Opinião & Análise

tecnologia

O futuro da democracia depende de algoritmos?

Futuro também depende da educação da população e do estímulo à argumentação

Imagem: Pixabay

No século XXI, é indiscutível o fato da informação significar poder. Desse modo, diante da elevada produção de dados e informações no meio digital, desenvolver técnicas para selecioná-los e transformá-los em saber é fundamental para não se tornar um indivíduo que conhece muito, mas não compreende o que conhece.

Lucien Sfez, professor titular de Ciência Política da Universidade de Paris I, Panthéon-Sorbonne, denomina de tautismo, o fenômeno comunicacional existente no mundo digital. O tautismo1 corresponde à contração da palavra tautologia, relativa à demonstração por meio da repetição das mesmas informações organizadas de forma diferente, com a palavra autismo, concernente à doença do “auto aprisionamento”, ou seja, o indivíduo não necessita expor seu pensamento ao próximo e não possui interesse em se adaptar ao pensamento do próximo.

Este tautismo é a consequência da comunicação não mais comunicar, ou seja, apenas são despejadas informações constantes que possuem o mesmo significado e são demonstradas pelas mesmas informações apresentadas de forma diversa. Apresentar imagem, vídeo e informação, referindo-se ao mesmo conceito, é a demonstração de que algo é correto. Nunca a imagem obteve tanta relevância para transmitir dados e informações.

Os indivíduos despendem horas de seu dia em redes sociais, no YouTube, no computador e no WhatsApp, sem interagir, diretamente, com outros indivíduos, pois o contato ocorre por meio de uma máquina. É fácil obter “amigos” em redes sociais, já que esta “amizade” não necessita de dedicação e tempo, é fácil falar de qualquer maneira no WhatsApp ou bloquear alguém; porém, torna-se cada vez mais difícil interagir com outros indivíduos de forma real.

Nas eleições à Presidência em 2018 no Brasil, notou-se não ser determinante, para garantir a vitória, a participação em debates políticos. A imagem dizia muito mais do que as palavras e a tautologia da comunicação ficou clara. Para finalizar esta transformação ocorrida, o candidato eleito, primeiramente, discursou nas redes sociais e, posteriormente, nos meios de comunicação tradicionais. Estes fatos são indicativos da alteração da comunicação e é preciso atentar aos riscos advindos destas transformações.

O risco principal é decorrente dos filtros da internet que possibilitam administrar a informação que é desejada pelo indivíduo. É possível, na internet, nas redes sociais, nos blogs, selecionar assuntos de interesse, entrar em contato com pessoas que pensam de forma semelhante, assistir a vídeos que sejam repletos de imagens e que forneçam informações que permitam sustentar o seu posicionamento etc.

Um indivíduo, em um mundo virtual de filtros, não possui contato com o que é diferente. Torna-se realidade, nesta comunicação tautista, o que lhe gera satisfação por sempre corresponder ao que se pensa. Não há aleatoriedade, pois o diferente é excluído pela filtragem. As consequências são diversas: intolerância, discursos de ódio, fake news etc.

Nas publicações científicas (monografias e artigos científico), é possível verificar o impacto destas transformações, pois, cada vez mais, torna-se difícil encontrar legítimos textos argumentativos2, em que se defenda uma ideia, apresentem-se contra-argumentos, empreguem-se dados e fatos para fortalecer os argumentos e forneçam-se garantias para que se faça a conexão entre a ideia e os dados revelados.

Neste sentido, verificam-se trabalhos menos científicos, com textos que somente explicam e pouco argumentam, em que recursos visuais de gráficos e esquemas demonstram a ideia de forma tautológica. Assim, nota-se que os impactos desta comunicação tautista são sentidos, inclusive, no ambiente acadêmico, que é, por natureza, uma esfera de debate e que necessita de oposição para sustentar o posicionamento defendido.

Assim, a democracia possuirá muitos desafios nos próximos anos para conseguir sobreviver em um mundo em que nunca se falou tanto de comunicação, mas ao mesmo tempo, em que a comunicação é tão rara entre os indivíduos.

