Opinião & Análise

Michel Temer

Nada é pra já

Políticos fazem cálculos: quem pode lhes garantir a permanência do poder e a manutenção de recursos, no longo prazo?

Presidente Michel Temer cumprimenta o Presidente da Câmara do Deputados, Rodrigo Maia, durante coquetel com parlamentares da base aliada na residência oficial do Presidente da Câmara dos Deputados. (Brasília - DF 24/10/2016) Foto: Carolina Antunes/PR

Se as manchetes ainda durassem mais que um sopro de vento, na euforia da aprovação da PEC 241, a manchete do momento seria “Governo Temer reconquista a governabilidade”. É uma contradição em termos, pois se não há governabilidade, não há governo — foi o mal hálito da ingovernabilidade o que, afinal, selou a sorte de Dilma Rousseff. Segundo dados do utilíssimo Basômetro, do Estadão, a base governista gira hoje em torno de extraordinários 83%. Para o jornal, “base mais forte que a de Lula”. Com efeito. Superada a crise, voltar a crescer seria questão de tempo.

Não é razoável brigar com dados; o Basômetro não mente. O governo, deveras, marcou seu gol. Mas, o movimento político é sempre dinâmico; como se diz, mais importante que a foto é o filme. E, no longa-metragem da crise, há conflitos, desinteligências, problemas estruturais que não podem ser negligenciados. A prudência recomenda, então, diagnóstico menos apressado, de modo extrair nitidez de perspectiva do processo. A quem for de euforia, é razoável, que segure ainda um pouco o entusiasmo.

Sim, a instabilidade hoje é menor: a atual equipe econômica – também aí o BC, o BNDES e a Petrobrás – parece mais sólida; conta com mais apoio do próprio governo e dos agentes econômicos — a anterior ia desgovernada ladeira abaixo. Todavia, o quadro econômico está longe de razoável e os dias da política ainda são de tensão e incerteza, como se estivesse a riscar um fósforo num paiol de pólvora. O quadro agudo da crise, sim, parece momentaneamente suspenso, mas a doença crônica ainda não foi superada.

Há colapsos estruturais basicamente inalterados: 1) o modelo econômico requer uma reviravolta significativa: ferir suscetibilidades, afetar o status quo e despertar a reação dos inúmeros grupos de interesses afetados não é coisa simples; 2) o presidencialismo de coalizão continua exatamente o mesmo, vivendo do fisiologismo de cargos, emendas e esquemas; o suspiro que teve, se deu mais em virtude da redistribuição do espólio do PT do que de uma adesão programática a agenda do governo; 3) a Operação Lava Jato está aí demonstrando o colapso do ancestral financiamento da política no Brasil; o número de potenciais delatores premiados só faz crescer; e, 4) a ausência de lideranças políticas capazes de – como Didi – colocar a bola sob o braço e reorganizar o time é atroz; salvo exceções mais ou menos fora do jogo, a qualidade dos quadros é, de modo geral, deprimente.

Esta visão panorâmica já parece suficiente para relativizar as manchetes. Mas, olhando de perto, a situação tem mais nós: por exemplo, vários setores do Estado vivem uma espécie de guerra particular, entre si. A disputa é titânica: do Ministério Público ao Executivo; das fissuras internas do Judiciário às questões desse Poder com o Legislativo. Está aí a Operação Métis, como um circunstanciado mini caso – os conflitos internos são ainda mais viscerais e não se resumem a ela.

No front parlamentar, onde se decidirá a batalha pelas reformas, a situação é também complexa: a base, de 83%, não tem unidade; é diversa e fragmentada — possui evidentes problemas de aglutinação.

O primeiro deles é programático: há reformistas sinceros, sim, e até mesmo radicais que pressionam a pauta do governo – são  minoria; há pragmáticos que enxergam antes de tudo as consequências de fazer ou não reformas – o que indica que dependem para começo de conversa da pressão social, das corporações, da mídia e do mercado (também aqui um todo disforme); e, por fim, os fisiológicos que aderem (ou não) mediante ao pagamento previamente combinado de cargos, recursos e iguarias do tipo. Difícil alinhar todas essas correntes.

Essa variedade de concepções já bastaria para relativizar a base supostamente conquistada. As dificuldades também não se resumem a apenas isto: há os problemas de aglutinação vinculados às disputas políticas e eleitorais. Neste momento, o governo não possui um nome capaz de apontar para uma perspectiva de poder continuado, para a continuidade do poder no pós 2018.

Políticos fazem cálculos: quem pode lhes garantir a permanência do poder e a manutenção de recursos, no longo prazo? Com múltiplas opções, na base – Aécio, Serra, Alckmin, Meirelles e até o próprio Temer –, quem tem muitos candidatos não tem candidato algum; a dispersão é inevitável, sobretudo, diante da incapacidade de consenso em torno de apenas um desses nomes. A biruta política dispara, as disputas se acirram e fracionam o governismo em interesses divergentes entre os supostos aliados. A guerra de bastidores causará baixas.

É exatamente neste contexto que já começam a pegar fogo as disputas para definição das mesas diretoras da Câmara e do Senado. O embate não se dará entre governo e oposição – a oposição petista está para lá de combalida –, mas internamente, nas tais bases, no interior dos partidos: o PSDB quer eleger o presidente Câmara, por exemplo; e, dentre os tucanos se discute, se o nome a ser apresentado deve favorecer Aécio Neves ou Geraldo Alckmin. Mas o DEM também almeja e até mesmo a federação de interesses difusos, chamada Centrão, também pleiteia. Ninguém abre mão.

É pouco? É, pois há que se considerar também o que será feito dos segredos de Eduardo Cunha, nas suas noites vazias agora na prisão: o ex-deputado parece ter muitos incentivos para dar com a língua nos dentes e, a depender do destino da família, poucos para calar. E há também a Odebrecht, a OAS e dezenas de delatores soltos por aí. Quer dizer, guardados em Curitiba.

Atingindo a base e membros do governo – mesmo que não seja Michel Temer – já basta para complicar todo o processo. E ainda que todos esses se calem, a mera perspectiva de que tais passarinhos cantem em suas gaiolas já assusta e paralisa o governo e boa parte de sua base. “Isto é ruim para o governo?”, pergunta um repórter. Ora, bom é que não haveria de ser. Incerteza, é claro, afugenta políticos e outros tipos de investidores.

De modo que tudo isto recomenda a necessária prudência: o clima é de turbulência presente e, à vista, há possibilidade de vir a ser ainda maior. É verdade que já há maior consciência dos problemas do que se tinha há 5, 10 anos. É um avanço que o país comece a se preocupar com as perguntas certas. As condições, no entanto, não permitem desde já buscar respostas antes que o problema esteja definitivamente formulado. Muito menos é razoável acreditar em soluções no curto prazo. A euforia carece de ajustes. O Brasil há de sair desta. Mas, como diz a canção, “não se afobe não que nada é pra já”.


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