Opinião & Análise

STF

Macunaíma de quatro?

Interpretar toda a obra de Mario de Andrade a partir de sua orientação sexual resulta em distorções

Crédito Nelson Jr./SCO/STF

Mário de Andrade nunca revelou sua homossexualidade para o público, disso só soubemos por recente publicação de carta destinada ao amigo Manuel Bandeira em tom evidentemente confidencial. No último mês, a discussão suscitada pelo julgamento do STF a respeito das biografias, do direito à privacidade e à liberdade de expressão nos levou a pensar sobre o privado que interessa ao público.

Verdade e mentira é o duplo jurídico de excelência. Biografias podem ser mentirosas ou verdadeiras do ponto de vista da lei, mas não literariamente. A verdade não importa na literatura. E a sexualidade do autor também não. Mário de Andrade não tem uma biografia publicada, mas tem uma biografia escrita. Há notícias de que a homossexualidade do autor seria a razão da negativa da família em autorizar a publicação de sua história.

O STF resolveu esse problema ao decidir que as biografias não precisam de autorização prévia para serem publicadas. O biógrafo que tem a história do autor na gaveta não precisa mais da autorização da família para trazer o texto a público. Nesse momento, seria inclusive muito bom que a biografia de Mário de Andrade fosse publicada já que a história de vida possibilita o melhor estudo de uma obra. Mas há de se ter cuidado ao se determinar a relevância da orientação sexual do autor no todo de sua obra.

Orientação sexual revelada, e sendo Mário de Andrade o homenageado do ano pelo aniversário de setenta e cinco anos de sua morte, abriu­-se aos críticos literários a possibilidade de releitura de sua obra a partir das lentes de sua homossexualidade. Interpretar toda a obra de um autor a partir de sua orientação sexual resulta em distorções de obras fictícias.

Por exemplo, mal tiramos Mário de Andrade do armário e Macunaíma ficou de quatro. “Macunaíma de quatro” foi titulo de artigo publicado em um especial da revista Serafina/Folha de São Paulo atribuído com o pretexto de que o texto era dividido em quatro partes. Mas para o bom leitor não se passa despercebida a piadinha homofóbica mal disfarçada.

Macunaíma é o personagem título da obra mais famosa do autor, um nosso queridinho que nasce indiozinho negro sempre engajado em peripécias sexuais por ele chamadas de brincadeiras e encarnado em brilhante atuação de Grande Otelo, vai para as telas e se imortaliza em nossas memórias da pornochanchada. É um símbolo do movimento modernista brasileiro que teve origem na semana de arte moderna de 1922 e desencadeou uma espécie de antropofagia: nossa arte e literatura devorando o classicismo europeu.

Como advertiu Marcelo Coelho, “se Mário de Andrade estivesse vivendo um drama tremendo a esse respeito (sua homossexualidade), ele teria escrito outro tipo de livros, e teria tido outra vida.” Não que a vida de um escritor deva ser ignorada, mas há de se saber distinguir a intenção do autor na criação da obra. Macunaíma não é uma obra repleta de sexo porque Mário de Andrade foi gay.

O poeta é um fingidor, ele pode escolher fingir a dor alheia ou a dor que vive. Em cada obra um autor pode se propor tanto uma escrita subjetiva de um eu subjetivo ou um sujeito distante de sua realidade. Um tempo e um espaço por ele existido e presenciado ou um tempo e espaço alheios a sua vivência. Difícil maestria essa, mas também quantos não são os lugares imaginários presentes nas obras de todas as culturas. O leitor sensível sabe fazer a distinção, e sabe quando se debruçar sobre uma obra publicada hoje como lesse Shakespeare ou Camões, cujas vidas privadas muito pouco se sabe.

A comparação do autor com um ator é direta. Esse ora escolhe um papel porque se identifica, ora se coloca em segundo plano para encarnar outra existência, validando seu sucesso de acordo com o convencimento ao público de que aquela atuação nada tem de biográfica ou repetida. Essas são deveras as mais aclamadas atuações.

Em sua obra, Mário de Andrade criou um personagem fictício que tivesse cara e alma de Brasil em uma lenda que espelhasse uma caricatura brasileira envolvendo, e por que não, o comportamento sexual. Essa era a proposta por ele abraçada, documentada e discutida em um movimento que ajudou a criar. Para aqueles que ainda não realizaram essa verdade, voltamos à comparação com atuações emocionantes de atores e atrizes que convencem se passando por personagens do sexo que não têm. Todo escritor é um fingidor, e os bons fingem muito bem.


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