Coluna do Milton Seligman

Análise

Os longos caminhos curtos

A professora McCloskey tem lições úteis para quem está empenhado em encontrar o caminho do desenvolvimento econômico

Deirdre McCloskey
A economista americana Deirdre N. McCloskey / Crédito: Reprodução YouTube

O rabino Nilton Bonder escreveu o livro “A Alma Imoral” (1998, Editora Rocco) onde usa parábolas judaicas para analisar os impulsos naturais de perpetuação e da ruptura. O livro deu origem à uma peça de teatro e a um filme, recém-lançado. A peça está em cartaz há mais de 12 anos.

No início do filme há uma cena que resume a obra. O rabino prepara-se para fazer uma prece em frente a um rio amazônico. Ele conta uma parábola, na qual um andarilho encontra uma criança em uma encruzilhada e lhe pergunta qual seria o caminho para a cidade. A criança responde: ‘Este é o caminho curto e longo e aquele, o longo e curto.’ O viajante toma o curto e longo e logo se depara com obstáculos intransponíveis de jardins e pomares. Ao retornar, reclama: ‘Meu filho, você não me disse que era o caminho curto?’ O menino então responde: ‘Porém lhe disse que era longo!’”

Sobre escolha de caminhos, quem retorna ao Brasil esta semana é a economista norte-americana Deirdre McCloskey. Ela é uma professora ilustre de economia, história, língua inglesa e comunicação da Universidade de Illinois. Foi professora da Universidade de Chicago nos anos 70 e pode ter sido mestra do Ministro Paulo Guedes.

Deirdre McCloskey nasceu em 1942 como Donald McCloskey, filho de um professor de Harvard e de uma poetisa e assim foi conhecida por 30 anos. Nos anos 60 casou e teve filhos, mas em 1995 McCloskey tomou a decisão de fazer a transição de homem para mulher. Ela escreveu sobre isso em um livro chamado “Crossing: A Memoir” (1999, University of Chicago Press). Ela costuma se apresentar como uma pessoa liberal, cristã progressista e transgênero.

McCloskey é uma fonte de conhecimento interessante. Ela não gosta da palavra capitalismo, pois julga ser um conceito fora do contexto, no mundo contemporâneo, mas defende que o acúmulo de capital é a melhor forma para o crescimento de uma nação. Quando nos visitou, em 2017, foi profundamente crítica ao trabalho de seu colega, o economista Thomas Piketty, um ícone do pensamento econômico de esquerda.

A professora McCloskey tem lições úteis para quem está empenhado em encontrar o caminho do desenvolvimento econômico. A escolha do trajeto liberal onde “menos Brasília e mais Brasil” deveria significar mais liberdade para os agentes econômicos e menos dirigismo governamental, sugere que a professora estaria preparando elogios para o esforço da equipe do Ministro Paulo Guedes. Mas não é isso que acontece.

Em entrevista ao O Estado de São Paulo, ela afirma que o governo de Jair Bolsonaro é “qualquer coisa menos liberal”. Para ela, não é possível separar as questões econômicas das sociais.

A premiada professora lembra que “… um ministro da Economia não faz tudo funcionar, é preciso ter outras políticas por trás. (…) A palavra liberalismo vem do latim, ‘liber’, o que significa não-escravo. A ideia principal do liberalismo é que não haja hierarquias: homem sobre mulher, heterossexuais sobre gays ou Estado sobre indivíduos.”

Essas questões estão presentes, aqui e agora. Muitos perguntam: é necessário preocupar-se com o estado de direito democrático e com políticas sócio culturais para se ter um desenvolvimento econômico, com bases liberais, sustentável? Usando a parábola escolhida pelo Rabino, estaremos escolhendo um curto caminho longo se focarmos exclusivamente na melhora dos indicadores da economia?

Segundo a professora, a resposta é sim.

Se por um lado, há suficientes evidências empíricas para garantir que a “liberdade é o âmago do mundo moderno”, por outro para que haja liberdade é necessário que toda a sociedade usufrua desse espaço democrático e de oportunidades, onde não há privilégios pré-determinados.

O Brasil tem uma série de desafios para construir uma sociedade liberal e democrática. Dois deles tem urgência.

O primeiro é fazer as reformas que nos ponham em condições de retomar o vigor do desenvolvimento econômico e assim gerar os empregos necessários para nossa população. Isso não é fácil, como demonstra o economista Marcos Mendes em seu livro “Por que é difícil fazer reformas econômicas no Brasil?” (2019, Editora Grupo GEN). Para avançar será preciso construir muitos entendimentos e fazer muitos acordos.

O segundo, é fortalecer o sistema nacional de educação e cultura, para fechar o enorme déficit que temos com outros países semelhantes ao nosso.

Nossos resultados, nesse campo – a mais importante área do desenvolvimento humano, são sofríveis. Esse desafio tem que contar com enorme dose de humildade e disposição para estabelecer parcerias. Ninguém é capaz de conduzir esse processo sozinho. É fundamental que haja uma equilibrada, inteligente e tranquila liderança do poder público.

Avançar nessa área é mais do que importante, é imprescindível. A ciência e a arte são as antenas humanas que dialogam com o futuro, buscam o que está por vir. Uma sociedade que não participa do esforço para criar ciência e arte não se desenvolve, ao contrário, regride. Para que a produção científica e as artes floresçam é preciso de absoluta liberdade de criação. Condená-las ao cabresto do Estado é condenar a sociedade a barbárie.

Nada disso será feito somente pelos governos e muito menos sem os governos. Assim, precisamos voltar a nos entender internamente e não há entendimento sem respeito mútuo. Não há entendimento sem que se crie empatia.

Lembrando a parábola contada pelo Rabino Bonder, não serve o curto caminho longo, com seus atalhos é falsas promessas. Teremos mesmo que buscar o longo caminho curto onde toda a sociedade participe dos frutos do desenvolvimento.


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