Coluna do Milton Seligman

Análise

Envenenados pela ideologia

Circula nas redes uma profusão de tolices sobre supostos métodos chineses para conquistar espaço geopolítico

Crédito: Unsplash

Nesta semana um boato ganhou força no Brasil, foi espalhado pelas mídias sociais e circulou em incontáveis grupos de WhatsApp. Os chineses enviaram pelo correio, para vários países do mundo, envelopes com sementes envenenadas com o objetivo de contagiar a população e assim, sei lá, dominar o mundo.

Setores que apoiam Bolsonaro gostaram da história e usaram suas redes sociais para disseminar e atacar os chineses. É mais uma história de tiro no pé, alimentada por setores próximos e aliados do governo federal.

Contada desse modo, essa notícia é só um boato, mas vale à pena ir mais fundo para ver como é difícil separar informações de mentiras, e principalmente como há espaço para prosperar o discurso do ódio e a desinformação.

Tudo começa em julho deste ano, quando o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) alertou sobre envelopes com sementes que chegaram, sem solicitação, para pessoas que vivem em oito estados americanos. As autoridades públicas orientaram os cidadãos para não as plantar devido aos riscos envolvidos. Solicitaram que as sementes fossem embaladas adequadamente e entregues às autoridades competentes.

Os riscos nesse caso são muito conhecidos, razão pela qual os sistemas de defesa agrícola de cada país impedem a importação livre e, especialmente, o uso do correio postal para o envio e recebimento de sementes. Os problemas a serem evitados são desde o desenvolvimento de plantas que podem ameaçar as produções agrícolas nacionais ou desequilibrar a fauna local, responsável pelo equilíbrio do ecossistema.

Tão pronto a reação norte-americana ocorreu, o governo de Pequim solicitou amostras e cópia dos envelopes para iniciar uma investigação quanto à origem dos envios. O Ministério de Negócios Estrangeiros da China lembrou que seu país respeita as normas da União Postal Universal que limita, para situações muito particulares, o envio de sementes de plantas.

Não demorou muito e já se sabia que os chineses identificaram irregularidades nas etiquetas de envio constatando falsificações e até textos escritos de maneira incorreta.

O governo de Donald Trump, por sua vez, não afastou a hipótese de bioterrorismo, mesmo que a investigação do USDA tenha sugerido cautela e considerado mais adequado tratar o tema como sendo “contrabando agrícola”. No Estado do Kentucky, por exemplo, o representante do Departamento de Agricultura, Ryan Quarles, sugeriu atenção e observou que os Estados Unidos tem “o mais seguro, o mais abundante abastecimento alimentar do mundo” e que precisa mantê-lo assim. Disse ele que “neste momento não temos informação suficiente, para saber se é uma trapaça, uma brincadeira, uma fraude de internet ou um ato de bioterrorismo”.

O assunto não esteve restrito aos Estados Unidos e, mesmo antes de chegar ao Brasil, cidadãos do Reino Unido receberam por meio da Amazon e do site eBay envelopes com sementes provenientes da China e da Malásia. O que os destinatários tinham em comum é o fato que haviam feito compras na Amazon ou no eBay recentemente. Inescapável considerar que os sistemas dessas empresas de logística tenham sido hackeados.

Não há conclusão sobre o fato, mas as hipóteses mais razoáveis acreditam ser um caso de fraude promocional, em que o vendedor envia por correio algo que as pessoas não pediram para depois publicar um vasto portfólio de clientes internacionais e assim promover e realizar suas vendas. Essa forma agressiva de promoção comercial é uma fraude, uma trapaça, uma das hipóteses alertadas pelas autoridades.

A imprensa internacional, especialmente a europeia publicou farto material sobre o assunto e em nenhum deles se falava de envenenamento ou manobra de Estado com objetivos políticos. Mesmo assim, a notícia era boa demais para os adeptos das teorias conspiratórias e as pessoas ideologicamente interessadas em criar um sentimento contrário a China entrassem em campo.

Circula nas redes uma profusão de tolices que vão desde métodos chineses para conquistar espaço geopolítico até o interesse em destruir a agricultura brasileira.

Por que fariam isto? Com que objetivo estratégico? Pouco importa a razão.

Os mecanismos das redes sociais, seus algoritmos, estão projetados para impulsionar essas tolices junto com outras da mesma linha, tipo o preconceito contra produtos de fabricação chinesa, incluindo a vacina que está sendo testada e será fabricada em parceria com o Instituto Butantã, da USP. Vale tudo quando o objetivo é defender um conjunto de ideias associado a lideranças ou mitos.

Só que essa atitude tem custo e pode ser impagável. Não faz o menor sentido criar ou estimular um ambiente desses contra o nosso maior parceiro comercial. Está mais do que na hora de os setores da agricultura moderna elevarem a voz e dar um basta a esses porta-vozes de um sentimento xenófobo e atrasado que pode custar caríssimo aos interesses da área agrícola e do Brasil. O setor do moderno e competente agronegócio brasileiro tem que ser protagonista de pressão para que o governo Bolsonaro retome o pragmatismo que sempre caracterizou a política de comércio exterior de nosso país e que foi completamente abandonada desde o início da atual administração.

Estamos vivendo um momento nunca imaginado. Um governo que se diz liberal, é apoiado por setores que defendem ideias atrasadas que colocam em risco os interesses concretos e objetivos do Brasil, o que pode ser constatado pelo modo desastrado como são conduzidas nossa diplomacia e nossa política de comércio exterior.

 


O Sem Precedentes desta semana analisa o voto antecipado do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que reconhece a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro prestar depoimento por escrito à Polícia Federal no âmbito do inquérito que apura possível interferência do presidente na PF. Ouça:


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