Opinião & Análise

Um amigo que me entregou para a polícia é realmente meu amigo?

A série The Bridge: a lei do estado não perde a força diante das relações pessoais e convicções ideológicas.

Divulgação.

Uma sugestão para as férias de quem tem interesse nos debates sobre o sentido do estado de direito: assistam a série de TV “A Ponte” (Bron/Broen), produção dinamarquesa e sueca, disponível no NOW da Net.

Na segunda temporada, a única que assisti até agora, os investigadores de política, Saga e Martin, lidam com problemas de ecoterrorismo em uma trama bastante complexa que envolve ativistas e ex-ativistas do mundo da ecologia, empresas multinacionais de biotecnologia e uma série de pessoas comuns que se põe a serviço dos infratores em momentos diferentes.

Esse já é um ponto interessantes da série: quem comete os crimes investigados não é essencialmente mau. A série passa longe de qualquer maniqueísmo. Os personagens são pessoas comuns, em relação às quais sentimos empatia em algum nível, mas que acabam seguindo uma trajetória tal, sempre muito compreensível, às vezes movidos por sentimentos nobres, mas que culmina na prática do crime.

De outra parte, os “mocinhos” e as “mocinhas”, os investigadores de polícia, também mostram seu lado infrator. Com o andar da trama, descobrimos que eles também infringiram a lei e de maneira grave em algum momento de suas vidas. No caso de Saga, uma pessoa racional e direta, a maioria de suas infrações nasce de uma imensa dificuldade em cumprir as regras mais básicas de empatia e sociabilidade, o que gera momentos tristes, hilários e angustiantes.

No caso de Martin, seu parceiro de investigação, seus problemas resultam de uma imensa dificuldade em lidar e conter as emoções, especialmente a ira. Mas seja como for, quem investiga e quem é investigado, por assim dizer, padece do mesmo mal e, provavelmente por esta razão, tem interesse um pelo outro. Todos os protagonistas da trama já colocaram seus objetivos e desejos pessoais acima da lei alguma vez em suas vidas.

Talvez seja essa a condição humana por excelência, a condição de infrator e de infratora. Pois no momento em que nos descobrirmos completamente subjugados ou subjugadas pelas regras sociais, quando nos tornarmos, todos e todas, cidadãos e cidadãs exemplares, deixaremos de ser indivíduos e nos tornaremos meros autômatos e autômatas, despidos dos desejos e emoções que nos fazem qusationar os limites do que é permitido e do que é proibido.

Mas de outro lado, há vários momentos da trama em que mulheres entregam seus maridos para a polícia, amigos denunciam crimes de amigos, em um grau de impessoalidade na relação com as leis muito difícil de ser encontrado em uma obra de ficção brasileira. Não que isso ocorra em “A Ponte” sem nenhum conflito, há tensões, hesitações e sofrimento pessoal sempre. Mas o fato é que a lei do estado não perde a força, automaticamente, diante dos imperativos das relações pessoais e das convicções ideológicas de cada um. Sim, todos somos infratores, mas isso não é desculpa para que os crimes não sejam investigados e punidos.

Assim, ao invés de afastar automaticamente a lei em nome do afeto ou da ideologia, os personagens de “A Ponte” decidem quase sempre viver a angústia de serem obrigados a conciliar essas normatividades de natureza diversa. Tais conflitos alimentam vários momentos importantes da trama, sobre os quais não há espaço para tratar aqui. Por exemplo, seria possível continuar amigo de alguém de que te entregou para a polícia? É possivel haver alguma relação, alguma empatia, pelo assassino de seu filho? A inação sistemática em adotar medidas de proteção da natureza justifica o assassinato de ministros de Estado?

Em uma série ou novela brasileira, arrisco o palpite de que a resposta seria quase sempre favorável aos afetos e aos interesses pessoais. Na Suécia e Dinamarca, ao menos pelo que se depreende de “A Ponte”, as possibilidades de uma resposta diferente aumentam muito. Em nossas obras de ficção, por exemplo, familiares são punidos por outros em atos de justiça privada e diante de contextos nos quais o culpado ou culpada se revelam tão maus, mas tão maus, que matar ou torturar essas pessoas se revela um grande favor para a humanidade.

Se tudo isso ocorre também na realidade, não é possíve dizer com base apenas em obras de ficção. Sobre nossas sociedade e sobre as sociedades sueca e dinamarquesa, devem ser consultados também o trabalho de investigação mais sistemática realizado por alguns jornalistas, cientistas sociais e juristas. Não creio que filmes, séries de TV e outras obras de ficção sejam retratos fiéis da realidade.

Mas de qualquer forma, talvez as mudanças promovidas pelos acontecimentos dos ultimos anos, especialmente a prisão de políticos, empresários e outras figuras que julgávamos imunes ao direito, promova mudanças em nossa ficção. Talvez também neste campo, os infratores e infratoras venham a descobrir que seus crimes serão punidos no final, mesmo que eles tenham sido cometidos nas circunstâncias mais compreensíveis e com a melhor das intenções. Além disso, talvez os personagens de ficção passem a colocar no mesmo plano as normas jurídicas e as normas que presidem o campo doa afetos e da família.

A conferir nas próximas temporadas de “A Ponte”. E das histórias do Brasil.


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