Opinião & Análise

Igualdade de gênero

Para inquietar: a importância da leitura da pesquisa do GPEIA

Por que ler o livro ‘Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um currículo oculto?’

Faculdade de Direito da USP foi criada em 1827, com a fundação dos primeiros cursos jurídicos no país – Crédito: USP

A leitura do livro Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um currículo oculto? deveria ser obrigatória a qualquer docente, em especial da área jurídica. Isso porque cumpre integralmente a proposta de seu subtítulo: é impossível lê-lo sem refletir sobre a prática docente, a atuação cotidiana em sala de aula, as relações de gênero que se dão em classe e em outros ambientes universitários.

O livro é um mergulho no cotidiano das salas de aula da tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (FDUSP), buscando identificar “como e de que forma o processo de ensino e aprendizagem na FDUSP é marcado por dinâmicas de gênero[1]”.

Com acertadas escolhas metodológicas – entrevistas e observação participante com inspiração etnográfica –, e um detalhado mapeamento da proporção de homens e mulheres no corpo discente e docente da Faculdade, a equipe do Grupo de Pesquisa e Estudos de Inclusão na Academia (GPEIA) observou, narrou e analisou as dinâmicas de diferentes aulas do curso.

Li a pesquisa com um triplo olhar: de aluna, que ali se formou em 2006, época na qual os coletivos feministas e negros não tinham adentrado as Arcadas e as dinâmicas perversas do machismo e do racismo estrutural sequer estavam em pauta, apesar de fortemente operantes[2]; de professora, que há dez anos leciona na graduação em direito em faculdades particulares e não públicas, entrando em contato cotidianamente com os anseios e as expectativas de alunas e alunos recém chegados do ensino médio; de antropóloga, que investe na potência da etnografia, do “estar lá”,  para identificar dinâmicas e práticas que outros métodos de pesquisa não dão conta de desvelar.

São inúmeras as camadas observadas e analisadas na pesquisa, mas o que chama mais a atenção é justamente  o que denominaram de “currículo oculto”, ou seja, os “(…) conteúdos informais que sistematicamente reproduzem relações de poder e reforçam estereótipos e dinâmicas de gênero socialmente estabelecidas[3]”.

Com exceção de um ou outro comentário ou exemplo sexista de um professor, facilmente identificados por alguém minimamente atento à questão, as pesquisadoras do GPEIA se depararam com dinâmicas mais sutis que exigiram preparo metodológico e teórico para identificar e interpretar, enfrentando a complexidade daquilo que é estruturante, mas não necessariamente escancarado.

Uma maioria de aulas expositivas com pouquíssimo espaço para questões, nas quais não há participação feminina; ausência de menção a questões de gênero em aula, assumindo temáticas e exemplos masculinos como “neutros” e “universais”, são alguns exemplos dessas “sutilezas”.

Ao refletir sobre o fazer etnográfico, o antropólogo Clifford Geertz ressaltou:

“Examinar dragões; não domesticá-los ou abominá-los, nem afogá-los em barris de teoria, é tudo em que consiste a antropologia. Temos procurado, com sucesso nada desprezível, manter o mundo em desequilíbrio, puxando tapetes, virando mesas e soltando rojões. Tranquilizar é tarefa de outros; a nossa é inquietar. (…) apregoamos o anômalo, mascateamos o que é estranho, mercadores que somos do espanto[4].”

Nesse sentido, a pesquisa em pauta cumpre bem o seu papel de “inquietar”. Duvido que qualquer docente a leia sem se questionar como seriam narradas, interpretadas e avaliadas suas aulas se as pesquisadoras responsáveis pelo estudo as observassem.

Mais do que isso, seus resultados “desequilibram” e convidam, para além da reflexão, à ação: não se trata apenas do cuidado de não reproduzir falas e comportamentos que perpetuam a desigualdade de gênero – algo no mínimo esperado de professoras e professores de qualquer nível de ensino em qualquer área.

Trata-se, principalmente, do convite a uma atuação docente positiva que promova a discussão, a reflexão e o enfrentamento das questões de gênero, rompendo com o “currículo oculto”, quebrando estruturas e promovendo práticas antissexistas e antirracistas em sala de aula.

 


[1] S. C. Neder Cerezetti et al, Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um

currículo oculto?, São Paulo, Cátedra UNESCO de Direito à Educação/Universidade de São Paulo (USP),  2019, disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000367420.locale=en, p. 10.

[2] Para um relato aprofundado dessa experiência, ver: ANGOTTI, Bruna; VIEIRA, Regina Stela. Em três tempos: Mulheres e Direito na Universidade. In: Vanessa Dorneles Schinke. (Org.). A violência de gênero nos espaços do Direito – narrativas sobre o ensino e aplicação do direito em uma sociedade machista. 1ed.Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017, v., p. 29-46.

[3] S. C. Neder Cerezetti et al, Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um

currículo oculto?, São Paulo, Cátedra UNESCO de Direito à Educação/Universidade de São Paulo (USP),  2019, disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000367420.locale=en, p. 115.

[4] GEERTZ, Clifford. Nova Luz sobre a Antropologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 65.


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