Opinião & Análise

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Juízes imparciais: no futebol e na Lava Jato

Pessoas que pertencem a uma classe dominante pensam que as regras não se aplicam a elas

O árbitro Baldomero Toledo consulta o árbitro assistente de vídeo durante uma partida da Major League Soccer entre o Seattle Sounders FC e o Sporting Kansas City no CenturyLink Field. Wikimedia commons

O futebol, assim como o basquete, o vôlei e diversos outros esportes, vivem crises sobre a imparcialidade e os erros dos juízes. As pessoas que deveriam garantir que o jogo seja justo são constantemente acusadas de favorecer um lado, de errar apenas em favor de um certo time. Disso nasceu a geração VAR. A possibilidade de revisões em vídeo das marcações mais controversas dos árbitros. Nos EUA, a NBA publica na internet uma lista de todas as marcações erradas dos árbitros de basquete nos últimos dois minutos de jogo.

No entanto, pesquisas mostram que, apesar de todos os recursos tecnológicos, os fãs dos esportes consideram os árbitros piores do que nunca. Mesmo que não haja qualquer evidência de que eles estejam cometendo mais erros que antes.

No Brasil, essa questão chegou ao Direito. Juristas, professores e pessoas comuns acusam os juízes da Lava Jato e, especialmente, o ex-juiz Sérgio Moro, de serem parciais. De serem os piores juízes do país. E acusam o Ministério Público de conduzir caças às bruxas e perseguições. Ainda que todas essas decisões tenham sido revisadas por dezenas de outros juízes, desembargadores e ministros. Não importa. Eles são parciais.

É curioso que se afirme e se repita isso com tanta certeza. Ainda mais curioso é que uma pesquisa no Google mostra que essas acusações vêm de todos os espectros políticos. Desde que esses juízes e procuradores estejam processando e condenando as pessoas que eu não gostaria que fossem processadas ou condenadas, eles são parciais. Eles têm que ser parciais.

Nos Estados Unidos, o professor Dacher Keltner, da Universidade de Berkeley, vem conduzindo uma série de pesquisas para encontrar as raízes desse comportamento de menosprezo às regras sociais e aos juízes e árbitros, às pessoas que têm a missão de fazer com que o jogo seja justo.

Sua resposta até agora parece perfeitamente aplicável ao Brasil: pessoas que pertencem a uma classe dominante pensam que as regras não se aplicam a elas. Keltner fez uma pesquisa extremamente simples com violações a regras de trânsito. 0% das pessoas que dirigiam carros populares deixaram de parar em uma esquina que ele monitorou. 45% das pessoas que dirigiam carros de luxo deixaram de parar no mesmo local. Pessoas poderosas não gostam de regras objetivas. Porque objetividade lhes tira poder. Então, é mais fácil inverter a equação. Acusar o juiz, em vez de cumprir as regras. Eu não estou errado. É o mundo que está contra mim.

Não é que imparcialidade (judicial e esportiva) não seja um problema. Ela é. Mas ela não pode ser apenas uma questão de opinião, de disse-me-disse, de pensar que um juiz é imparcial somente se ele absolve quem eu gosto e condena quem eu não gosto. Pergunte-se apenas uma coisa: se o ex-juiz Sérgio Moro tivesse absolvido o ex-presidente Lula em todos os processos, ele seria imparcial?

Se a sua resposta, instantaneamente, for sim, ou for não, então você precisa repensar o seu conceito de imparcialidade. Porque imparcialidade não é fazer o que você quer. Se a sua resposta, seja qual for, é baseada apenas em ouvir dizer, sem que você tenha feito uma efetiva análise do que consta dos processos, então você precisa repensar o seu conceito de imparcialidade.

Se não for assim, vira briga de torcida. Todo mundo vai para a beira do campo gritar “juiz ladrão”. A Lava Jato parece estar a ponto de inaugurar um “clube dos perseguidos”. Todos os que foram acusados se dizem perseguidos. Se dizem vítimas. E propalam esse discurso de perseguição, às vezes repetido por seus advogados ou por analistas que não conhecem o processo, mas também não se furtam de comentá-lo.

Mas se tanta gente repete que essas pessoas não são imparciais, isso não seria verdade? Em uma palavra, não. Primeiro, há muita gente interessada em dizer isso, em benefício próprio. Segundo, entra em cena o viés de confirmação. Vários psicólogos, entre eles o ganhador do Nobel, Daniel Kahneman, já o estudaram. Se você tem uma preconcepção sobre algo (Moro decidiu alguma coisa de que eu não gostei) e alguém lhe diz algo que confirma a sua preconcepção (ele é parcial), você terá uma tendência a ignorar tudo o mais (por exemplo, o fato de que sua imparcialidade foi questionada dezenas de vezes e confirmada por todos os tribunais) e vai confirmar a sua crença original. É assim que o nosso cérebro opera e que faz com que você admire quando vê alguém no estádio com uma faixa “eu já sabia”.

Não se engane: sua preconcepção sobre a vitória do seu time o faz prestar atenção naquela faixa. Mas muita gente volta pra casa com faixas “eu já sabia” enroladas debaixo do braço.

Atacar a autoridade dos juízes, sem evidências concretas, é algo muito problemático, em termos sistêmicos. Enfraquecer as autoridades significa que elas ficam suscetíveis a chantagens, intimidações ou a serem simplesmente ignorados. Como diz o jornalista Michael Lewis, um dia você acorda em um mundo que não é apenas mais ou menos justo, mas em um mundo que é incapaz de se tornar justo. Porque as pessoas que se beneficiam da injustiça têm o poder de preservá-la. E as elites vão continuar pensando que são especiais.

Seja imparcial. Desde que não seja contra mim”. Essa não pode ser, de maneira alguma, a conclusão para esse problema. Se for, não haverá VAR capaz de nos salvar.


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