Opinião & Análise

Interações de gênero no ensino jurídico

O novo normal e os velhos preconceitos

Na área acadêmica, a desigualdade entre homens e mulheres também se agudizou com a pandemia

Fotos: Bruno Concha/Secom

A crise da Covid-19 potencializa o peso diferenciado da carga que recai sobre os ombros femininos. A divisão sexual do trabalho faz com que os efeitos da interrupção das atividades escolares e dos serviços domésticos prestados por terceiros escancarem ainda mais a discriminação.

Muitas mulheres, como esta que aqui escreve, tentam – como o truque circense de finas varetas equilibrando pratos que giram sem parar – harmonizar os esforços do trabalho remoto com os cuidados das filhas e filhos e da casa.

Ainda que seja sobrecarregado, não podemos esquecer que esta é a realidade privilegiada daquelas que tem uma casa estruturada, acesso à internet de qualidade, ausência de restrições socioeconômicas no acesso à bens para suprir as necessidades e, em alguns casos como eu, companheiras e companheiros que compartilham tais afazeres.

Tais prerrogativas atenuam, mas não mudam o impacto desproporcional de que, na realidade da pandemia, as múltiplas jornadas e cargas mentais aumentadas ainda sejam femininas.

O novo normal inflama velhos preconceitos. A crise provocada pelo coronavírus apenas aprofunda as discriminações que nosso antigo normal já evidenciava. Na área acadêmica, a desigualdade entre homens e mulheres também se agudizou com a pandemia.

Diversos alertas têm demonstrado como a crise da Covid-19 afetou produção científica de mulheres. O mais recente deles, publicado recentemente por pesquisadoras da UFRGS, reflete, no Brasil, fenômeno global que órgãos internacionais já haviam diagnosticado: a queda drástica da produção acadêmica das mulheres e mães.

Os dados traduzem a disparidade em todos os níveis de produção que se amplia no cenário das pesquisadoras mais qualificadas (no nível de pós doutoramento) já que apenas 5% das mães revelaram conseguir manter sua produtividade durante a quarentena.

Aqui registro uma nota pessoal. Eu mesma faço parte desta percentagem; escrevo este artigo já de noite, esgotada, após colocarmos duas filhas pequenas na cama. É fato que as ideias que aqui estão vem me acompanhando há dias, desde o honroso convite que recebi do GPEIA-FDUSP – grupo que muito admiro.

Todavia, o silêncio, tempo, e tranquilidade para conseguir escrever e permitir que as meditações maturem não existem mais. É certo que mesmo no velho normal silêncio, tempo, e tranquilidade já não eram recursos abundantes, mas, agora, tornaram-se praticamente inexistentes.

Findo o aparte, volto à reflexão para ressaltar que a pesquisa é parte fundamental da atividade docente; em especial para aquelas e aqueles que – como eu – fazem parte do resiliente sistema público de ensino superior brasileiro.

A pesquisa, ao lado das atividades de ensino e extensão, forma o tripé constituinte das universidades públicas e juntas fazem parte do nosso rol de compromissos. Das três, a pesquisa é a mais solitária das tarefas, pois, em que pese os ricos momentos de discussão, orientação e escrita colaborativa, é na solidão das ideias que a potência das pesquisadoras e pesquisadores se revela.

No Direito, tendo em vista os métodos comumente empregados, pesquisar traduz-se em ler e escrever. Em que pese a importância das pesquisas empíricas e eventuais análises de campo, que felizmente ganham crescente espaço nos nossos programas de pesquisa e pós-graduação, grande parte da produção jurídica se dá no laboratório da leitura e produção de texto.

Assim que, para produzir, são necessários silêncio, tempo, e tranquilidade que, como acima disse, já não existem na vida das mulheres e mães docentes e pesquisadoras na quarentena.

Por isso não é de nada espantoso que, ao combinarmos os efeitos da divisão sexual do trabalho com aqueles advindos do isolamento social, o resultado não seja outro que a queda da produtividade científica das mulheres.

A diminuição na produção científica é inversamente proporcional ao aumento das tarefas domésticas e dos cuidados com filhas e filhos, estes sequer são percebidos socialmente como trabalho. Esta invisibilidade é mais uma vez fruto da divisão sexual das tarefas e produto de nossa sociedade androcêntrica.

Diante deste cenário, nosso papel é justamente de publicar e expor a ferida ainda mais ardida pela pandemia. Precisamos, como fizeram as pesquisadoras da UFRGS e também do GPEIA-USP, capturar os acontecimentos que nos permitam conhecer e refletir a realidade das mulheres nos contextos de risco, sempre tendo em conta sua diversidade e diferentes funções.

Se no novo normal não há silêncio, tempo, e tranquilidade para as produções de fôlego, quando menos lançar luz ao tema é fundamental para que fique o convite à reflexão crítica e propositiva, quando a oportunidade brotar.

Neste aspecto o saldo é positivo, pois, enquanto estava aqui na escrita da calada da noite, recebi três outros artigos em defesa dos direitos das mulheres denunciando sobrecarga, estresse no isolamento e aumento da violência. Escrevo este texto esperando se una a estes debates e seu potencial transformador.

O desafio que fica ao novo normal é de romper com os velhos preconceitos da divisão sexual do trabalho para que possamos reinventar o significado do silêncio, do tempo, e da tranquilidade a fim de que pesquisadoras e professoras possam voltar a produzir. Por certo não haverá produção adequada sobre os direitos das mulheres que não seja por elas construída.