Coluna do Fábio Zambeli

Economia

Frustração com economia testa Guedes e coloca Congresso sob pressão

Após críticas do Planalto, ministro busca renovar ‘superpoderes’

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Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes / Crédito: Isac Nóbrega/PR

“Em casa que falta PIB, todos brigam e ninguém tem razão”. Trata-se de uma adaptação livre do dito popular que mais traduz o caos soberano em ambientes nos quais as necessidades imediatas não atendidas aviltam as diferenças intramuros. A expressão, comumente usada para descrever lares turbulentos, ajuda, no atual contexto político, a explicar o que se passa no coração econômico do governo de Jair Bolsonaro.

O segundo ano do mandato do presidente começou com ceticismo generalizado, contrastando com a euforia que pautou a ceia do primeiro Natal bolsonarista. Economistas dos principais bancos e fundos revisam para baixo a expectativa de crescimento. O cenário otimista de trajetória consistente de recuperação da atividade econômica virou cinzas antes do Carnaval. Se o mercado vislumbrava a possibilidade de o Brasil crescer 2,5%, hoje há quem duvide que se chegue a 1,5% no final de 2020. E ainda faltam 10 meses para o desejo se converter em realidade. 

As incertezas do cenário externo, de coronavírus a eleições americanas, passando pela crise do petróleo e pelo embate comercial China-EUA, jogaram toda a responsabilidade de tração do nosso PIB para a agenda interna de ajustes. Os indicadores do final de 2019 decepcionaram, elevando a urgência da propalada pauta reformista, que exige esforços dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Além, é claro, do ativismo do setor privado, o que inclui empresas, operadores financeiros e as forças de trabalho e de consumo.

Passados 50 dias, o céu de brigadeiro da virada de ano se transformou numa plêiade de desconfiança. O mercado desconfia da chance das reformas, os assessores mais próximos do presidente desconfiam do Congresso, os congressistas desconfiam do Planalto, os ministros desconfiam do STF, o setor produtivo desconfia dos magistrados, o trabalhador desconfia do establishment político e a mídia desconfia de tudo e de todos. 

O para-raios da instabilidade e vetor da credibilidade, num governo cujo presidente terceiriza o saber econômico, atende pela sugestiva alcunha de Posto Ipiranga. É Paulo Guedes quem avaliza a administração Bolsonaro e nele são depositadas as fichas da retomada.

Se passou pelo batismo de fogo do ano inaugural do mandato com louvor, em especial pela aprovação da Previdência e pelo resultado fiscal acima do esperado, o ministro, um economista e professor de convicções liberais, tem escorregado no ‘sincericídio’ como porta-voz das mensagens-chave do governo. 

Ao ruído dos pronunciamentos soma-se a formação de um núcleo de aconselhamento palaciano que contempla avaliações de performance ministerial bastante singulares, muitas vezes movidas pela temperatura do populismo digital. Nessas redes emergem questionamentos discretos, mas reiterados, à gestão de Guedes na pasta da Economia. É uma massa crítica que carece de respaldo técnico, todavia espalha ondas histriônicas pela Esplanada. 

Atmosfera natural para quem respira Brasília, como Bolsonaro; novidade tóxica para Guedes e sua equipe, majoritariamente egressa da iniciativa privada.

Tal curto-circuito é o pano de fundo da tensão entre o superministro e o QG de Bolsonaro, amplamente noticiada no transcorrer da semana. Ouvindo de vários interlocutores que havia descontentamento no ‘núcleo duro’ com os rumos da economia e com seus equívocos políticos e (quem diria?) de vocabulário, o mercurial Guedes resolveu tirar a limpo o diagnóstico e rediscutir a relação com o chefe. Ao que tudo indica, teve reafirmada a autonomia para seguir com o roteiro prescrito na campanha eleitoral. 

Após lavar a roupa suja em público, o governo despachará em breve os principais textos (administrativa e frações da tributária) para o Congresso e a pressão para a retomada recairá temporariamente sobre os deputados e senadores. Não é coincidência o aumento da beligerância do QG bolsonarista com o Legislativo, vocalizado pelo general Augusto Heleno, conselheiro e tutor da inteligência governamental. 

É pelo confronto que Bolsonaro governa. É diante do conflito que o Parlamento produz. Não se trata de uma escolha, mas de uma tática intuitiva de sobrevivência. Essa equação significa que virá aí um semestre prodigioso nos plenários da Câmara e do Senado? 

A tendência é que haja empenho redobrado de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre para mostrar serviço e entregar ao estimado público, em doses homeopáticas, um conjunto de medidas estruturantes para além das grandes reformas, cuja construção de convergência demanda tempo. 

Ambos sabem que o resgate da confiança, tão imprescindível para reerguer o país após a década perdida, pode ser o legado da fase derradeira de suas gestões, credenciando-os a alçar os voos políticos almejados para 2022. 


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