Fala-se muito que a democracia não será impactada por discursos antidemocráticos, pois as instituições a preservarão. O problema é: se a ausência de comunicação é algo crescente e se as instituições são integradas por indivíduos que se inserem nesta sociedade de informação, como não sofrerão as consequências deste tautismo?

Muito se tem discutido acerca da serendipidade como meio para enfrentar o risco da personalização do conteúdo da internet. O termo serendipidade (serendipity) é um anglicismo que significa a arte de descobrir novas coisas por meio do contato com informações inesperadas.

Esta palavra de origem inglesa, é um neologismo apresentado pela primeira vez3 por Horace Walpole em 1754, em um romance intitulado The Three Princes of Serendip (As Três Princesas da Serendipidade). Trata-se de um conto em que se narra as viagens de três princesas que sempre estão descobrindo coisas novas por meio de acidentes. Esta palavra tornou-se popular a partir de 2000 ao ser eleita a palavra favorita no Reino Unido4 e está permeando o nosso vocabulário a ponto de termos a sua referência em português.

Está sendo debatida a necessidade de se criar, artificialmente, serendipidade na internet para proteger a democracia e evitar os riscos advindos dos filtros que permitem administrar o conteúdo da internet sobre o qual o indivíduo possui interesse. Desse modo, é preciso elaborar designs informáticos que permitam a exposição dos indivíduos à serendipidade, criando-se um ambiente de diversidade.

É possível ver alguns projetos que visam a criar uma serendipidade artificial, por meio de desenvolvimento de algoritmos que permitam uma maior interatividade entre indivíduos com opiniões diversas. Além disso, é relevante destacar 3 exemplos de plug-ins já desenvolvidos e relacionados à ideia de serendipidade5 (os dois primeiros favoráveis e o terceiro contrário):

a) Liberal Balancer: desenvolve um histórico em que se identifica quais são os jornais que um usuário da internet lê e por quanto tempo, permitindo-se balancear o comportamento de leitura deste usuário;

b) Flipfeed: criado pelo MIT Lab para o Twitter, permitindo o contato com um feed de um usuário, randomicamente escolhido, que possui perspectivas ideológicas diversas; e

c) Social Fixer: direcionado à mídia social, fornece mais controle interativo aos usuários em relação aos filtros da internet e busca excluir a serendipidade.

Embora aparente ser uma excelente opção, criar extensões para buscadores e redes sociais que garantam a serendipidade de forma artificial, não protegerá a democracia, pois a comunicação não deixará de ser tautológica e autista, já que os indivíduos estão se isolando cada vez mais e buscando mais informação e menos saber.

O desenvolvimento artificial de serendipidade sempre dependerá de outros indivíduos e, portanto, surge a pergunta: qual será o padrão utilizado para realizar a serendipidade na internet? Qual é a perspectiva do indivíduo que cria um algoritmo visando a este fim? Quais serão as hipóteses levantadas para randomizar as informações?

A serendipidade artificial poderá corrigir algumas situações em que a diversidade é excluída, mas poderá gerar outros problemas colaterais, já que a intervenção é tópica, não se enfrenta a raiz do problema: a falta de comunicação.

A única forma de enfrentarmos o tautismo é construindo o saber, sendo que o processo de transformação de informação em saber depende de um saber prévio para avaliar as informações apresentadas e construir um conhecimento sólido. Assim, para se ter um saber prévio, é necessário investir em educação, para que os indivíduos façam os filtros do que desejam saber de forma responsável sem perder o contato com o diverso.

A argumentação deve ser estimulada nas escolas, já que, para se defender uma ideia, é necessário enfrentar os contra-argumentos, forçando os alunos a buscarem compreender posicionamentos diversos aos defendidos por eles. Esta é uma serendipidade real e contínua, que permitirá a sobrevivência da democracia.

