Opinião & Análise

Finanças Pessoais

Como fazer um orçamento de verdade

Anotar o que você gastou é maravilhoso, mas insuficiente – você está olhando para o passado

Final do mês chegando. Você olha para sua conta bancária e finalmente vê um saldo positivo. Depois de certa dose de sacrifício (não comprar aquela roupa da coleção de verão que todo mundo está usando, pular aquele happy hour que todos os seus amigos foram, esforço extra no trabalho para turbinar as horas faturadas), vem um misto de orgulho e felicidade. Pensa em que vai gastar seu rico dinheirinho… Até que… a vida acontece.

Sim, ela sempre vai pegar você desprevenido. Ou ela vai lembrar de coisas que você sabe que existem, mas esqueceu…

IPVA.

Óleo do carro.

A geladeira que quebrou (para quem vive de miojo, pense no fogão ou microondas).

Companheiros de república furaram a parede e encontraram um cano.

Presentes de aniversário (de maneira muito estranha, as pessoas que queremos presentear fazem aniversário na mesma data!).

Datas especiais (não é saudável esquecer aniversários de namoro/casamento, amigas, amigos, irmãos e pais).

Parcelas intermináveis de compras antigas de coisas que você nem lembra que tem.

A lista é enorme, mas acho que vocês entenderam – já que a vida sempre acontece (ufa!), vamos nos preparar para ela?

O orçamento e o controle dos gastos são ferramentas ideais para isso, ainda mais para nossos colegas guerreiros com renda incerta.

“Mas eu não tenho orçamento. O que eu posso fazer?” Começar um! Seja papel, Excel, GuiaBolso, somente comece. Já falamos disso no artigo anterior (dá uma conferida e depois volta para cá)!

“Mas eu tenho um orçamento e ele me dizia que ia sobrar uma grana para a viagem que eu já comprei! E agora?”. É… complicado. A grana vai ter de sair de algum lugar para você não ter de entrar no rotativo do cartão ou cheque especial. Mais importante – o que fazer para isso não acontecer mais? Eis a questão que queremos responder hoje!

Vamos lá?

1) Alinhe seu orçamento aos seus valores.

Peço desculpas pela repetição, mas este ponto afeta diretamente a efetividade do seu orçamento. Eu tenho um motivo e ele é importante.

Como já falamos, fazer um orçamento não é a coisa mais legal do mundo. É realmente jogar luz em um lugar que preferimos manter obscuro dentro de nós. Para você dar conta de tornar isso um hábito, criar um processo e entrar em “velocidade de cruzeiro”, você precisa de um motivo. Forte. Daqueles que faz você encarar coisas que não gosta muito.

Sabendo claramente seus motivos para fazer esse exercício (como qualquer outra coisa que envolva mudança de comportamento), fica mais fácil mudar o modelo mental.

Quer fazer uma viagem? “Fazer este orçamento e controlar meus gastos é um caminho para eu ir viajar”.

Quer um curso? “Este orçamento vai me ajudar a fazer aquela pós que eu tanto quero”.

E assim vai. Sabendo que seu orçamento está intimamente ligado às coisas que lhe importam, o modelo mental muda e o orçamento vira uma ferramenta para um objetivo.

2) Olhe para o futuro e não só para o passado

Já que o orçamento é mais uma ferramenta para viabilizar objetivos, ele também deve olhar para frente. Logo, anotar o que você gastou é maravilhoso, mas insuficiente – você está olhando para o passado.

O primeiro passo nesta direção é estabelecer limites para seus gastos. Assim, você estabelece objetivos a serem cumpridos e que podem ser controlados para as categorias que você criou em seu orçamento. Sem isso, anotar os gastos que você fez não tem efeito porque não há base de comparação.

As categorias do seu orçamento não são tão importantes. Para os que não conseguem conviver com controles minuciosos, que seja um limite global de gastos; para os colegas apaixonados pelas miudezas de suas finanças, categorias e subcategorias também funcionam. Independentemente do método, o que importa é ter dados que lhe permitam confrontar a realidade com a projeção e tirar conclusões (para os que gostaram deste conceito, podem pesquisar sobre os métodos de melhoria contínua famosos na indústria japonesa – “Ciclo PDCA” e “Kaizen”).

Bora projetar os gastos, anotar os que você fez, olhar o resultado e repetir?

3) Considere os gastos eventuais e os imprevistos

Como falamos inicialmente, a vida acontece e acho que todos já sofreram financeiramente por algum destes casos. Como se proteger do imponderável? Uma expressão para você.

Banco “Eu Mesmo”. Conhece? Todo mundo a chama de “reserva de emergência”. Mas Banco Eu Mesmo é mais… bobo. Você vai se lembrar por ser besta, mas o objetivo será cumprido!

Para os gastos que não acontecem todo mês, mas que sabemos que vão acontecer (IPVA, IPTU, aniversários, manutenção normal de carro), um dos métodos mais usados é calcular quanto no ano se gasta, dividir o valor por doze e guardar aquele valor mensalmente no Banco Eu Mesmo para pagar estas coisas à vista. Além de tudo, você ainda aproveita aquele desconto esperto.

Para os imprevistos, o mesmo raciocínio – em vez de ter de tirar dinheiro da orelha ou arranjar um segundo emprego (ainda melhor que cheque especial / rotativo de cartão), vai recorrer ao Banco Eu Mesmo e não pagar juros!

O Banco Eu Mesmo (ou seja, um pouco de disciplina) não cobra tarifa nem juros, e ainda vai te poupar uma boa grana com os descontos!

Legal, não? Quem não gosta de um resultado assim?

4) Pague o “você do futuro”

Independentemente do seu objetivo para o futuro, é provável que algum aspecto dele custe dinheiro para ser realizado. E é para isso que você quer economizar. A diferença entre o que você ganha e o que gasta é o que será destinado aos seus planos futuros. “Ganhar mais do que gastar” é o corolário básico, mas a motivação vem do bom uso das sobras.

E, para que o “você do futuro” ame o “você do presente”, insira uma linha em seu orçamento para seus investimentos. Desta forma, seu modelo mental de “se sobrar, eu guardo” se altera para ter uma conta a pagar ao “você do futuro”. Acredite, ele te agradecerá. Este é um tema que demanda um artigo exclusivo, então vou parar por aqui.

Com estes passos, seu orçamento vai dar um reflexo mais preciso da realidade e uma projeção para o futuro. Ele é uma ferramenta importante para ajudá-lo a determinar o caminho percorrido na jornada da vida. Como a vida acontece e o destino é algo em mutação – e essa é a graça – altera-se o plano e segue-se em frente.

Não queremos que o orçamento (como qualquer plano) nos acorrente, mas somente que a escolha de mudar o caminho da jornada esteja um pouco mais em nosso controle e que a falta de planejamento não nos force a tomar caminhos que não queremos!

Que acha? Vamos aplicar estas dicas em seu orçamento? Quero saber os resultados!


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