Coluna do Milton Seligman

Questões brasileiras

O condado de Macapá

Vemos a crise no Amapá como se ela fosse distante e tivesse menos a ver conosco do que os votos no Condado de Filadélfia

Macapá apagão amapá
Mercado no bairro de Santa Rita, em Macapá, no dia 7 de novembro de 2020 / Crédito: Rudja Santos/Amazônia Real

Acompanhamos as eleições americanas, torcendo para Joe Biden ou para Donald Trump e conhecemos detalhes da geopolítica dos Estados Unidos.

Aprendemos que Las Vegas está situada no Condado de Clark e que seus votos foram essenciais para a eleição dos delegados democratas de Nevada. Seguimos, atentos e nervosos, cada voto apurado no Condado de Allegheny, especialmente os de sua sede, a cidade de Pittsburgh, que foram igualmente chave para virar a tendência original da Pensilvânia, onde há mais de 200 anos foi promulgada a Constituição de um país que se orgulha de ter a lei acima de qualquer pessoa.

Sabemos mais. Temos conhecimento que as metrópoles americanas apoiaram o candidato vencedor Joe Biden, vitorioso na maioria das cidades com mais de um milhão de habitantes.

Vimos que os negros e as mulheres fizeram a diferença e derrotaram um presidente que se caracterizou pelo personalismo, pela falta de empatia com a população negra de seu país, que grita “vidas negras importam”, e por uma condução deplorável das ações de enfrentamento a pandemia.

Três dos argumentos mais usados para torcer pela vitória dos políticos tradicionais Joe Biden e Kamala Harris, estavam nas palavras do candidato eleito, em seu primeiro discurso: a vitória da esperança, da verdade e da ciência.

Quando olhamos o resultado das eleições americanas impossível não reconhecer que o grande país está dividido pela metade. Mesmo que esse processo não tenha começado com Donald Trump, foi ele que o aguçou pelo estimulo à polarização interna, pelo uso de um discurso de ódio e pela disseminação de notícias falsas e de mentiras.

Fez escola em muitos países e vem sendo emulado por inúmeros dirigentes nacionais. O mais notável no primeiro discurso de Biden foi a ênfase que colocou no desafio de unir toda a Nação. Quando estamos todos juntos, disse ele, somos capazes de alcançar resultados incríveis.

Inegável que os ventos que vêm do norte animam as pessoas a sonhar com a construção de um Brasil inclusivo, unido, que valorize seu grande potencial que vem da diversidade cultural, da biodiversidade e de uma população enorme vivendo em um território continental e falando a mesma língua. A escolha da maioria dos norte-americanos nos emula a buscar lideranças que defendam um ciclo de desenvolvimento econômico sustentável, onde estado e iniciativa privada cooperem para o bem de todo o país.

Neste estágio de suspensão em que nos encontramos, olhando para os Estados Unidos e sonhando com um futuro melhor para todo o Brasil, nem prestamos atenção na notícia do estrondo e posterior incêndio que danificou dois dos três transformadores da maior subestação de energia elétrica do estado do Amapá. Como o terceiro transformador já estava danificado, Macapá e quase todo o estado ficaram sem energia elétrica.

Inicialmente, os governos federal e estadual encontraram uma solução para atender 16% da carga elétrica do Amapá, por meio da Usina Coaracy Nunes, localizada a 150 km de Macapá. Depois, no sábado, o transformador da subestação Isolux foi recuperado e conectado ao Sistema Interligado Nacional, o que ampliou a carga para 50% a 60% da energia necessária para suprir as necessidades do estado. O Amapá se conecta ao sistema interligado nacional por meio de uma única linha de transmissão e para essa contingência, a perda da linha ou de sua subestação, simplesmente não há alternativa. Diante da limitação atual, foi adotado um rodízio de energia com duração de 6 horas para cada região.

O Amapá está parcialmente sem luz e sem água, pois as bombas do sistema hidráulico são movidas a energia elétrica. Imaginem o caos nas áreas de saúde em meio à pandemia, na segurança pública, na educação, no abastecimento de alimentos, de combustíveis e tudo o mais.

O Brasil está praticamente indiferente com o que se passa com a sociedade amapaense. As lideranças do país estão dando pouca importância a uma crise que poderá ter desdobramentos dramáticos para a população daquele estado, em especial os segmentos mais pobres.

A unidade de nossos sonhos começa com a empatia para com os problemas de todos.

O que dizem os nossos líderes? O que faz o presidente Bolsonaro, que tem a possibilidade de mover recursos para mitigar os danos e acelerar a solução do problema? Quais os planos para que o estado tenha alternativas frente a essa contingência? O que fazem a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o Ministério de Minas e Energia (MME) para resolver a crise? Consta que a Aneel indicou ao MME, há mais de 10 anos, que a concessão da empresa distribuidora de energia elétrica no Amapá deveria ser cassada e novo leilão deveria ser feito. Descaso, nada foi feito.

Qual manifestação de solidariedade vinda do Palácio do Planalto? Nada! Silêncio.

Parece que tudo isso não é conosco, não nos diz respeito. Mas é conosco, sim, com cada um de nós.

Não se trata somente de chamar a atenção para o Amapá. O próprio presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, é um representante daquele estado. O que precisamos fazer é exigir urgência para a solução do problema e não aceitar que qualquer parte de nossa sociedade seja abandonada à própria sorte, sem luz e sem água, na mão de gestores despreparados, sem vocação e sem grandeza para a coisa pública.

A Amazônia é uma de nossas maiores riquezas e não há quem não se levante para defender a nossa hegemonia sobre a parcela brasileira da região. É conhecida a importância da biodiversidade local e o enorme potencial que esse conhecimento trará, em forma de riqueza, para todo Brasil. Por essa razão, a maior parte de nós defende a floresta em pé e se associa à luta pela defesa da população indígena, ribeirinha e urbana. Usufruímos, já hoje, dos rios voadores que vêm da Amazônia para irrigar nossa produção agrícola em outras regiões, especialmente o Centro-Oeste e temos ciência da importância da região para o controle do clima.

Amapá é Amazônia e nós olhamos essa crise como se ela fosse mais distante e tivesse menos a ver conosco do que os votos colhidos no Condado de Filadélfia.

 

 


O episódio 42 do podcast Sem Precedentes analisa as acusações de Donald Trump questionando a legalidade do pleito eleitoral nos EUA. Ouça:


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