Coluna do Fábio Zambeli

Economia

Economia precipita ambiente de trégua entre governo e Congresso

PIB modesto e sobrevivência política aproximam agenda institucional para aliviar pressão das ruas por resultados

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O Presidente da República Jair Bolsonaro / Crédito: Marcos Corrêa/PR

Governo e Congresso exibem sinais de pragmatismo para debelar a fagulha de tensão institucional que frequentou o noticiário desde o Carnaval e endereçar seus problemas reais: a pauta econômica e a sobrevivência política. 

O esquálido PIB de 2019, recém-apurado pelo IBGE, une parlamentares a Bolsonaro num sentimento solidário: se persistir a dor no bolso dos brasileiros, ambos serão punidos nas urnas. 

O presidente já mostrou que pode jogar a responsabilidade na Câmara e no Senado por eventual lentidão nas reformas, enquanto os congressistas podem culpar a estridência do chefe do Executivo, o que afastaria os investimentos.

O que se depreende, a princípio, é um espasmo dos dois Poderes para demonstrar reação diante das revisões de projeção do crescimento para 2020 e do diagnóstico, cada vez mais disseminado, de “ano perdido” na agenda legislativa.

O apelo comovido de Paulo Guedes para as suas “15 semanas” decisivas, compartilhado com os movimentos de rua que organizam ato para o próximo dia 15 de março, veio um dia antes da revelação do “pibinho” de 1,1%, que o ministro considerou “dentro do esperado”. 

Em prazo relativamente exíguo, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e Rodrigo Maia (DEM-RJ) cooperaram para manter o veto presidencial aos R$ 30 bilhões de emendas do relator, relativizando os danos do Orçamento Impositivo para os gastos discricionários da União. 

Simultaneamente, as duas Casas aceleraram. Em dois dias, avançaram em textos vitais para o equilíbrio fiscal, como a PEC dos Fundos, aprovaram projetos importantes do setor elétrico que estavam travados e até implantaram — com calendário de trabalho e cronograma ambicioso — a aguardada comissão mista da reforma tributária. É uma resposta sintomática. O Legislativo age rápido para confrontar a narrativa de que estaria “chantageando” Bolsonaro, vocalizada por ministros palacianos na véspera do Carnaval.

Mais do que atenuar os eventuais ataques que sofrerão nas manifestações de rua convocadas pelos bolsonaristas, Alcolumbre e Maia, na reta final de seus mandatos, pretendem avisar ao eleitorado que a fatura sobre uma eventual lentidão na retomada da economia, em especial da geração de empregos e da percepção de bem-estar das famílias, deve ser cobrada do outro lado da Praça dos Três Poderes.

O presidente e sua equipe, antes habituados a terceirizar toda a condução da agenda econômica para o “Posto Ipiranga”, passaram a tratar dos números do PIB e da escalada do dólar como “assunto do Planalto”. 

Partiu dos familiares de Bolsonaro o esforço digital para minimizar o resultado modesto do primeiro ano de mandato. Carlos, Eduardo e Flávio Bolsonaro enalteceram em suas redes o crescimento da economia no setor privado, de 2,72%. Exploraram ainda os números da construção civil, mais robustos desde 2013. 

É simbólico que o círculo íntimo do presidente tenha se empenhado em defender os indicadores da economia num momento em que a autoridade de Guedes é questionada, sobretudo em nichos ideológicos governistas.

O primeiro semestre, como prevê o próprio ministro, será decisivo para selar o rumo da equipe econômica para a segunda metade da gestão. Especialmente porque já estarão maduras as primeiras parciais do novo PIB. A despeito do devastador efeito do coronavírus sobre o cenário global, a imunidade de Bolsonaro para apresentar resultados na economia estará colocada à prova precocemente. E as vacinas de sempre podem não surtir o efeito esperado.


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