Coluna do Fábio Zambeli

Diversionismo

Congresso e STF acertam ao minimizar embate com Bolsonaro

Ministros e congressistas se apegam ao protocolo e evitam inflamar apoiadores do presidente na semana das manifestações

contribuinte legal Congresso e STF
Crédito: Alan Santos/PR/Flickr

As até agora brandas reações de líderes do Legislativo e Judiciário às polêmicas declarações de Jair Bolsonaro sobre o imbróglio do orçamento impositivo e a lisura da votação eletrônica têm frustrado quem esperava mais gasolina na tensão política entre os Três Poderes.

Ministros e parlamentares que ocupam postos de comando são figuras acopladas ao protocolo das autoridades públicas, carregando a investidura dos cargos ao pé da letra.

Figurino bem distinto do usado pelo presidente, que, embora no cargo máximo do Executivo, encarna o personagem outsider, que enfrenta e questiona o establishment de forma recorrente para manter acesa a chama que o levou à vitória em 2018. Ele sabe que, se for capturado pelo sistema político, deixa de ser relevante no xadrez eleitoral. Fustigar o Congresso e o STF de tempos em tempos é, portanto, parte da estratégia que o preserva com 35% de aprovação sólida em estratos bem definidos da população. Para isso, Bolsonaro recorre ao vasto acervo de ataques às instituições que vem aprimorando desde que iniciou a carreira política, com 27 anos de atuação no baixo clero parlamentar.

Os inimigos de sempre são: os partidos (ele não faz a menor questão de estar filiado a um), o Foro de São Paulo, o marxismo cultural e as urnas eletrônicas. Quase todos os seus discursos tangenciam esses pilares do “eixo do mal”, que povoam o inconsciente coletivo de seus apoiadores.

Quando o presidente, ignorando a liturgia da função, resolve colocar em xeque o resultado da eleição que o levou ao Planalto, não está meramente afrontando o Tribunal Superior Eleitoral, como analisam os mais afoitos.

Está nutrindo a narrativa que o ajudou a chegar lá e preparando o terreno para medidas que possam confluir para a mobilização de sua massa de sustentação. É confortável para Bolsonaro abraçar uma agenda de mudança no sistema de contabilização de votos num momento de agudização da crise econômica global, com real impacto nas perspectivas de retomada da atividade e do emprego no Brasil. Na pior da hipóteses, caso a ideia não prospere, plantou-se uma semente para questionar eventual (embora hoje improvável) revés em 2022.

Diante da plateia ávida por sangue, quem aceitar o convite para subir ao ringue com o presidente acabará prestando um serviço aos seus aliados, que buscam saídas diversionistas para desviar o foco dos problemas reais do brasileiro médio, inflados pelo cenário externo deteriorado.

Nesse ambiente, são prudentes e tecnicamente corretas as condutas dos integrantes da Judiciário, que preferiram enaltecer a segurança da urna eletrônica em vez de fomentar o Fla-Flu histriônico das teorias conspiratórias, o que só ajudaria a levar mais gente às ruas nas manifestações previstas para domingo.


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