Coluna do Milton Seligman

Educação

Perguntas para todos nós

Se fizermos as perguntas certas, coletivamente saberemos como respondê-las

Cristovam Buarque
O ex-senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque / Crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O reitor Paulo Afonso Burman da Universidade Federal de Santa Maria convidou Cristovam Buarque e a mim para debater o tema educação na pandemia e o futuro das universidades federais.

Cristovam Buarque é uma pessoa genuína. Tem formação de engenheiro e economista, é professor emérito, foi reitor da Universidade de Brasília, senador da República, governador e ministro da Educação. Esse pernambucano brasiliense tem um modo instigante de ver o mundo. Pode-se divergir dele, mas não vale a pena deixar de prestar-lhe atenção.

Nos tempos que correm, coincidimos que as perguntas são mais importantes que as respostas. Se fizermos as perguntas certas, coletivamente saberemos como responde-las.

Cristovam trouxe um dilema: como o Brasil não deve crescer nos próximos anos, será possível enfrentar seus urgentes problemas sociais, mantendo o regime democrático?

Estamos de acordo que a pandemia de Covid-19 desnudou nossas fragilidades e mostrou que não temos mais como fazer de conta que as soluções podem esperar. Falsas questões nos atrapalharam, como a escolha entre a vida e a economia. Questão como essa somente faz sentido quando o egoísmo prevalece e a vida em jogo não é a sua, nem a de pessoas queridas ou de sua família. Frente a uma crise as saídas são todas coletivas.

Como responder ao dilema e pôr em ordem tantos desafios? Um bom começo é questionar quais obstáculos nos impedem de diminuir a desigualdade brutal existente dentro de nossa sociedade.

Poderemos seguir adiante sem reforçar o nosso Sistema Único de Saúde, responsável por minimizar a tragédia social e as perdas de vida provocadas pela pandemia?

Qual deve ser o sistema de segurança alimentar, para garantir que a nossa população, num país que está entre os maiores produtores de alimentos do mundo, tenha comida no prato, nos tempos difíceis que virão?

Será possível continuar sendo a potência agrícola moderna, que o Brasil é, sem recuperar o espaço na luta pela sustentabilidade, permitindo a destruição de nosso patrimônio florestal e agredindo o meio a ponto de nos transformamos em símbolo do malfeito ambiental?

Se a economia não cresce, seremos desafiados a gerar renda para mais de 15 milhões de desempregados. Não terá chegada a hora de aprofundar debates sobre as rendas da cidadania e, lembra Cristovam, retomar as ideias iniciais de vincular esses proventos à manutenção dos filhos na escola, à vacinação, à prestação de serviços de interesse público e desenvolvimento de atividades na área cultural?

Seguiremos com nossos preconceitos e tortas ideologias a atrapalhar parcerias entre os setores públicos e privados, feitos com base técnica e transparência?

Por quanto tempo ainda aceitaremos que em pleno século XXI os problemas de moradia e deslocamento urbano seguirão humilhando a população mais pobre? Um dos maiores problemas urbanos continua sendo a falta de saneamento básico e de destinação adequada para o lixo. Até quando e em nome de que vamos empurrar o problema?

A desigualdade social no Brasil afeta e prejudica muito mais os negros, as mulheres, a população LGBTQ+ e os indígenas.

Esses grupos sociais seguirão discriminados e desrespeitados em seus direitos básicos? Continuarão tendo representação desproporcional nas universidades? Seguirão recebendo menos oportunidades e salários menores? Permanecerão como as maiores vítimas da violência policial e do crime organizado, incluindo aí as milícias? Essas organizações ilegais, paramilitares, que se imiscuem, cada vez mais, nos assuntos de governo, seguirão sendo toleradas?

Finalmente, chegamos na área de educação e no papel que cabe às universidades para o período que se vislumbra.

Nossos investimentos em educação podem ser insuficientes, mas os resultados são ainda piores. Como nossas universidades podem fazer mais, com menos recursos, usando novas tecnologias? As universidades podem ajudar a melhorar o ensino fundamental e médio? Teremos condições de criar parcerias para oferecer ensino médio em tempo integral para os nossos jovens? Criaremos as condições para adotar alternativas tecnológicas para o ensino não presencial (EAD), de modo a alcançar as comunidades distantes dos grandes centros? Teremos condições de ter os filhos dos ricos e dos pobres nas mesmas escolas, pois elas são as melhores e o acesso é universalizado?

Nenhum desafio será vencido se a educação de qualidade não for uma obsessão brasileira e não será assim se a nossa sociedade não for educada sobre a importância da educação e do conhecimento científico e tecnológico, ferramentas para a melhoria das condições de vida de todos, em especial dos setores mais frágeis.

Como virar esse jogo e ganhar a necessária coesão nacional sem recuperar a credibilidade na política e nos governantes? Como olhar com coragem para mudanças que se impõem sem alterar as práticas habituais na forma de fazer política? Como esquecer que fomos avisados pelo Dr. Ulysses Guimarães “que a moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune toma nas mãos de demagogos que a pretexto de salvá-la a tiranizam”?

Como será possível administrar o interesse público, em um país continental com a sexta maior população do mundo, sem ter as melhores pessoas cuidando dos maiores problemas?

As respostas virão, temos condições de projetar e desenhar um país melhor do que temos hoje. Para isso já possuímos régua e compasso e uma carta de navegação, que é a nossa Constituição.

Como disse o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, por ocasião da sua promulgação, “certamente ela não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.”

A tarefa é dura, mas o sonho é grande e necessário. Temos que começar logo e isso se faz colocando as pessoas de bem e comprometidas com um Brasil melhor para conversar, debater, dialogar, divergir e concordar.