Opinião & Análise

Tragédia

Incêndio na Catedral de Notre-Dame e o abalo de três gerações históricas

Igreja suportou duas guerras mundiais na era Moderna, e hoje serve de cenário para mais de 1 milhão de turistas

Coroação do Imperador Napoleão I em Notre-Dame de Paris, 2 de dezembro de 1804. Pintura: Jacques-Louis David. Quadro está no Louvre. Wikimedia commons

Um dos mais importantes filósofos do século dezenove, Georg Hegel, ficou conhecido por nominar os ciclos da história. O ato de periodizar nunca foi desprovido de neutralidade, a exemplo do que fez o historiógrafo inglês, William Robertson, um século antes, ao se referir à idade medieval como `tempos sombrios´(dark ages). Assim fez para contrapor-se ao Iluminismo e seu novo tempo racional de vasta produção cultural.

Outro especialista em Idade Média, Jacques Le Goff, advertiu que a imagem positiva ou negativa de um período está sujeita à alteração no tempo, conforme aconteceu justamente com a revalorização da era medieval, a partir da publicação da obra: “O Corcunda de Notre-Dame”, escrito em 1831. Nela Victor Hugo descreve personagens de diversas classes sociais, que se cruzavam dentro e ao redor da catedral, no ano de 1482.

A época retratada neste romance é a do Renascimento, período em que Jules Michelet nominou de ´retorno à vida´. Foi nesse tempo que Cristóvão Colombo, dez anos após, iria descobrir a América, com destaque para três eventos: início da mundialização; vitória do povo contra as monarquias absolutistas; ascensão do homem como protagonista da mudança.

A Idade Média produziu algumas obras-primas, sobretudo na pintura decorativa dos pergaminhos (iluminura), nos afrescos franciscanos de Assis ou da igreja de Santa Croce, em Florença, pintados pelo artista Giotto, ao final do século XIII. Segundo o historiador Le Goff, só não houve maiores conquistas da arquitetura religiosa porque as crises financeiras, os efeitos da peste e das guerras acabaram por secar as fontes de financiamentos das catedrais (muitas delas inacabadas).

Na era medieval também se verificou uma extensão do latim clássico como língua dos clérigos e a célebre revolução gótica do século XII: igrejas composta de altas colunas, muitas aberturas externas de luz e arcos quebrados capazes de sustentar o peso dos telhados em substituição às paredes maciças, pilares grossos e arcos redondos das igrejas românicas e seus interiores sombrios.

A Catedral de Notre-Dame, iniciada em 1163, é emblemática do estilo gótico, assim chamado, de forma pejorativa, pelos enciumados pensadores da Renascença italiana. Gótico é, pois, uma referência preconceituosa às igrejas católicas construídas na (Baixa) Idade Média, tendo a palavra o (injusto) sentido de algo bárbaro e tosco.

A tradição teocêntrica (Deus no centro do universo) somente foi rompida, em definitivo, com o Iluminismo do século dezoito. O período Renascentista que o antecedeu fez a integração da quadra medieval aos novos elementos humanistas, da beleza, da anatomia, das artes, e do retorno (desta vez) mais intenso do pensamento grego antigo. Pode-se dizer que a chegada da Idade Moderna foi marcada pela Revolução Francesa (1789), cujos tumultos sacudiram a Catedral em comento.

Antes disso, contudo, verificou-se o esgotamento da Escolástica; método que entre os séculos IX e XVI prevaleceu nas universidades europeias, com destaque para a Summa Theologica, de São Tomás de Aquino (1225 – 1274). Bem antes deste frade do Reino da Sicília tivemos outro expoente da (Alta) Idade Média: Santo Agostinho (354 – 430), bispo de uma província romana da África. Ambos ensinaram com afinco, conciliando fé cristã e pensamento racional grego. Agostinho mais imbricado em Platão; Tomás de Aquino em Aristóteles.

Tudo indica que a palavra “bruxa” surgiu na mencionada Summa Theologica, em que Aquino referia-se à mulher que fazia pacto com o diabo. Logo, a expressão “caça às bruxas” foi, em certa medida, um movimento misógino de perseguição às heréticas, iniciado no século XIII durante a Santa Inquisição da Igreja. Contudo, o seu apogeu ocorreu na Renascença do século XV. O manual de repressão mais famoso foi publicado em 1486, “Martelo das bruxas”. Neles os alemães dominicanos, Kraemer e Sprenger, compilaram fundamentos de perseguição religiosa. Beneficiados pela recente invenção das prensas de tipos móveis de Gutenberg, este livro teve dezenas de edições.

Alguns anos antes, em 1431, a jovem líder da Guerra dos Cem Anos (célebre conflito entre França e Inglaterra) foi vítima dessa perversidade. Joana d´Arc tinha apenas 19 anos quando foi queimada em praça pública. Somente séculos mais tarde é que a igreja percebeu a injusta condenação, convertendo-a em santa padroeira da França e, por decisão de Napoleão, declarada símbolo nacional

Bonaparte foi coroado imperador, em 1804, mesmo ano em que outorgou o Código Civil francês, ainda em vigor. Joana foi beatificada em 1909. Ambas as cerimônias ocorreram na Catedral de Notre-Dame, onde, há duas semanas, pudemos ver o brado das chamas retornar com fúria. Desta vez não só para incendiar a flecha (maior torre da catedral), mas, como visto neste ensaio, para abalar um dos mais importantes monumentos da Idade Média. Mais que isto. Trata-se de uma igreja histórica que suportou duas guerras mundiais na era Moderna, e hoje serve de cenário para mais de 1 milhão de turistas tirarem suas selfies, mensalmente.

O abalo deste persistente símbolo intergeracional é sensível, sobretudo em tempos pós-modernos marcados pelo pastiche, fragmentos e ocaso das grandes narrativas. Oremos! Mas, neste momento, do lado de fora da Catedral.


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito