Coluna do Milton Seligman

Casa JOTA

O debate

Impressões sobre o interessante diálogo entre o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, e o youtuber Felipe Neto

Barroso
Felipe Neto: “Dentro dos nossos estudos e de todo o mergulho que estamos fazendo para entender o que está acontecendo na internet brasileira, uma certeza que está muito clara é que esse ódio é articulado. Mas ele depende da ignorância do povo, que vai se permitir ser comandado por esse ódio”.

A pobreza do debate político no Brasil é um legado da ditadura, que afastou a juventude dos assuntos públicos. Essa é a opinião de Felipe Neto, uma celebridade jovem das redes sociais brasileiras com mais de 39 milhões de seguidores. A boa notícia é que ele e muitos outros acreditam que essa situação pode melhorar se a juventude for educada para o debate político na internet.

Um dos grandes debates ocorridos recentemente no Brasil aconteceu na Casa JOTA, ambiente virtual criado por este veículo de comunicação para aprofundar temas de interesse público, com objetivo de explicar como funciona, age e reage o Estado brasileiro em temas de interesse da sociedade.

O diálogo entre o presidente do TSE e ministro do STF, Luís Roberto Barroso, e o criador de conteúdo no YouTube Felipe Neto foi conduzido pelo jornalista Felipe Seligman e transcorreu dentro de uma forma de debate que não estamos acostumados a ver.

O interessante diálogo entre pessoas de mundos aparentemente distantes tratou da influência da política na juventude, do espaço dos jovens na vida pública, de debates inflamados, polarizados e de notícias deliberadamente mentirosas. Esse último ponto provocou do ministro Barroso uma frase que deverá se incorporar nas argumentações sobre esse relevante tema: “a verdade não tem dono, mas a mentira deliberada tem”.

Nesse artigo quero me ater a um aspecto da admirável conversa entre essas duas personalidades da vida pública contemporânea de nosso país. Quero tratar da pobreza do debate político, da forma como se dá esse debate, e da necessidade de enriquecê-lo, pois só assim as pessoas poderão conversar buscando convencer, mutuamente, a que a outra mude de opinião e possa, por esse intermédio, evoluir.

Felipe Neto lembra que os 21 anos de ditadura militar legaram ao Brasil – entre outros problemas – o desinteresse da juventude pelas coisas públicas. Política ficou identificada como coisa chata, coisa de velhos, discurso desinteressante, conversa monótona, muito longa e sem graça.  Lembra ele que a juventude é o período da vida em que as características de rebeldia e vontade de consertar o mundo estão muito presentes. A política, ao contrário, mostrava-se com características diametralmente opostas. Os políticos e seu ofício se identificavam com o conformismo, com a incapacidade de liderar processos de inclusão social voltados para a solução dos problemas da cidadania e com a malandragem, a falta de ética, a corrupção, filha maldita do patrimonialismo que caracteriza os donos do poder político, como ensinou Raimundo Faoro.

O processo de globalização e em especial a universalização do acesso à rede mundial de computadores deu voz aos indivíduos e particularmente a uma juventude que começou a falar – a seu modo – sobre temas que somente os chatos dele se ocupavam. Os jovens começam a pôr o pé na política e a entrar no debate público.

Por este mesmo processo, a política começou, uma vez mais, a mudar de endereço. Saiu das praças para a TV aberta e agora se transfere, de malas e bagagem, para as redes sociais.

Enquanto a política vivia na televisão os políticos buscavam audiência e essa determinava o sucesso que viriam a ter nos embates eleitorais periódicos. Nas redes sociais a questão é outra, trata-se da capacidade de engajar as pessoas no processo de debate.

Felipe Neto lembra que o “ódio engaja mais que o amor”, que o discurso inflamado, polarizado, radical, fundamentalista, que usa o grito, o berro e o xingamento têm muito mais poder de engajar seguidores e apoiadores que o discurso racional, exploratório, construtivo, ponderado e prudente.

Há estudo acadêmico que pode ajudar a entender a questão da forma no debate público. Josep Aguiló Regla, da Universidade de Alicante, na Espanha, analisou o assunto e sugeriu a existência de quatro modos distintos de diálogo, a partir da variável conflito e cooperação. O autor induz a existência de quatro modos distintos de debates: a disputa, a controvérsia, o diálogo racional e o consenso.

É interessante que o estudo comece por lembrar que debater é argumentar em forma dialogada e que existem inúmeras figuras dialéticas para tanto. Para simplificar ele recorre a metáforas que ajudam a compor os diferentes modos de argumentar. Ele considera que debate pode ser combate, na metáfora bélica, pode ser competição, na metáfora esportiva, pode ser exploração e busca de diagnóstico, na metáfora médica, e finalmente, construção, na metáfora construtiva.

O exercício da política como instrumento essencial da construção do bem comum necessita da existência dos quatro tipos de argumentação, identificados por Aguiló Regla. É fácil observar, a partir dessas categorias, o porquê de o debate político brasileiro estar empobrecido, limitando-se a exercer a disputa, onde debater é combater.

Retornando ao diálogo exploratório organizado pelo JOTA, com vistas a diagnosticar um de nossos problemas na construção de um futuro melhor, observamos que essa redução engaja um público que estava afastado do debate político, logo despreparado. As pessoas não são burras, lembra Felipe Neto, são simplesmente desinformadas e tem dificuldade elementares, como por exemplo, distinguir entre uma informação com base em fatos e dados e uma notícia recebida em um aplicativo de mensagem instantânea como o WhatsApp e o Telegram.

Nesse aspecto, o interessante diálogo entre o ministro do STF e o youtuber coincidem para o desejo comum de enriquecer o debate público brasileiro, por meio da inclusão qualificada da juventude na vida institucional.

O ministro Barroso desafia seu interlocutor, e também a todos nós, para encontrar formas de debate público que sejam agregadoras e permitam a formação de uma agenda para a cidadania, que ao contrário de ser polarizada, inclua temas como educação básica, investimento em ciência e tecnologia, proteção ao meio ambiente e elevação da ética pública.

Felipe Neto parece ter aceito o desafio. O que dizer das mais de 600 mil pessoas que assistiram a esse debate?


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