Coluna do Milton Seligman

Celso Pinto

A importância de informar e opinar

O desafio do jornalismo é manter o compromisso ético com o desenvolvimento da sociedade

Celso Pinto, importante jornalista econômico do Brasil, faleceu na semana passada. Imagem: Youtube

Celso Pinto, o mais importante jornalista econômico do Brasil, faleceu na semana passada recebendo reconhecimentos e homenagens pra lá de justas. Foi figura central na criação do jornal Valor Econômico, seu primeiro diretor de redação e foi um jornalista que legitimou o exercício de informar e opinar sobre assuntos de interesse público. Para mim, entretanto, ficou a tristeza da perda de um querido amigo, uma referência e uma inspiração.

Fico pensando: como o Celso faz falta para ajudar a entender e navegar sobre esses tempos que vivemos!

Jornalista sem necessidade de qualquer adjetivo, ele era preciso para enfrentar a questão de informar e opinar e o papel social dessa atividade.

Não é tema simples, principalmente em momentos de grandes transformações sociais. Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, foi criada nos EUA a Comissão Hutchins, na verdade Comissão da Liberdade de Imprensa, para investigar o bom funcionamento da mídia em uma democracia moderna. Na época eram consideráveis as críticas do público e do governo sobre a atuação da mídia. Ressalte-se que o direito à liberdade de informação faz parte da primeira emenda à Constituição daquele país.

Depois de quatro anos de trabalho, a Comissão concluiu que “a imprensa desempenha um papel importante no desenvolvimento e na estabilidade da sociedade moderna e, como tal, é imperativo que um compromisso de responsabilidade social seja imposto aos meios de comunicação de massa”.

Essa era uma teoria da responsabilidade social dos meios de comunicação. Na prática, sustentava que todos os pontos de vista e interesses da sociedade devem estar representados nos organismos de comunicação. Todos os grupos existentes devem ter voz e apresentados com suas características reais, reportadas com verdade e rigor.

No ano 2000, em uma entrevista, Celso Pinto traduzia essa conclusão ao dizer que “não estamos aqui para dizer que tem mocinho de um lado e bandido do outro, mas para contar a história relevante para o leitor”. Simples e preciso.

O pós-guerra criou uma mudança sociocultural que definiu os rumos globais que foram seguidos até o crescimento gigantesco da internet, com todas as suas potencialidades.

Uma das novas características foi formulada originalmente pelo sociólogo espanhol Manuel Castells em sua trilogia “A Era da Informação”. A globalização gigantesca da internet forneceu a infraestrutura que materializou a sociedade organizada em redes e propiciou o surgimento e a popularização do que chamamos de redes sociais.

Uma realidade totalmente nova. Uma sociedade que se expressa de maneira agressiva, polarizada e, muitas vezes, mal informada. Cresce a propagação de notícias falsas, a sociedade é inundada de notícias erradas e os meios de comunicação tradicionais vão mudando de polo, deixando de ser fontes exclusivas de informação e de opinião para constituírem-se em um dos assuntos prediletos das redes sociais, muitas vezes insufladas por atores do setor público.

O que está mudando tão substancialmente? O ex-presidente FHC concedeu entrevista aos jornalistas David Coimbra, Kelly Matos e Luciano Potter do programa Timeline da Rádio Gaúcha e resumiu os tempos atuais. “A internet permitiu a conexão de micropartículas da sociedade que antes não se comunicavam. Essas micropartículas, depois de coesas, tornam-se poderosas. Só que elas não têm rumo certo, elas podem mudar de forma e de posição, e estão constantemente fazendo isso, o que tem resultado em súbitas detonações de insatisfação sem lideranças ou reivindicações claras, como se deu há pouco no Chile. Essas ondas são muito fluidas, voláteis e velozes, um problema para as instituições, porque os governos precisam de estabilidade para funcionar”, disse ele.

Lidar com essa transformação vai exigir uma multiplicidade de conhecimentos e uma paciência enorme para conviver em ambiente de cacofonia e mesmo assim buscar entendimentos. Castells observou que “como em qualquer processo de transformação histórica, a era da informação não determina um curso único da história humana. Suas consequências, suas características dependem do poder daqueles que se beneficiam de cada uma das múltiplas opções apresentadas à vontade humana”.

Como o Celso reagiria a esse desafio, ele que era “um arguto economista, escondido no, seguramente, mais brilhante jornalista econômico de nossos tempos”, nas palavras de Delfim Neto?

Creio que seguiria acreditando na enorme importância dos meios de comunicação profissionais para que a sociedade tenha acesso a boa informação e as pessoas possam ter opinião própria. Certamente aceitaria o desafio da enorme mudança tecnológica pela qual o ofício está passando. Agora não é mais possível fazer uma grande cobertura, apurar cuidadosamente um assunto sem contar com o apoio de engenharia de dados, inteligência artificial e tratamento de grandes volumes de dados. Acredito que compreenderia que os limites do desafio de bem informar e opinar não estão mais na tecnologia posta à disposição dos meios, mas do compromisso ético que esses tem com o desenvolvimento da sociedade.

Adoraria escutar o Celso Pinto sobre este assunto, mas não sendo mais possível, posso me apoiar no que ele mesmo disse em outra entrevista: “A ética do jornalista não é muito diferente da ética do padeiro, ou seja, entregar o que o cliente quer. No caso, informação confiável”.


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