Opinião & Análise

Justiça em série

Do lado de lá da cortina de veludo vermelha

Continuação de Twin Peaks traz muitos personagens, ótimos atores e versão má do agente Cooper

A continuação de Twin Peaks não é para novatos. Ou pode ser, não sei ao certo. Impossível saber como um espectador que não viu o início de tudo, lá nos anos 1990, recebe uma série tão incomum. Sou fã do universo criado por David Lynch e Mark Frost. Arrisco dizer que, mesmo tendo passado antes por Charlie’s Angels (As Panteras), Chips e Moonlighting (A Gata e o Rato), Twin Peaks foi a atração que me viciou no gênero.

Provavelmente foi por causa de Laura Palmer – talvez também por causa de Dylan e Brenda (de Barrados no Baile), sejamos sinceros – que me tornei uma jornalista especializada em séries de TV. Escrevo isso para deixar claro que este texto não é nada imparcial. Este é um relato de fã. Uma crítica que já começa favorável, mesmo antes de terminado os créditos iniciais do primeiro episódio. Uma crítica que, sim, levará em conta os exageros na viagem dos roteiristas ao escancarar a viagem do agente do FBI Dale Cooper, que está de volta com Kyle MacLachlan, do lado de lá da cortina vermelha. Eis, senhoras e senhores, a terceira temporada de Twin Peaks, 25 anos depois…

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Há 25 anos, Twin Peaks começava com o mistério da morte da jovem Laura Palmer (Sheryl Lee) numa pacata cidadezinha nas montanhas. Para investigar o caso, envolto em mistérios, um agente do FBI é chamado. Dale Cooper é um tipo nada convencional. Todo engomadinho, ele tem algumas manias, entre elas, o hábito de contar seu dia-a-dia para sua assistente Diane, por meio de um gravador. O espectador acompanha o agente Cooper em sua busca pelo assassino de Laura Palmer e conhece mais de perto as esquisitices dos moradores de Twin Peaks. Só mais para o fim da primeira temporada, os aspectos sobrenaturais da série começam a aparecer mais nitidamente e os símbolos de David Lynch, enfim, se sobrepõem à linearidade da história de um assassinato.

Os espíritos, a floresta, o anão, o homem de um braço só, a própria Laura Palmer lá do outro lado da cortina vermelha já dão a dimensão de que não há explicação lógica para o assassinato da história. A revelação do criminoso desagradou muita gente e, a partir daí, a série que era um fenômeno, acabou se transformando num problema para os executivos da ABC, que viram a audiência cair e tiveram de cancelar a atração em sua segunda temporada. O desfecho, feito às pressas, não deixava dúvidas do assassino apresentado ainda na primeira temporada, um espírito encarnado no próprio pai da moça morta. A única incerteza do público pairava sobre o destino do agente Dale Cooper, afinal, Bob – o espírito do mal – precisava habitar um novo corpo e o agente parecia o hospedeiro perfeito. Mas seria possível que esse espírito conseguisse atingir o herói da série? Que espécie de fim é esse em que o mal vence o bem de forma tão abusiva?

Bem, para deleite ou não dos fãs, Bob conseguiu mesmo dominar o corpo e a mente do agente Cooper. E esta nova temporada, feita 25 anos mais tarde, começa justamente mostrando a transformação deste hospedeiro do lado de cá da cortina vermelha. A normalidade, no entanto, dura pouco. Os quatro primeiros episódios desta terceira temporada – de um total de 18 capítulos –, mostram mais o lado de lá da cortina vermelha, com os símbolos e as viagens espirituais de Lynch e Frost, do que o que se passa no mundo que conhecemos e reconhecemos. Por esse motivo, não é fácil vencer os quatro primeiros episódios, principalmente se o espectador não for um fã da série. Mas vale a pena insistir, pois é praticamente impossível não entrar na história da volta do agente Cooper, em uma versão má e outra versão doente. Outro detalhe que reforça essa história é a lista de bons atores. Alguns deles, já vimos na tela grande, em filmes emblemáticos de David Lynch.

Naomi Watts e Robert Forster, de Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive); Laura Dern, de Veludo Azul (Blue Velvet), Balthazar Getty, de A Estrada Perdida (Lost Highway). E não somente os atores destes filmes voltam. Alguns símbolos, cenas e discussões lembram, de alguma forma, os enredos destes filmes. Além dos atores que já trabalharam com Lynch, alguns outros grandes nomes participam da nova empreitada como Jim Belushi, Amanda Seyfried, Ashley Judd, Michael Cera, Tom Sizemore, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh e Monica Bellucci, entre outros. Apesar de as participações especiais serem assim incríveis, o mais bacana para os fãs é ver os personagens antigos com seus respectivos intérpretes de volta. David Duchovny, por exemplo, como chefe transgênero do FBI Denise Bryson é um deleite.

Estão de volta ainda, a mulher do tronco Margaret (Catherine E. Coulson), a mimada Audrey Horne (Sherilyn Fenn), o agente especial Albert (Miguel Ferrer), a secretária Lucy (Kimmy Robertson), Leland Palmer (Ray Wise) e até mesmo David Lynch, o diretor Gordon Cole do FBI. Até mesmo o cantor David Bowie voltaria a Twin Peaks, mas, infelizmente, ele morreu antes de gravar as suas cenas. Lynch, porém, coloca à mesa os mistérios que envolviam seu personagem, o agente Phillip Jeffries, que desapareceu em uma missão em Buenos Aires, Argentina.

Sobre o enredo, olhando racionalmente, sem a tietagem de quem considera Twin Peaks uma das dez melhores séries de todos os tempos, esta continuação, apesar de interessante, é bem confusa. Os seis primeiros capítulos apresentam tantos personagens que fica difícil acompanhar. São muitos personagens, muitas histórias paralelas que custam a se cruzar e, o pior de tudo: há muita violência e cenas bem nojentas que chegam a causar náuseas. Como não há o apelo do “quem matou”, apesar de ter algumas mortes bizarras e misteriosas no início, é mais difícil ser fisgada pela nova temporada. É impossível, porém, resistir. Como não ver essa luta maniqueísta entre os Dale Cooper? Ou perder a risada de Bob, o espírito, no espelho? Fora a trilha sonora novamente sensacional e as citações a um universo todo particular criado por David Lynch.

A Netflix disponibiliza novos episódios da continuação de Twin Peaks toda segunda-feira.


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