidente do Brasil, em plena campanha para sua reeleição, não tem partido político. Para quê? Não precisa, basta ter sua militância ativa e mobilizada, buscando aumentar o número de engajamentos nas mídias sociais.

Uma pesquisa rápida executada pela Snack, a maior rede independente de social vídeo da América Latina, mostra que dos 10 vídeos com mais engajamento nos últimos 365 dias, com a tag “democracia”, 9 são de apoiadores de Bolsonaro e 1 é de esquerda. O polo democrático perde o jogo por WO.

Entrei na política pelo movimento estudantil, em meados dos anos 60, mais ou menos na época na passeata dos 100 mil, e já vi a política mudar de endereço duas vezes. Nasci quando ela morava nas reuniões de grupos organizados, nos comícios e nas passeatas. Vivi a mudança para a televisão aberta e o gigantesco aumento da audiência, com uma mudança de linguagem notável. Alertado por jovens da geração “digital native” estou vendo a política arrumar as malas e mudar-se para um lugar novo, visível somente para quem vive por lá. Sei que quando isso acontece, tudo muda e os porta-vozes e as lideranças serão outras.

Gosto da definição do inesquecível Dr. Ulysses Guimarães para a arte da política: “Política é esperança. É salvadora e redentora. Não pode ser apocalíptica, torva mensageira de sinistros e desgraças. O Estado é criatura do homem. O homem é anterior ao Estado, inventou-o para ajudá-lo e não para ser por ele negado, perseguido, preso e prejudicado.”

Como iremos atualizar a percepção dessa arte, agora que ela foi habitar um território de áridas polarizações? Teremos que responder ao monstro que nos desafia: decifra-me ou te devoro!


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