Opinião & Análise

BNDES

Reflexões sobre patrocínio esportivo no Brasil da crise

Precisamos de um planejamento de longo prazo e uma política de igualdade de gênero

Rio de Janeiro - Equipe brasileira de basquete feminino treina pela primeira vez no Parque dos Atletas para os Jogos Olímpicos Rio 2016 (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Após a escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede para os Jogos Olímpicos Rio 2016, o esporte passou a ter o maior patrocinador de todos os tempos: o governo Federal.

Em 2012, foi anunciado o plano Brasil medalhas, que tinha como objetivo colocar o Brasil entre os 10 primeiros países nos Jogos Olímpicos e entre os cinco primeiros nos Jogos Paralímpicos. Além do financiamento do alto rendimento, advindo pela lei Agnelo Piva desde 2001, o plano Brasil medalhas assegurou R$ 1 bilhão adicional aos esportes olímpicos e paralímpicos na preparação para Rio 2016, recursos advindos do orçamento geral da União (OGU) e de estatais brasileiras.

Depois, em 2013, anunciou-se o repasse de R$ 183 milhões ao desporto olímpico através de convênios da União para as principais entidades do esporte. Essa verba foi destinada aos treinamentos de equipes de base seleções principais no Brasil e no exterior, bem como à estruturação de centros de treinamento e à compra de equipamentos.

Além disso, entre 2013 e 2016, foram investidos outros R$ 45,4 milhões no bolsa pódio, uma categoria que foi criada dentro do bolsa atleta com a finalidade de apoiar atletas com chances de disputar finais e medalhas olímpicas e paraolímpicas.

Os resultados nos quadros de medalhas não vieram. Contudo, observou-se que tais metas acabam desfocando problemas estruturais. Falta investimento de base, nas escolas e planejamento desportivo. E como em outras pastas, a política é de governo, não de estado. Os especialistas são unânimes: precisamos de um planejamento de longo prazo.

Algumas experiências foram muito significativas, como o patrocínio do BNDES à canoagem brasileira. Essa modalidade esportiva, que ainda não contava com um patrocínio significativo, foi escolhida após a identificação de seu potencial olímpico e a grande participação de crianças e jovens. 

Em 2016, a canoagem atingiu a marca histórica de três medalhas olímpicas, com Isaquias Queiroz e Erlon de Souza.  No Rio 2016, foram 13 atletas competindo em alto nível. Em Londres 2012, foram apenas três atletas.

Uma análise do contrato de patrocínio entre o BNDES e a canoagem aponta temas relevantes e pouco explorados em outras concessões de recursos. Há previsão contratual detalhada sobre cessão de direitos de imagem, disponibilização de espaço para montagem de espaços de relacionamento, cláusula de prática leal, de responsabilidade ambiental e de coleta seletiva nas competições.

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Ultrapassado o período olímpico, o esporte olímpico perde importância na agenda nacional e os recursos públicos para o esporte diminuíram significativamente, bem como os patrocínios de estatais para as modalidades olímpicas.

A ausência de resultados expressivos nas modalidades olímpicas não é um fator isolado.  A crise política e financeira, a luta pelo poder dentro das principais entidades desportivas e as consequências da falta de planejamento financeiro e esportivo dentro das entidades que resultam em escândalos, intervenções e desconfiança por parte dos patrocinadores completam a lista. A temida ressaca olímpica parece ter se instalado.

O que não se pode permitir é que o esporte saia de moda no país, que seja tirado da pauta de discussões e investimentos. Rio 2016 passou. Mas Tóquio 2020 está chegando. E não se pode achar que 2 bilhões liberados em 2019, às vésperas, serão suficientes e eficientes.

Políticas de longo prazo são necessárias para que o Brasil continue desenvolvendo sua vocação esportiva e demonstre isso em megaeventos. Nesse sentido, cabe aqui citar um caso de sucesso: o Team GB. O Reino Unido conseguiu a incrível façanha de ser o primeiro país-sede a conquistar mais medalhas na edição seguinte dos Jogos Olímpicos. Em 2012, foram 65 premiações. Já em 2016, 67 premiações. Essa é uma meta a ser batida pelo Time Brasil. Bater as próprias metas, não retroagir no número de medalhas conquistadas.

Além disso, para que o esporte não caia no esquecimento, ou no descaso assim como os estádios da Copa e as arenas olímpicas, precisamos manter o investimento e criar mudanças políticas que monitorem e fiscalizem o uso de recursos públicos de forma mais dinâmica, antes que os desvios cheguem a cifras milionárias. Mas isso não é tudo.

Ficou claro que o modus operandi no repasse de dinheiro público não deu certo, precisa ser aperfeiçoado. Em vez de criarem financiamentos plurianuais, as entidades receberam valores anuais que muitas vezes atrasavam consideravelmente, criando lacunas temporais para treinamento e investimento de alguns meses. Deste modo, cabem algumas críticas quanto a capacidade do governo federal repassar a verba pública para as principais Confederações do país. Isso precisa ser revisto.

Outra temática importante é a distribuição de recursos públicos baseado numa política de igualdade de gênero. Os Estados Unidos foram pioneiros nesse tema em 1972 e desde lá passaram a potencializar suas conquistas olímpicas. Outras delegações fizeram o mesmo como a Canadense e o resultado é muito expressivo. Este é um critério que precisa ser avaliado pelo principal patrocinador brasileiro visando o fim do amadorismo no desporto feminino.

Finalmente, propõe-se a criação de cláusulas de investimento obrigatório de parte dos recursos em governança das entidades, em programas anticorrupção e cultura de ética. Essa seria uma maneira de acelerar a sanitização do esporte brasileiro.


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