Coluna do Milton Seligman

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O desprezo à imprensa é fake

Ao exibir jornais impressos como troféus, Trump evidencia estratégia de tentar controlar a narrativa a respeito de si e de seu governo

Donald J.Trump mantém uma cópia do The Washington Post durante o café da manhã de oração nacional de 2020 na quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020, no Washington Hilton em Washington, DC (Foto oficial da Casa Branca por Joyce N. Boghosian)

Um dia após a decisão do Senado Federal norte-americano sobre o processo de impeachment, o presidente Donald Trump compareceu a um evento religioso, cedo pela manhã. Na chegada, sob aplausos, estampou um sorriso e levantou exemplares dos jornais USA Today e The Washington Post. Em ambos, a manchete, em letras garrafais, era: ABSOLVIDO.

Como quem ganha um campeonato e levanta uma taça, Donald Trump elevou os exemplares de dois tradicionais jornais diários impressos sobre a cabeça. Qual a surpresa desse gesto?

Em seu período como empresário e postulante ao cargo de presidente, Trump trabalhou muito para ser notado e considerado pelos meios de comunicação. Nada diferente do que fazem os políticos, em qualquer lugar do mundo.

Ao vencer as eleições e assumir o poder, o presidente Trump iniciou uma batalha contra os meios de comunicação tradicionais, contra os jornalistas e contra profissionais de imprensa que divulgam informações das quais ele não gosta. “Fake news”, notícias falsas, diz ele, sempre que é confrontado com uma dessas notícias ou com uma pergunta incômoda.

Desde a campanha eleitoral, mas com maior intensidade depois da posse, Trump foi o primeiro líder nacional a decidir se relacionar diretamente com a sociedade por intermédio de aplicativos nas redes sociais, o Twitter em especial. Não que outros não os tenham usado antes dele – mas ninguém com sua determinação para travar uma luta contra os órgãos de imprensa, com o objetivo de controlar a narrativa a respeito de si mesmo e de seu governo.

A imprensa tradicional e os jornalistas profissionais pareciam não ter mais relevância para ele. A narrativa sobre o governo e sobre a sua liderança seria feita diretamente da Casa Branca. Claro que a oposição seguiria usando os veículos tradicionais para fazer o seu papel, mas isso faz parte do jogo político.

Aqui no Brasil, temos um exemplo similar. O presidente Jair Bolsonaro também luta contra notícias que não agradam a sua administração. Cita veículos que considera adversários de seu governo, busca deslegitimar os autores das matérias e artigos de opinião, assim como ameaça veículos de comunicação com cortes de verbas publicitárias e rigor na análise de renovação de concessões.

Estaria sendo inaugurada uma era em que a oposição usaria a imprensa e o governo falaria diretamente por meio das redes sociais?

Estaríamos frente a mais um processo de desintermediação, como tantos que estão prosperando nesse período de revolução tecnológica? Estariam Trump, Bolsonaro e tantos outros decretando o fim da atividade jornalística e o início da “uberização” das informações? Para que servem jornalistas e empresas de comunicação se cada um pode, diretamente de seu celular, dar a sua opinião e contar a sua versão sobre os fatos?

Parece ser uma boa ideia para uma sociedade polarizada, que aceita narrativas simples da luta do bem contra o mal e do certo contra o errado.

Eu penso que não.

Embora haja um valor notável na reverberação de vozes que não eram ouvidas antes da chegada das redes sociais, a profusão de versões e distorções factuais só reforça o valor da curadoria e da análise imparcial dos fatos.

Acredito que o presidente Trump compreenda bem esse cenário. Caso contrário, ele não mostraria exemplares de jornais impressos, como troféus de sua absolvição – bastaria usar sua conta no Twitter.

Mostrar os jornais foi a maneira que Trump escolheu para reconhecer a existência do contraditório, o outro lado, a opinião de quem, provavelmente, não pensa como ele. Mais que isso, quis demonstrar que o assunto está encerrado “beyond reasonable doubt”, já que foi atestado por quem, em tese, teria a intenção de minar sua reputação por meio de “fake news”.

O papel de uma imprensa livre e independente é mostrar muitos dos lados que existem em uma sociedade numerosa, diversa e desigual, como as nossas. Tanto nos EUA como no Brasil, existem diferentes modos de ver, interpretar e narrar os mesmos fatos. Cada veículo jornalístico tem a sua legitimidade – e, de forma inconteste, sua influência.

Para quem precisa tomar uma decisão que terá repercussões no futuro, não basta saber a opinião de uma pessoa, ou um grupo de pessoas, por mais informados e poderosos que sejam. É preciso saber o que pensam os que não pensam como esses.

Quem opina e informa por meio das redes sociais, na maior parte das vezes, fala para sua bolha de quem recebe comentários. A sensação de homogeneidade é inescapável e muito perigosa, principalmente quando a fonte é poderosa.

O paradoxo de ver Trump brandindo os jornais impressos nos dá elementos para compreender que, embora as discussões em torno das “fake news” possam, em algum momento, ter começado como manifestação de convicção ideológica, elas hoje, definitivamente, seguem como pura estratégia política.

A imprensa, por seu lado, segue em frente, olhando os novos desafios trazidos pelas mídias sociais, mas tão influente e viva como sempre foi.


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