Opinião & Análise

Redes sociais

Campanha #FachinSim e as estratégias de disputa em uma nova arena

Pela primeira vez, as redes sociais foram usadas de forma organizada em apoio a um nome indicado ao Supremo

Crédito : pixabay

Enquanto grande parte do meio jurídico acompanhava na terça (12/05) a exaustiva sabatina do indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), o advogado Luiz Edson Fachin, outra espécie de teste se dava nos bastidores do processo: a disputa por um espaço alternativo, na internet, de defesa do seu nome. Em um movimento inédito, os apoiadores do advogado criaram a campanha #FachinSim que ganhou terreno utilizando diversas redes sociais como Twitter, Facebook, Youtube etc.

É fato que a indicação de um ministro ao Supremo há tempos vira matéria nos grandes jornais de circulação nacional e tem seus minutos garantidos nos noticiários de televisão, isso sem falar na própria transmissão da TV Senado. A novidade do caso é que careceu de auxílio extra (o uso das redes sociais) o tradicional acordo de cavalheiros que há décadas garante – sem ameaças significativas – a aprovação pelo Senado do jurista indicado pela Presidência da República ao STF.

Nunca os esforços para a nomeação de um Ministro do Supremo recorreram a uma estratégia que englobasse um conjunto de plataformas como Twitter, Facebook, Youtube, Flirck e Medium. Pela primeira vez as redes sociais foram usadas de forma organizada em apoio a um nome indicado ao Supremo. Estava criada a campanha #FachinSim, na qual os defensores do advogado angariavam depoimentos de juristas, representantes da sociedade civil e vídeos do próprio Luiz Fachin fazendo esclarecimentos sobre seu currículo e seus posicionamentos. No material havia, em especial, o pedido para que o público favorável à nomeação do indicado enviasse mensagens aos Senadores deixando claro seu apoio. Assim, a campanha #FachinSim dava uma forma organizada, com conteúdo próprio, a um movimento de apoio ao advogado que antes chegou a se articular, de maneira mais difusa, com hashtag #VaiFachin. O objetivo da campanha era se antagonizar ao #FachinNão que havia tomado conta da rede espalhando criticas ao advogado. Estava posta a disputa. Dois times na dividida de bola pelo jogo da toga.

Relatado o fato, nos cabe analisar alguns pontos que mostram a importância do fenômeno. A primeira questão é perceber que a relevância do uso das redes sociais pelos defensores de Fachin vai além do ineditismo em si. O caso desenha um curioso movimento já que, fora da estratégia de lobby feita nos corredores do Congresso Nacional, o corrente seria a defesa pública de um nome ao Supremo ocupar um espaço mais tradicional na mídia: notinhas em colunas, artigos de opinião, editorial etc. Contudo, a utilização da internet acontece em resposta às críticas surgidas nessa nova arena com o movimento #FachinNão. Vale ressaltar, por exemplo, os vídeos com depoimentos do pastor Silas Malafaia fazendo duras críticas ao advogado pelo que considera a defesa de valores “contra a família” e pedindo ao seu público para “bombardear” os senadores com mensagens contra Fachin. Se os ataques aconteciam nessa nova arena, era necessário que o revide também se estabelecesse nela.

Porém, há outras matizes a serem vistas, já que na mídia tradicional havia pouco espaço para que o apoiadores de Fachin pudessem se contrapor ao discurso de setores de oposição ao Governo que o pintavam como um nome “vermelho”, excessivamente progressista, contra os valores da família e da propriedade e vinculado diretamente ao PT. Além disso, o espaço que lhes cabia manejar nessa “velha” mídia não possibilitava a produção direta da mensagem e seu potencial engajamento. Assim, os defensores de Fachin precisam mostrar sua versão e, vejam só, a escolha valeu-se de um repertório inovador, estranho ao lobby e à mídia tradicional exatamente porque estes repertórios já não lhes serviam de suporte. Era preciso utilizar-se de um espaço próprio, produzir um discurso sem a edição de terceiros e gerar engajamento. Nesse sentido, as ferramentas de interação características das redes sociais ajudavam na mobilização da campanha #FachinSim. Por outro lado, a própria campanha na rede gerou um fato novo para a cobertura jornalística, realimentando o processo. Dessa forma, o movimento em prol de Luiz Fachin na internet conseguiu um gatilho para ir além da web. Enfim, um repertório típico dos movimentos sociais pulava o muro institucional.

Vale lembrar que do outro lado, cerca de um mês antes, tomou conta das redes sociais a campanha #DevolveGilmar pressionando o ministro Gilmar Mendes a devolver a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4650, proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para por fim ao financiamento eleitoral por empresas. Com o julgamento suspenso há cerca de 400 dias pelo pedido de vistas de Gilmar Mendes, a campanha #DevolveGilmar talvez tenha sido uma das primeiras artilharias digitais no campo jurídico que ocorreu de forma mais organizada. Agora, os apoiadores de Luiz Fachin utilizaram-se das mesma armas em sentido oposto.

Outro dado a ser apontado é a profissionalização da campanha pró-Fachin. Distante de um suposto amadorismo, Luiz Fachin contou com a empresa Medialogue monitorando as menções de seu nome nas redes sociais e de um design da agencia Pepper na criação de seu site. Coordenando o processo estava o assessor de imprensa Samuel Figueiredo, da F7 Comunicação. Foi este aparato profissional que conseguiu, por exemplo, mitigar às menções negativas ao seu nome na rede e fora dela,  preparando o terreno para um discurso mais moderado que surtiu efeito na sabatina do dia 12 de maio.

Não foi por acaso que alguns senadores, durante a sabatina, mencionaram as manifestações vindas das redes sociais. Aliás, na ocasião, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) começou seu questionamento afirmando que tinha colhido várias perguntas de seguidores em redes sociais, que seriam dirigidas a Fachin, chegando até a ler o nome dos internautas que escreveram. Assim, reafirma-se: o velho lobby das conversas de gabinete não foi suficiente para assegurar o pacto que garantia – sem muitos sobressaltos – a aprovação pelo Senado do nome indicado ao Supremo pela Presidência da República. Nem o lobby e nem o uso de notinhas em colunas conseguiram dar conta de uma disputa que se propagou em outra arena.

Da mobilização, entre apoiadores e críticos do nome do novo ministro, também se depreende o que muitos dos membros dos Sistema de Justiça teimam em negar: sim, há política na Justiça. Indiretamente, a utilização de mecanismos que, via “pressão popular”, defendem esse ou aquele perfil de magistrado na composição de uma Corte Superior – ainda que no momento inicial do seu escrutínio via Legislativo – mostra que de alguma maneira o Poder Judiciário não está descolado de um campo político.

A campanha #FachinSim também indica o fenômeno em curso de uma maior interdependência entre o Sistema de Justiça e a mídia. Cada vez mais o jogo em disputa pelos espaços políticos e jurídicos ganha uma arena pública ampliada. O Judiciário é um ator novo nesse processo que tem diversas nuances. O uso das redes sociais talvez nos aponte um dado a mais: a competição por espaços no Sistema de Justiça, ainda que tangenciada pelo Executivo, pelo Legislativo e pela própria sociedade civil, está se mostrando mais direta e engajada. É uma nova arena mudando velhas estratégias.


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