Neste sentido, pode-se constatar que o Poder Judiciário possuirá a importante missão de enfrentar questões jurídicas decorrentes do tautismo nas comunicações sociais, pois a problemática referente a fake news e ao processo eleitoral apenas se agravará ao decorrer dos anos, já que filtros da internet mais desenvolvidos afastarão, cada vez mais, os eleitores de fontes responsáveis, priorizando-se afinidades ideológicas nem sempre compromissadas com a verdade. Além disso, questões relativas a discursos de ódio publicados, por exemplo, em blogs e nas redes sociais serão crescentes, uma vez que pessoas com posicionamentos semelhantes conseguiram se organizar na internet com maior facilidade, sentindo-se fortes para manifestar, conjuntamente, posicionamentos violentos contra outros grupos sociais.

Desse modo, a decisão do Supremo Tribunal Federal, publicada em 28 de março de 2019, concernente ao sacrifício de animais em rituais de religiões de matriz africana é uma conquista neste ambiente de tautismo, já que a pluralidade cultural foi reconhecida e buscou-se, nos termos do Min. Edson Fachin6, corrigir a injustiça histórica existente no País contra as religiões de matriz africana.

Ressalta-se que os votos dos Ministros do STF são argumentativos, apresentando-se a argumentação do Ministério Público do Rio Grande do Sul e contra argumentando para defender o posicionamento favorável à constitucionalidade da lei gaúcha que autorizava o sacrifício de animais em rituais e liturgias de religiões de matriz africanas.

Em suma, o futuro da democracia não depende de algoritmos, mas de educação da população e do estímulo à argumentação. A argumentação é exposta por meio do discurso, que é muito mais do que falar ou explicar. Para ser possível evitar retrocessos, o Poder Judiciário possui importância notável para defender as instituições democráticas do País.

Finalmente, considerando que os atributos de um ser humano livre não se restringem ao ato da fala, verifica-se que o sentido de discurso, presente na obra Política de Aristóteles, deve ser recobrado, ou seja, o indivíduo livre discursa em espaço público e debate com todas as outras pessoas.

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1 SFEZ, Lucien. Informação, saber e comunicação. In Informare: Cad. Prog. Pós-Grad. Ci. Inf., Rio de Janeiro, v. 2, n.1, p. 5-13, jan./jun/ 1996. Disponível em: < http://www.brapci.inf.br/_repositorio/2011/06/pdf_0ea6abe0e8_0017444.pdf>. Acesso em: 03 de abril de 2019.

2 OLIVEIRA, Cristina Godoy Bernardo de. A Fórmula da Argumentação: o argumento de autoridade. Ribeirão Preto: Codex Data, 2019. Disponível em: < https://www.monografiaperfeita.com.br/a-formula-da-argumentacao-o-argumento-de-autoridade/>. Acesso em: 03 de abril de 2019.

3 REVIGLIO, Urbano. Serendipity as an emerging design principle of the infosphere: challenges and opportunities. In Ethics and Information, pp. 1-16, jan. 2019. Disponível em: < https://link.springer.com/article/10.1007/s10676-018-9496-y#citeas>. Acesso em 03 de abril de 2019.

4 RUBIN, V. L., Burkell, J. – QUAN-HAASE, A. Facets of serendipity in everyday chance encounters: A grounded theory approach to blog analysis. In Information Research, vol. 16, n. 3, 2011. Disponível em: < http://informationr.net/ir/16-3/paper488.html>. Acesso em: 03 de abril de 2019.

5Liberal Balancer. Disponível em: <http://www.balancestudy.org/balancer/balancer_content.php>. Acesso em: 03 de abril de 2019. Social Fixer. Disponível em: <https://socialfixer.com/>. Acesso em: 03 de abril de 2019. Flipfeed. Diponível em: < https://www.media.mit.edu/projects/flipfeed/overview/>. Acesso em: 03 de abril de 2019.

6 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF declara constitucionalidade de lei gaúcha que permite sacrifício de animais em rituais religiosos, 28 de março de 2019. Disponível em: < http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=407159 >. Acesso em 01 de abril de 2019.


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