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Tragédias

Columbine e Suzano: o que os atentados em escolas podem ensinar?

Educação socioemocional está relacionada à redução de comportamentos agressivos e ao aumento de comportamentos pró-sociais

Um ano após o massacre em Parkland, a mensagem que os alunos escolheram passar foi de bondade e amor (kindness and love). Crédito: Twitter Parklandhearts

O massacre de Columbine, que marcou a década de 1990 e uma era de homicídios em massa no ambiente escolar, completa duas décadas. Embora não tenha sido a primeira vez na história que tiros foram disparados em uma escola, a tragédia no Colorado foi a maior em número de mortos até aquele momento.

O evento não tinha precedentes em magnitude. Não havia preparo para lidar com aquela situação. Não existiam protocolos de segurança para conter ações de atiradores em escolas e muito menos a mídia sabia como cobrir a tragédia.

Depois de Columbine, muitos outros massacres se sucederam, não apenas nos Estados Unidos, e o número de vítimas e mortos em atentados similares é assustador.

No seu artigoThe Columbine Legacy” (“O Legado de Columbine”), o sociólogo Ralph Larkin defende que Harris e Klebold, responsáveis pela tragédia de Columbine, influenciaram a geração de assassinos em massa que os seguiu, definindo um modelo de planejamento, execução e até mesmo a estética para esse tipo de crime; a maioria dos massacres em escolas subsequentes foi inspirada ou tentou emular as ações de Columbine.

Não tão distante de nós, está o ataque à Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, ocorrido há um mês, em que dois assassinos tiraram a vida de cinco estudantes e duas funcionárias, suicidando-se em seguida.

Os autores do massacre se inspiraram até mesmo no tipo de armamento e vestimentas utilizados pelos atiradores do Colorado para a execução do atentado.

Dave Cullen, um dos jornalistas responsáveis pela cobertura de Columbine, tornou-se especialista em episódios como esse e pesquisa o tema como membro da Academy of Critical Incident Analysis (ACIA). Para o pesquisador, a abordagem midiática sobre o massacre de Columbine foi parcialmente responsável por estimular casos similares.

Os assassinos ganharam os holofotes e foram o grande destaque da cobertura, que especulou exaustivamente motivos e justificativas para seus comportamentos, e dissecou o planejamento do atentado. A mídia involuntariamente os elevou à categoria de heróis daqueles que se sentem socialmente deslocados ou sofrem bullying.

Em um artigo de 2018, os economistas Michael Jetter e Jay Walker evidenciam que a mídia é responsável por um “efeito contágio” em casos de homicídios em massa, e que a cobertura jornalística de um massacre causa, aproximadamente, três novos ataques da mesma natureza. Para Cullen, o fenômeno está relacionado à atenção que se dá aos assassinos e à criação de mitos em torno dessas figuras, que acabam por influenciar futuros assassinos.

O pesquisador chama esses criminosos de assassinos do espetáculo, e acredita que, sem a mídia, eles não teriam voz.

Após um episódio em 2012, foi criado o movimento “No Notoriety”, que trabalha para que a mídia tenha como foco da cobertura a história das vítimas, não a dos assassinos. A premissa é a de que assassinos em massa são motivados por outros assassinos.

O massacre de Parkland, ocorrido na Flórida em março de 2018, representa uma guinada no protagonismo dos alunos em contar a sua história e reivindicar mudanças, o que provocou uma reviravolta na cobertura midiática do episódio. Diferentemente, a geração que passou pelo episódio de Parkland cresceu com notícias de tiroteios em massa, recebeu treinamento e simulações para aprender a reagir em caso de atiradores na escola.

Essa geração também cresceu acostumada a compartilhar seus pontos de vista nas redes sociais. Portanto,após o massacre, os jovens não aceitaram apenas mensagens de pesar, vazias de propostas para evitar novos episódios. Eles cobravam ações.

Da tragédia de Parkland, surgiu o movimento “Never Again”, que advoga para a aprovação de medidas para que esse tipo de violência não se repita, focadas principalmente no controle de armas nos Estados Unidos.Pela primeira vez, o assassino não ficou mais famoso que suas vítimas.

Há um mês, a Escola Raul Brasil e sua comunidade tentam se reerguer da tragédia que chocou o país. Desde então, foram realizadas atividades de acolhimento aos alunos e funcionários, que incluíram ações de revitalização do espaço da escola, de sua fachada, terapia individual, em grupo e rodas de conversa. No aniversário de um mês da tragédia, o tema da paz foi escolhido para homenagear as vítimas e promover reflexões.

Um ano após o massacre em Parkland, a mensagem que os alunos escolheram passar foi ainda mais ampla: de bondade e amor (kindness and love). Não é por acaso que a comunidade escolar procura tratar de temas relacionados à prevenção da violência e ao clima escolar após uma tragédia, afinal essas questões são universais e determinantes na experiência de muitos adolescentes.

Por que então demoramos tanto — quando não deixamos de lado — para abordar esses assuntos com os alunos? Há algo que possa ser feito para prevenir episódios tão extremos?

