Opinião & Análise

Política

E o presidente eleva o tom: o radicalismo não é trapalhada, ele tem método

Bolsonaro olha as pesquisas e se esforça para se manter fiel à agenda ultraconservadora

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O presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) / Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Nas últimas semanas parece que Bolsonaro elevou o tom do bolsonarismo. Não faltaram exemplos quase que diários de declarações autoritárias e pouco republicanas divulgadas pela imprensa nacional e internacional. Em poucos dias, Bolsonaro exonerou o diretor do INPE pela divulgação de dados de desmatamento, criticou a ANVISA, ameaçou fechar a ANCINE impondo censura, reforçou sua homenagem ao torturador Carlos Brilhante Ustra, debochou e mentiu sobre a morte do pai do presidente da OAB provocada pela ditadura militar, mentiu sobre a jornalista Miriam Leitão, entre outros descalabros. Na esteira dessas declarações, multiplicam-se episódios autoritários pelo país de pessoas que se veem autorizadas e legitimadas, ainda que simbolicamente, pelas frases autoritárias e agressivas do presidente.

Os exemplos são inúmeros e reproduzo alguns aqui: sem nenhuma explicação, militares filmaram palestra de um cientista na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC. A palestra era sobre as ações do governo Bolsonaro na área de ciência e tecnologia; uma reunião realizada por movimentos sociais e professores em Manaus que planejavam atos contra o governo foi invadida por policiais rodoviários, que sentaram à mesa portando metralhadoras e iniciaram um interrogatório. Segundo os agentes, a ordem teria vindo do Exército brasileiro, que negou. A reunião tratava dos preparos para as manifestações contra Bolsonaro durante sua visita à cidade; o ministro da Justiça baixou uma portaria que autoriza a deportação sumária de pessoas “perigosas para a segurança do Brasil” violando a presunção de inocência para estrangeiros; um deputado federal do PSL protocolou junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) um pedido de prisão temporária contra o jornalista Glenn Greenwald, do The Intercept e responsável pela divulgação de matérias que têm trazido prejuízo reputacional a membros do governo. Sem qualquer justificativa e amparo legais, o presidente da República fez uma ameaça velada ao insinuar que o jornalista poderia ser preso; policiais militares prenderam e algemaram um torcedor que assistia a um jogo na Arena Corinthians porque, segundo relato deles, o mesmo estava “gritando palavras contra o nosso presidente Jair Messias Bolsonaro”; e finalmente, para arrematar a lista, o presidente tem se esforçado por emplacar um dos filhos para a função de embaixador nos EUA, mesmo sem que ele tenha qualquer qualidade técnica comprovada para a função.

Todas as situações acima são ataques frontais ao estado de direito, à democracia e ao pacto civilizatório, não há dúvidas sobre isso. E tem método, embora não pareça. A prova é que as declarações têm sido feitas mesmo após a divulgação de pesquisas sobre a popularidade presidencial que mostram quedas sistemáticas desde que o governo foi eleito, e seguem ocorrendo todos os dias. Bolsonaro se defende dizendo que é pura autenticidade, que é a prova de que não é um político como os outros, que é o outsider da política. Não, não é.

Não se pode esquecer da trajetória de Bolsonaro como legislador. Em 28 anos de Congresso e antes de filiar ao PSL para disputar as eleições, Bolsonaro esteve no PTB, PPB e PP, partidos tradicionalmente conhecidos por dominarem a arte da política. Embora sua produção legislativa não tenha tido destaque, resumindo-se na aprovação de dois projetos de lei para as Forças Armadas, não é justo considerá-lo um outsider da política. Os fatos têm demonstrado que ele está longe disso. Na prática, Bolsonaro tem se revelado um verdadeiro fenômeno que além de conquistar mandatos consecutivos se manter ininterruptamente no Congresso por três décadas, ainda emplacou três filhos na política que atuam como senador, deputado federal e vereador, que participam ativamente da vida política atual. Esses fatos demonstram de forma inequívoca que o presidente, assim como os políticos profissionais, calcula os custos de suas ações, mede os incentivos e age como o mais puro cálculo racional na hora de fazer a política, mesmo que jure sobre a Bíblia que não, o que por sua vez, também faz parte do cálculo político.

Experiente, Bolsonaro olha as pesquisas e se esforça para se manter fiel à agenda ultraconservadora e que responde aos tais 30% estimados nas pesquisas de opinião e que topam qualquer ação e sandice que saia do governo. Não à toa que ele busca apoio em partidos cujo programa esteja alinhado com elementos da ultradireita, oferecendo-lhes cargos nos ministérios e vantagens fiscais, e em regiões nas quais obteve expressiva votação, desprezando teoricamente eleitores nordestinos, uma vez que na prática faz o contrário, ao visitar várias vezes essas regiões. Esse comportamento indica, portanto, que vai se agarrar cada vez mais ao núcleo do bolsonarismo raiz.

Mas o presidente parece dar pouca importância para algo fundamental, que são os elementos institucionais e que estão em nossa Constituição, isto é, o presidencialismo, federalismo, bicameralismo, multipartidarismo e representação proporcional no regime de lista aberta. Apesar de ter a caneta Bic do orçamento, ele continua dependente do “voto convergente de sua coalizão multipartidária para aprovar a sua pauta legislativa”, como bem lembrou Sergio Abranches. Em razão disso, pode não ter efeito positivo de longo prazo a retórica utilizada de uma radicalização contra “a velha política”, isso não será suficiente para assegurar a sua governabilidade em um prazo maior.

Há quem imaginasse que Bolsonaro estaria eternamente condenado à irrelevância política nos seus 28 anos de Casa, e eu fui uma dessas pessoas. Mas da irrelevância, criou-se o ambiente perfeito para vendê-lo como o outsider inconformado e justiceiro contra o sistema. O “bolsonarismo raiz” parece que vai seguir, agarrando-se cada vez mais na ideologia de extrema-direita e nas mentiras compartilhadas através das redes sociais. A grande questão é saber se esse comportamento supostamente autêntico que ele se esmera em manter, será suficiente para a sua reeleição e para assegurar a hegemonia política. Tem método, mas também tem risco.


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