Opinião & Análise

Seven Seconds: mais do que apenas uma série policial

Que tal falarmos sobre a justiça social? Existe diferença entre vítimas ou todos têm o mesmo direito?

Divulgação

Uma série policial pode despertar no espectador diferentes sensações e sentimentos. Há aquelas que causam certa repulsa pela quantidade de sangue ou ferimentos expostos. Outras simplesmente deixam o público aliviado com seu desfecho justo. Tem série que você vê roendo as unhas de tensão ou de raiva. Há aquelas que revoltam pelo teor de seus crimes e pela vulnerabilidade de suas vítimas. Algumas atrações arriscam e colocam tudo isso no enredo. “Seven Seconds”, atração que estreou na Netflix é deste time. Começa com uma cena de crime repulsiva pela quantidade de sangue. Segue com episódios tensos e alterna a certeza no espectador de que seu desfecho será justo ou nem tanto. Às vezes, parece que tudo vai desandar e se transformar numa matança.

Mais do que apenas uma série policial, “Seven Seconds” é uma atração sobre Justiça, no sentido mais amplo da palavra. Não somente a Justiça dos tribunais, como também aquela das ruas. Quem merece a Justiça? Ela é realmente para todos? E que tal falarmos sobre a justiça social? Existe diferença entre vítimas ou todos têm o mesmo direito? Nunca é demais discutir se o que está no papel é aplicado na prática quando tratamos da Justiça para brancos ou negros, ricos ou pobres, maiorias ou minorias.

Na tela, acompanhamos o atropelamento de Brenton Butler, um garoto negro de 15 anos. O culpado é um policial branco. Ele até cogita se entregar, mas seu chefe e seus colegas de equipe o convencem a deixar para lá e apagar as pistas. A partir deste momento, uma sucessão de fatos leva o espectador a conhecer os diferentes lados desta história. Brenton é filho único de um casal de classe média baixa. Sua mãe não consegue controlar sua dor, sua raiva, e inicia uma busca pelo assassino de seu filho. Seu pai busca na Igreja um alento. Seu tio, militar, acaba de voltar da guerra e tem de lidar com a morte do sobrinho enquanto busca trabalho para se sustentar sem ter de se realistar.

Por outro lado, o policial culpado tenta seguir sua vida, mas tem a consciência pesada por ter matado o garoto. Apesar disso, ele decide manter a farsa para ter tempo e dinheiro – sua equipe recebe propina de traficantes – para cuidar de sua mulher e de seu filho que acaba de nascer. Já seu chefe precisa apagar os rastros do crime que pode ter deixado para trás. Há, inclusive, uma testemunha que precisa ser eliminada ou desacreditada. Aqui, a série debate a corrupção policial e a cadeia do tráfico de drogas que explora comunidades pobres com a promessa do dinheiro fácil que pode tirá-los do bairro e da situação em que se encontram.

Quem pega o caso e começa a investigar os policiais é a assistente da Promotoria Pública, uma advogada negra, alcoólatra que é humilhada por grande parte da força policial em seu dia a dia. Ela é assistida por um detetive que faz tudo o que pode para convencê-la a acreditar no potencial dela e manter-se focada na acusação. Na defesa dos policiais está uma advogada loira que tenta ganhar o respeito dos policiais. As histórias das duas advogadas levantam importantes questões que passam não só pelo racismo como também pelo feminismo. As duas, KJ e Sam, usam profissionalmente nomes que deixam dúvidas se são homens ou mulheres pois acreditam trabalhar ainda num ambiente machista.

Além destes temas, “Seven Seconds” ainda fala de religião, de homossexualidade, de vícios e de família. Mostra que todos nós temos nosso lado forte e nossos pontos fracos. Consegue manter o enredo de uma série policial clássica, porém sem muito maniqueísmo. “Second Seconds” não é genial, mas é muito interessante por ser realista, por fugir dos rótulos, por dar voz a todos os personagens. É uma série dramática sem ser piegas; uma série que fala de racismo sem ser politicamente correta apenas; que trata a Justiça sem ser didática.


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