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O sonho da Constituição de 88 acabou ou nunca existiu?

A falta de um debate profundo abriu um vácuo agora ocupado por uma mistura de ressentidos, liberais econômicos e avessos à política

Constituição de 1988
Promulgação da Constituição de 1988 - Crédito: Arquivo/Agência Brasil

Ouvi de um grande amigo que a grande tragédia para os brasileiros que defendem uma democracia liberal é sua agenda econômica vir acorrentada a uma pauta de costumes pré-feudal. Pode haver exagero, mas meu amigo não está equivocado. É inegável o desconforto e o incômodo frente aos exageros, para dizer o mínimo.

A provocação me lembrou um artigo do João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo no qual ele confessa seu espanto com a reação de pessoas ilustradas frente a esse assunto. A reação típica, segundo ele, é de ira. Os que defendem uma agenda dita “progressista” parecem acreditar que se os novos personagens forem “insultados com afinco, eles acabarão por desaparecer da paisagem”.

Indiscutivelmente, trata-se de uma forma de arrogância e prepotência em relação a segmentos que elegeram Trump nos EUA, votaram por Brexit no Reino Unido e apoiaram, mesmo que não tenham vencido, Marie Le Pen na França.

Claro que foram esses mesmos os que apoiaram Bolsonaro no Brasil. E ele foi eleito sem dinheiro, sem partido político e sem o apoio dos tradicionais meios de comunicação. Acredito, assim como Coutinho, que eles não estão dispostos a ir embora por conta de insultos. Atendi à sugestão do articulista e li o excelente “National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy” (Pelican Books – Kindle Edition) dos acadêmicos britânicos Robert Eatwell e Matthew Goodwin. Ambos são estudiosos e publicam sobre os movimentos populares de direita e suas manifestações políticas.

O objetivo do livro, repleto de fatos e evidências, é mostrar ser mito (sic) acreditar “que o populismo não passa de um fenômeno conjuntural, que rapidamente será ultrapassado”. Os autores demonstram que “a luta entre a vontade popular e seus representantes, agora identificados como elites distantes e corruptas”, já estava estabelecido na sociedade há décadas. Muitas décadas.

Como a base da democracia liberal é o acordo entre setores sociais e seus representados, essa tensão corrói sua base de sustentação e a massa não mais “autoriza” seus representantes a decidir em seu nome. Estamos vivendo período mais literal, nas palavras de J.P. Coutinho, ou de maior afirmação de desejos primários, como proteção da família, da nacionalidade e da propriedade. Há, principalmente, a negação do espaço para mediações sofisticadas e simbólicas, quase que todas criadas no pós-guerra como o multilateralismo, as agendas novas de costume, que se expressam no “politicamente correto”. Menos ONU e União Europeia e mais “Let’s Make America Great Again” ou, para nós, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Eatwell e Goodwin mostraram que a eleição de Trump e a vitória do Brexit não podem ser simplificadamente atribuídas a um único segmento ou classe social. No caso dos EUA, os grupos que se aliaram para eleger Trump foram os conservadores convictos e os defensores do livre mercado, típicos eleitores do Partido Republicano. Mas somente esses não teriam vencido o pleito. A eles juntaram-se grupos da classe média baixa, interessados em preservar pequenas conquistas, os movimentos anti elites, pedindo mudanças e renovação, e os eleitores desengajados, normalmente distantes da política, mas que entraram na liça somente para votar em Trump e ajudá-lo a fazer a América grande novamente.

Esse quadro não nos soa familiar?

Onde estava essa gente e que fio costurou essa estranha aliança tanto lá como aqui? Não existe ainda resposta definitiva para essa questão, mas existem pistas. E essas estão no recalque do debate ideológico. Na Europa, por exemplo, a luta pela hegemonia nacional entre os países do continente deu origem a duas grandes guerras, com mais de 45 milhões de mortos. A resposta institucional foi a criação da ONU e da própria Comunidade Europeia, hoje contestadas. Para entender a fragilidade das bases, basta lembrar que mesmo antes do armistício da guerra travada pelos aliados contra o nazi-fascismo iniciou-se uma outra luta, de dimensão global, entre os paradigmas da modernidade: o capitalismo de um lado e o socialismo do outro.

A nova guerra realinhou as forças existentes em cada país e inibiu a discussão, o debate e mesmo a punição política dos que cometeram crimes de guerra na defesa do nacionalismo hegemônico representado pelas forças do eixo. Esse debate volta agora, 70 anos depois a exigir respeito pelas culturas nacionais e retorno de um espaço de afirmação de cada nação.

Nos EUA não foi diferente, considerando sua realidade própria. O Brasil também passou por cima de sua história e saiu de 30 anos de ditadura sem revisar o que significa perder a liberdade e quais são as consequências disso.

Fomos em frente e tentamos construir um regime social democrata sob uma base de ideias tão difusas e rasas que as alianças somente poderiam ser construídas para o curto prazo. Alianças que usaram o estado como instrumento para manutenção do poder político. Não havia um grande sonho onde houvesse lugar para muitos.

Criou-se, sim, espaço para uma aliança de ressentidos, defensores do livre mercado e pessoas que, não gostando de política, estariam dispostas a mudar ‘tudo isso daí’. Para que a democracia liberal volte a existir, em outros moldes é claro, será preciso entender profundamente o que houve, validar as hipóteses que estão sendo postas no debate e voltar a criar lideranças que possam reconquistar o respeito das massas populares. Bom lembrar, também, que essas massas têm voz e aprenderam a ignorar intermediários prepotentes como partidos políticos e meios de comunicação social. Será mesmo possível?


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