O desenvolvimento das habilidades socioemocionais foi a aposta de Scarlett Lewis, mãe de um estudante de 5 anos de idade morto no massacre da escola Sandy Hook, em Connecticut, que vitimou 20 crianças e 8 adultos. Lewis se dedicou à criação de um programa baseado no desenvolvimento de habilidades socioemocionais para alunos, professores e famílias, pois acredita que crianças que se sentem conectadas umas às outras se relacionam de maneira mais sadia, são resilientes e sentem compaixão e empatia pelo próximo, coibindo a possibilidade de machucar ou ferir o outro.

As habilidades socioemocionais envolvem uma série de aptidões que os indivíduos possuem para lidar com suas emoções, gerenciar metas de vida e se relacionar com as outras pessoas.

Entre essas habilidades estão o autoconhecimento, a empatia — capacidade para se colocar no lugar do outro, o espírito colaborativo, a resiliência — capacidade de superar obstáculos bem como adaptar-se a mudanças e situações adversas.

O programa “Choose Love Movement” (“Movimento Escolha o Amor”) de Lewis é apenas um entre tantas iniciativas de aprendizagem socioemocional (em inglês, SEL – Social Emotional Learning) que vêm sendo desenvolvidas em diversas partes do mundo, mas principalmente nos EUA.

O conceito de aprendizagem socioemocional foi formalmente criado em 1994, quando um grupo de pesquisadores com o objetivo de investigar o impacto da aprendizagem socioemocional na educação criou o CASEL, uma organização mundial que promove o aprendizado acadêmico, social e emocional integrado para todas as crianças da pré-escola até o ensino médio. Desde então diversas metodologias vêm sendo testadas, avaliadas e compartilhadas para melhorar a cultura e o clima escolar, assim como o desempenho acadêmico dos alunos, em diferentes etapas de ensino.

Em 2016, o Banco Mundial realizou uma análise do impacto de 45 programas de SEL em escolas ao redor do mundo. O relatório mostrou que a educação socioemocional está frequentemente relacionada à redução de comportamentos agressivos e ao aumento de comportamentos pró-sociais. As iniciativas em SEL são benéficas para o relacionamento entre os colegas e para o clima da sala de aula, melhorando a sensação de confiança entre os jovens, professores e apoio na sala de aula.

O estudo ainda relaciona programas de SEL a menores índices de ansiedade, depressão e comportamentos antissociais, bem como a uma melhor autoimagem dos alunos.

Os programas mostram um impacto maior em alunos que inicialmente apresentavam mais problemas comportamentais e que eram expostos a mais fatores de risco. Cabe ressaltar que quadros de psicopatia e sociopatia dificilmente serão solucionados com esse tipo de intervenção, mas podem ser diagnosticados e identificados em tempo hábil para evitar eventos trágicos como os ocorridos.

Não nos restringindo a episódios extremos como os aqui abordados. Há que se reconhecer que o Brasil é um país com índices alarmantes de violência escolar. Em pesquisa realizada pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) em 2015, com mais de seis mil alunos das capitais brasileiras, 70% dos alunos relataram ter sofrido ou visto algum tipo de violência na escola em que estudam no último ano.

Entre os tipos de violência estão desde agressões verbais (que envolvem ameaças, xingamentos e discriminação) até agressões físicas e homicídios. O bullying e o ciberbullying (feito em redes sociais) caracterizam muitas dessas situações de violência, em que alunos, principalmente adolescentes, intimidam um colega por meio de agressões físicas ou psicológicas, tornando-o alvo de piadas e boatos e excluindo-o de atividades e momentos de convivência.

Como pano de fundo desse cenário está a precariedade da infraestrutura, a falta de espaços de convivência e de expressão, professores sem preparação para lidar com conflitos, a ênfase em medidas repressivas e um ensino ainda precário e deficitário.

Como podemos então tornar o ambiente escolar mais acolhedor e propício para o pleno desenvolvimento de nossos alunos?

Parece estar aí a oportunidade para o desenvolvimento de iniciativas de educação socioemocional. Ainda que sejam poucos e isolados, programas como esses têm mostrado potencial de melhorar as relações entre alunos, professores e também no ambiente familiar.

As escolas e redes de ensino que apostam nessas iniciativas, como a secretaria de educação do Ceará, vêm experimentando uma notável e veloz melhoria do clima escolar. O investimento em programas dessa natureza mostra-se promissor: um estudo recente realizado pela Universidade de Columbia, contemplando seis programas de SEL, mostrou que, para cada dólar investido em educação socioemocional, há um retorno de aproximadamente US$11.

Vale ressaltar que, para que essas ações cheguem ao chão da escola, é preciso, antes de tudo, realizar um diagnóstico profundo da comunidade a qual será oferecida. Uma compreensão dos principais desafios e oportunidades para o trabalho com SEL permitirá traçar um plano de ação para criar ou adaptar alguma intervenção que contemple as singularidades de cada contexto escolar. O desenvolvimento e exercício do protagonismo dos alunos deve ser uma diretriz nos programas, para garantir um maior envolvimento e aceitação da iniciativa, que vise a garantir a perenidade das atividades.

No propósito de combater a violência, os alunos também passam a exercitar o senso crítico e a ampliar a visão sobre quais são os problemas da escola, suas causas e consequências. Dar voz e espaço para que os alunos possam, assim, se expressar e ajudar na solução dos problemas da escola. Falar sobre violência escolar, ainda que requeira formas e cuidados, é extremamente fundamental em nossa sociedade. O silêncio irrompido por tiros é que jamais deve ser parte da rotina escolar.


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