Opinião & Análise

Harvard Law School

Direito, lattes e síndrome de Elle Woods

Período de estudo em Harvard não deveria servir de embelezamento de currículo. Mas se for para ser, ao menos que seja verdadeiro

Harvard
Harvard Law School / Crédito: Wikimedia Commons

Reza a lenda que, depois de uma confusão envolvendo a gravação do filme Love Story, em 1970, ficaram proibidas as filmagens no campus da Harvard University. Desde então, todo filme que se passa na universidade – sim, inclusive Legalmente Loira – tem sido gravado em outros sets de filmagem.

E quem diria que a mais recente ficção envolvendo Harvard teria como set o estado do Rio de Janeiro? Aqui, no lugar da fictícia Elle Woods, temos o verdadeiríssimo governador no papel – esse sim fictício – de estudante da Harvard Law School (HLS).

A história já é conhecida: o governador ingressou no doutorado em ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2015. No seu currículo da plataforma Lattes, indicou um certo período sanduíche em Harvard. Só que nem a UFF, nem Harvard, nem o renomado professor Mark Tushnet – identificado como suposto orientador da pesquisa na HLS – tem qualquer registro disso. Questionado, Witzel afirmou que a informação não era falsa: ele tinha se programado para ir a Harvard, mas a eleição como governador o obrigou a alterar seus planos.

Não cabe aqui duvidar do governador. Não se espera de um juiz federal e político eleito que cometa o grave equívoco de indicar uma informação falsa em seu currículo. Menos ainda uma informação cuja falsidade é tão facilmente revelada. Mas o caso convida algumas considerações.

Primeiro, não se chega a Harvard de supetão. Para ingressar em qualquer que seja o curso ou programa da instituição, os interessados em geral devem se preparar com meses de antecedência, desde a realização do exame de proficiência em inglês (TOEFL) – que muitos fazem diversas vezes até obter a nota necessária – até a organização de documentação exigida a efetiva candidatura.1

No caso de um doutorado-sanduíche, posso dizer por experiência própria e de colegas que são recomendáveis ao menos seis meses de preparo prévio para uma inscrição bem-sucedida. Ao menos um ano se o pesquisador pretender ser bolsista de alguma instituição de fomento ao ensino.

Segundo, a Harvard Law School divulga os resultados de sua seleção de pesquisadores visitantes duas vezes por ano: em maio e em outubro, com início dos estudos no semestre seguinte (setembro e fevereiro, respectivamente). A atualização do currículo do governador aconteceu em 8 de abril 2016 – dois anos antes da candidatura que, segundo o governador, alterou sua “programação”. Se naquele dia o governador tivesse recebido o aceite da universidade (o que já seria curioso pela extrema antecedência), então ele teria começado sua pesquisa na instituição, no máximo, em setembro de 2016. Não parece ter sido o caso.

Terceiro, é verdade que Harvard é uma instituição absolutamente fantástica.

Da imensa rede de bibliotecas, passando pela estrutura de apoio e promoção dos alunos, até o charme da cidade de Cambridge, quem tem o privilégio de ser aluna ou pesquisadora por lá dificilmente sai com outra sensação senão de estar maravilhada (e, claro, cansada, se fez bem o que foi lá para fazer). Mas é preciso superar essa Síndrome de Elle Woods – o fetichismo de querer estudar em Harvard pelos piores motivos (para a legalmente loira, reconquistar seu namorado; para muitos, dar um “up” no currículo).

Estar em Harvard é, sim, uma confirmação de sucesso em um processo seletivo concorridíssimo. E também não há quem desmereça o período (efetivamente cursado) na universidade. Mas, a ausência de Harvard no currículo não reduz as conquistas de um pesquisador. O que nos define – se algo – é a nossa produção, a qualidade de nossa atuação e, claro, nosso compromisso com a verdade e com a ética acadêmica. E quando isso falta, não há Harvard – fictícia ou real – que nos redima.

—————————–

1 Para ser mais preciso, o programa de Visiting Researcher/Scholar de Harvard exige: (1) aprovação no TOEFL com nota mínima de 100 pontos (de um máximo de 120), (2) aceite prévio de um professor sponsor da própria HLS, (3) duas a cinco cartas de recomendação de professores e profissionais que conheçam o candidato, (4) uma proposta de pesquisa em inglês, (5) uma carta de apresentação do candidato em inglês, (6) toda sorte de diploma e histórico escolar. Como comentou o amigo João Renda Leal, também visiting researcher em Harvard, “a missa é longa”.


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito