Opinião & Análise

Compliance

Os clubes desportivos e a integridade deles esperada

Clubes não estão à margem do fenômeno global que importou na necessidade de transparência

Imagem: Pixabay

O Brasil hoje conta com mais de 11 mil clubes. São associações, custeadas pela contribuição individual dos sócios e tocadas por dirigentes não remunerados, que congregam grande parcela da sociedade para a prática de esportes, lazer e atividades socioculturais. Em linhas gerais, é esse o modelo associativo.

Paralelamente, esses clubes tornaram-se os grandes formadores de atletas profissionais do país. Ficaram no século passado as sagas dos atletas que surgiram descalços nas ruas ou em campos precários. Hoje, os resultados exitosos costumam ser fruto de grandes investimentos financeiros. Nesse passo, seja para o futebol, vôlei, basquete, judô, natação ou qualquer outro esporte de ponta, a importância para o fomento esportivo é tão relevante que a Lei Pelé e a Lei de Incentivo ao Esporte estabelecem meios de repasse de verbas públicas diretamente aos clubes, que devem cumprir exigências rígidas de controle e prestação de contas.

Assim, nas associações esportivas, seja pela arrecadação proveniente dos associados, seja pelo recebimento de recursos públicos, é inegável a responsabilidade do gestor no trato dessas receitas, assim como suas obrigações por resultados não só financeiros, mas esportivos. Ao associado, como ao torcedor, não interessa o modelo de gestão da entidade a que está vinculado, mas o atendimento dos seus anseios enquanto participante de um clube.

Não bastasse esse fato, muito se diz sobre a necessidade de profissionalização de gestão de clubes. Na prática, é uma discussão relevante, mas ao mesmo tempo incongruente com os modelos associativos, estabelecidos em estatutos que preveem a gestão por dirigentes não remunerados e um grande número de conselheiros.

Diante desse panorama, a história recente infelizmente dá conta de vários escândalos que envolveram dirigentes esportivos, em diversos países. Não foram casos isolados. Vão desde a apropriação de pequenas benesses ou favores até a lavagem de dinheiro em negociações milionárias.

Assim, a par das exigências de implantação de programas de compliance nas empresas, tal como as diretrizes indicadas na Lei Anticorrupção e como forma de prevenção e proteção das companhias, os clubes também devem estar atentos à criação e implementação de um modelo de gestão probo, com demonstração de seriedade, credibilidade e transparência, a partir de processos éticos de controle, gestão e contratação.

Convictos de que a adoção de um programa de integridade é crucial para um modelo de gestão moderno e voltado aos interesses do coletivo, enquanto dirigentes iniciamos a implantação do compliance no Clube Paineiras do Morumby, um dos grandes formadores de atletas do país. Não se tratou de um programa de prateleira. Desde o processo de estudos iniciais à implantação final do programa foram seis meses. Isto porque deve ser realizada a análise dos estatutos e regimentos, de estrutura organizacional, além de entrevistas com dirigentes e responsáveis financeiros, o que importa na elaboração de sugestões de mudanças nas regras estatutárias e regimentais, além da criação de um comitê de ética e um canal de denuncia, tudo em privilegio da transparência, publicidade e garantia de respeito às boas práticas com a utilização dos recursos do clube.

Se hoje é irreversível a intolerância social de práticas suspeitas ou desonestas, também é certa a necessidade de se adotar mecanismos que atestem a integridade e correção na gestão de clubes. Assim, a criação de um código de conduta, com um comitê de ética, implantação de processos éticos de contratação, envolvimento de gestores e associados, e a divulgação pública desses procedimentos, além de um canal de denúncia, fazem parte de um processo inevitável da profissionalização da gestão de um clube.

A divulgação de resultados faz parte da seriedade e probidade na gestão de recursos coletivos. Por isso, no caso do Paineiras do Morumby, priorizamos a publicidade na prestação de contas e o atendimento rigoroso das regras de contratação em conformidade com o compliance.

Há quem argumente que os custos com a criação, implantação e manutenção de um programa de integridade podem ser relevantes, mas os benefícios certamente justificam sua adoção, porque implicam na transparência da gestão. Por consequência, resultam em incremento da confiança dos envolvidos com a entidade e valorização da marca. Se a reclamação corrente é a falta de profissionalização, a construção de um programa de compliance é condição fundamental para um clube de fato deixar a gestão amadorística para trás e adotar práticas contemporâneas de administração e governança.

Em remate, os clubes no Brasil, fundamentais para a formação e desenvolvimento de atletas, bem como para o lazer e convivência social, não estão à margem do fenômeno global que importou na necessidade de transparência – a necessidade do compliance.


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