Coluna do Milton Seligman

Pandemia

A crise do coronavírus e a formação da tempestade perfeita

No Brasil, todas as soluções, de um modo ou de outro, passarão pelo Estado

O presidente Jair Bolsonaro acompanhou, da área externa do Palácio do Planalto, em Brasília, a manifestação de apoiadores de seu governo. Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Volta e meia escutamos alguém mencionar o termo “tempestade perfeita”. Pedimos essa expressão emprestada do inglês e os dicionários explicam que é “uma situação na qual um evento desfavorável é drasticamente agravado pela ocorrência de uma rara combinação de circunstâncias, transformando-se em um desastre”.

Cá entre nós, é nisso que estamos.

Uma série de eventos independentes estão acontecendo ao mesmo tempo, nos dando a sensação de fim dos tempos. Ouço de muitos jovens e alguns nem tanto, que jamais imaginaram ter que passar pelo que estão passando. Quem imaginaria Milão fechada, Paris com restaurantes e bares cerrados, Londres com crise de abastecimento, Nova York vazia em uma sexta-feira à noite e a China isolada?

A pandemia do coronavírus, a guerra de preços no mercado de petróleo, a falta de confiança nas instituições públicas, as notícias falsas e erradas criaram um desastre global gigantesco.

As principais vítimas dessa calamidade são as pessoas infectadas pelo vírus, populações com acesso a precários sistemas de saúde e algumas indústrias bem específicas. Do ponto de vista econômico, deveriam estar sofrendo as empresas da área de turismo, como as de transporte aéreo, hotéis, restaurantes, bares e toda a cadeia de cultura e lazer. Empresas produtoras e distribuidoras de petróleo e os países onde essas indústrias são relevantes também deveriam estar no epicentro da crise.

Mas não é isso o que está acontecendo. O pânico é geral. Todos os setores parecem estar sendo vitimados e todas as atividades econômicas parecem ter sido diretamente flageladas pela hecatombe. As bolsas em todo o mundo derreteram, levando junto patrimônios e poupanças.

Será essa a maior pandemia de toda a história? O mundo está pior preparado e tem menos recursos para enfrentá-la? Definitivamente, isso não é verdade.

A ciência disponível conseguiu descobrir o vírus em pouco tempo, está trabalhando forte para identificar os antivirais e as vacinas e conhece as técnicas para tratar os doentes do Covid-19.

O grande problema é a velocidade com que o surto se desenvolve e as consequências sobre o sistema de saúde de cada país. Os epidemiologistas trabalham duro para evitar a súbita explosão de casos que possam exigir mais hospitalizações do que o sistema de saúde possa suportar.

A estratégia que os cientistas e profissionais da saúde estão adotando é impedir um aumento súbito nos casos, buscando reduzir a velocidade de contágio e adequando, assim, os casos graves à capacidade do sistema de saúde. Estão lutando para convencer autoridades públicas a agir e também esforçando-se para vencer a onda de desinformação, maldosa ou ignorante, que insiste em disseminar erros e falsidades.

A cooperação internacional vai ajudar os países a reduzir cada vez mais a velocidade de contágio, como já se vê na China, onde tudo começou. A cooperação nacional, em nosso caso o SUS, as faculdades de ciências da saúde, os profissionais da área, a rede privada de hospitais e clínicas deverá fazer frente aos desafios dessa epidemia.

Se as autoridades públicas forem convencidas da estratégia dos profissionais de saúde e ajudarem a evitar – por meio de ação e liderança – uma disseminação incontrolada dos contágios, o Brasil poderá passar pelo desafio com menos perdas de vida e menos dor.

No caso dos reflexos econômicos desse estrago, a situação também vai precisar da parceria dos governos e do enfrentamento à desinformação.

O paulista Florian Bartunek, diretor da Constelattion, um fundo que administra mais de 12 bilhões de reais, explicou a situação para o jornalista Geraldo Samor do BrazilJournal: “Ainda é cedo para ter certezas, mas a grande diferença dessa crise em relação às outras é que ela tem começo, meio e fim. Em 2008, todo mundo achava que o sistema financeiro mundial poderia quebrar. Os grandes bancos estavam em risco e a questão era vender tudo porque não havia mais o que fazer. Desta vez não: você sabe onde a crise começou, sabe que o meio está um pouco adiante e sabe que em alguns meses o pior terá passado.”

Claro que isso terá efeito sobre o PIB e sobre o emprego. Entretanto nossas dificuldades nessa área não vêm de fora, estão bem aqui dentro. Os Poderes da República precisam buscar harmonia para acertar a agenda e fazer as correções de rumo para que o Brasil comece a crescer. Não há mais espaço para fanfarronice e nem criação de despesas enormes para as quais não há recursos.

O descrédito na atuação governamental é outro pilar da tempestade perfeita. Governos parecem mais preocupados em se manterem no poder do que administrar os problemas do curto prazo. Abusam da propaganda enganosa. Gastam tempo demasiado em assuntos e polêmicas inúteis.

Em 2008, Lula disse que a crise mundial era uma “marolinha” e agora Bolsonaro minimiza a pandemia do coronavírus. Nada disso ajuda.

No Brasil o Estado é demasiado grande e muito central. Isso faz com que todas as soluções, de um modo ou de outro, passem por ele. Nenhum investidor e nenhum empresário poderão tomar decisões sem ter informações confiáveis que lhes deem previsibilidade e segurança a respeito das ações governamentais.

É claro que o mundo vai sair dessa crise. É evidente que o Brasil vai superar esse desafio e será o País que nós formos capazes de construir. Mas bem que poderíamos prestar atenção no que disse o escritor Yuval Noah Harari.

“Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar em especialistas científicos, os cidadãos precisam confiar nas autoridades públicas e os países precisam confiar uns nos outros. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades públicas e na cooperação internacional. Para evitar uma catástrofe, precisamos recuperar a confiança que perdemos. Você não pode derrotar uma epidemia global através de propaganda e isolamento. O verdadeiro antídoto é o conhecimento científico e a cooperação global.”


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