Coluna do Fábio Zambeli

Executivo

Com mudanças, Bolsonaro ajusta ‘máquina’ do Planalto para segunda fase do mandato

Presidente deve optar por disciplina e método na Casa Civil; objetivo é construir portfólio de entregas para 2022

Bolsonaro
Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante reunião com Onyx Lorenzoni, ministro-Chefe da Casa Civil / Crédito: Marcos Corrêa/PR

As mudanças no ministério de Jair Bolsonaro (sem partido) têm como pano de fundo a urgência de um rearranjo de forças para a segunda metade do mandato e indicam uma nova divisão de tarefas internas e externas do primeiro escalão. 

O objetivo do presidente é criar instrumentos de absorção de pressão política e delegação de atribuições na sua equipe, com adoção de um padrão de gestão de demandas mais eficiente na ‘cozinha’ do governo.

Caso seja confirmado na Casa Civil, o general Walter Braga Netto terá a missão de disciplinar os trabalhos das pastas. Papel semelhante de articulação entre civis e militares foi desempenhado por ele à frente da intervenção na segurança do Estado do Rio de Janeiro em 2018.

Era um ofício que não vinha sendo desempenhado por Onyx Lorenzoni, que preferiu o alinhamento ao discurso ideológico do presidente e nunca foi capaz de construir uma estratégia de governança que unificasse a Esplanada no discurso e numa agenda de realizações.

Trata-se de um ativo fundamental para um governante popular, cobrado permanentemente por sua plateia (inclusive a digital) a transformar em medidas concretas as mensagens-chave vitoriosas nas urnas.

Braga Netto, ao contrário de Onyx, é obcecado por indicadores e metodologias, reunindo as credenciais para municiar o presidente com farto instrumental para se defender das críticas e ‘mitar’ nas redes sociais nas diversas áreas de ação governamental.

Se efetivado no cargo, o general será visto pelos colegas como autoridade, com poderes plenos para convocações e deliberações. Sua iminente chegada ao palácio também serviria para criar uma sombra ao hoje todo-poderoso Jorge de Oliveira, da Secretaria-Geral da Presidência.

Bolsonaro tem sido cirúrgico ao delimitar o espaço de quem ganha status de superministro. Foi assim com Sergio Moro (Justiça), com Paulo Guedes (Economia) e agora com Oliveira, que reina absoluto na ‘cozinha’ do Planalto.

O ex-comandante do Estado-Maior do Exército também zela pela reputação de bom gestor de planilhas, métricas de desempenho e monitoramento/acompanhamento de ações em várias frentes. Em suma, o figurino ideal para devolver ao chefe da Casa Civil o status de “organizador geral da República”.

Hoje, exceto na área econômica, cidadela da alta burocracia federal, o diagnóstico geral na Esplanada é de ausência de processos e métodos que consolidem a execução de programas interministeriais, expondo Bolsonaro a sucessivos vexames de crítica e de público — vide os episódios do Enem e das filas no INSS. É nessa seara que Braga Netto agiria, edificando convergências e acelerando o senso de ‘força-tarefa’.

A provável alteração não está descolada da primeira troca do ano no primeiro escalão, levada a cabo na semana passada.

Com a ida de Rogério Marinho para o Ministério do Desenvolvimento Regional, o presidente pretende criar uma pauta de programas federais para as regiões Norte e Nordeste, mas deseja sobretudo nutrir o elo com os parlamentares do chamado “varejo”, sequiosos por emendas, convênios e obras de infraestrutura em suas bases eleitorais.

Marinho será útil na tentativa de reaproximar Bolsonaro de governadores e prefeitos. O novo ministro já atuou, durante a semana, para apaziguar os ânimos com São Paulo. Foi ele quem telefonou para as autoridades locais, em rota de colisão com o governo federal, para oferecer ajuda na crise das chuvas que paralisaram a capital e causaram as mortes de seis pessoas no interior.

Gera desconforto entre palacianos o fato de Bolsonaro ter prometido “menos Brasília e mais Brasil” como lema de campanha e a prática no mandato venha sendo diametralmente oposta, com sucessivos embates com os entes federados.

Braga Netto e Marinho, diga-se, têm um atributo em comum: ambos são hábeis comunicadores e mantêm estreito relacionamento com formadores de opinião em variados ‘fronts’ da sociedade — incluindo a mídia clássica, com quem Bolsonaro trava uma contenda cotidiana.

Embora não ceda ao establishment do Legislativo (personificado pelo centrão), o presidente demonstra alguma flexibilidade ao escolher para funções viscerais no seu projeto de reeleição dois porta-vozes respeitados pelos congressistas, jornalistas e com trânsito na institucionalidade.

Pode parecer pouco, mas, dadas as circunstâncias, essas opções sugerem que Bolsonaro começa a cultivar apreço pela liturgia do posto que ocupa.


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